Cadeira 24 – Chloris Casagrande Justen

Patrono

Luiz Ferreira França (1852-1921)

Nasceu em Curitiba, em 6 de junho de 1852, pai do acadêmico Serafim França. Na ânsia por maiores vôos, mudou-se para São Paulo, onde cursou o seminário, completado aos 18 anos de idade. Desejoso por realizar uma das vontades de sua mãe Florência, matriculou-se na Escola Militar, sediada no Rio. Mas após três anos de caserna, de inquietudes e de saudades, abandonou a carreira das armas, retornando aos seus pagos. Ingressou na imprensa, ao fundar o semanário dominical Íris Paranaense. Enquadrado como pertencente à geração gloriosa, no entender de Rodrigo Júnior, foi festejado como um pensador de idéias avançadas, porém modesto.

Por ocasião da visita do imperador D. Pedro II, em 1880, Curitiba se engalanou. O baile de gala, nos salões do Museu Paranaense, deveria ser precedido de uma apresentação de nossa cultura, um torneio de poesias. Para tanto, foram convocados Luiz França e o poeta Gabriel Pereira, este na época considerado um dos mais aplaudidos declamadores. E Luiz França brilharia com o seu poema Cidade Luz, um sonho onde a civilização ocidental se resumia em Paris. Apaixonado pela leitura, conhecedor de vários idiomas, lia Byron, Tennyson, Longfellow, todos no original, deixando muitos livros por editar. Dedicado à família, na sua casa modesta da Rua Ébano Pereira reunia, na sala da frente, a fina flor da sociedade. Governadores, secretários de Estado, militares, toda a roda palaciana e social lá se concentrava para confabular e solucionar problemas, todos ao redor de um homem simples, sem poderes de mando, mas respeitado por suas sábias decisões, fruto de uma consciência iluminada e serena. Daquelas reuniões saíram os decretos mais judiciosos e prudentes do passado republicano paranaense. Faleceu em Curitiba a 26 de março de 1921. Seu filho, Serafim, deixaria essa linda página de saudade, um hino de louvor, o soneto Meu Pai, recordados aqui os seus tercetos:

Nunca lhe vi faltar a fonte estuante
de uma heróica bondade vigilante.
Bela herança de que me glorifico!

O seu lar foi modesto, quase pobre,
Mas, nos exemplos, nunca vi um mais nobre
E, nas virtudes, nunca vi um mais rico. (WB)

Fundador

Serafim França (1888-1967)

Nasceu em Curitiba, em 17 de agosto de 1888, cursando o primário na Escola Oliveira Belo e o secundário no Ginásio Paranaense. A seguir, foi para o Rio de Janeiro, formandose advogado pela Faculdade Livre de Direito, após o que retorna a Curitiba.

Irrepreensível no trajar, janota, poseur, charuto à boca, gravata borboleta, sempre com uma anedota na ponta da língua, temperamento extrovertido, agudo espírito de observação, freqüentador assíduo da Rua XV, procurava nos transeuntes inspiração para suas deliciosas historietas.

Poeta, fabulista, jornalista, teatrólogo, conferencista, autor de novelas, de recitativos infantis, humorista, escreveu praticamente para todos os periódicos paranaenses, sendo o fundador e proprietário da melhor revista humorística circulante em nosso estado, O Olho da Rua. Como teatrólogo assinou as revistas: De Porto Alegre a Curitiba, Colcha de Retalhos (com José Gelbecke, Generoso Borges e Luís Bastos), Curitiba em Cinematógrafo (com José Gelbecke), A Crise (com Francisco Leite) e o sketch Agência de Noivados.

Lançou uma série de bons livros, como Canção da Terra dos Pinheirais (versos), Senhorita Mistério (novela), Barra Velha (contos, obra premiada pela Academia Brasileira de Letras) e fábulas, no que era mestre, entre outros Rindo e Filosofando, Arca de Noé e Roda-Viva. Foi sócio-fundador do Centro de Letras e da Academia de Letras do Paraná.

Dicesar Plaisant, em Tocaias da História, assim descreve o andar original do nosso retratado: Tem-se a impressão de que, na passada, ele vai recuar e, quando a vence, que dispende um enorme esforço, assentando, no chão, o pé.
Quando de seu falecimento em Curitiba, em 14 de novembro de 1967, Durval Borges choraria a perda do amigo num belo soneto: Assim da vida foi até ao fim, bondoso e puro, o nosso Serafim, vinculado à Arte, em sonhos e alvoradas. Chorem as Musas quem não volta mais: morto é o cantor dos nossos pinheirais, morto é o poeta das fábulas rimadas. Foi recebido na APL por José Gelbecke em 26 de setembro de 1940. (WB)

1º Ocupante

Assad Amadeu Yassim (1935-1985)

Nasceu em Curitiba em 1935. De textura sensível, sua poesia é romântica e melancólica. Formado em 1958, ingressou na magistratura, onde fez carreira a partir do ano seguinte. Desempenhou as funções de juiz nas comarcas de São José dos Pinhais, Paranaguá, Morretes, Antonina, Rio Negro, Colombo e, finalmente, Curitiba, onde passou por varas criminais, cíveis e de Auditoria Militar, culminando com o Tribunal de Alçada.

Costumava dizer que a vida lhe fora boa, embora dura, obrigando-se a ajudar desde cedo o pai no célebre Armazém Amadeu, de secos e molhados, por muitos anos localizado na Praça Zacarias. Isso acontecia geralmente nas férias porque o pai não abriria mão dos estudos do filho. Primeiro a escola! afirmava o velho Amadeu. Tudo muito relativo, porque, na época de estudante de Direito, Assad era encontrado com freqüência atrás do balcão, às voltas com cereais, banha e margarina a granel, pesando e servindo a fregueses e amigos. Jornalista ex-officio, foi muito tempo, na década de cinqüenta, responsável pela coluna Direito & Avesso, no jornal O Estado do Paraná. Data dessa época a edição de seu primeiro livro de poesias, Pó do Deserto. Lançou depois Terra Abandonada, Miragem e O Livro de Nós Dois.

Em 1968 editou Poesia, juntamente com outros autores do Paraná. Na década de setenta, publicou dois livros de Direito: Embargos do Devedor e Ação de Consignação em Pagamento. Pouco antes de morrer, editou Lua Branca de Setembro. O último poema deste livro, curiosamente intitulado Testamento do Poeta, diz: Deixarei tudo aí o meu silêncio, a minha música, o meu poema, / a solidão e a melancolia, / para que tenhas estrelas/ e a lua branca em teu céu. (…) para que possa encontrar/ o infinito do meu sonho/ e me ajoelhar diante de Deus. Faleceu, prematuramente, aos 50 anos de idade, no dia 7 de julho de 1985. Foi recebido na Academia em 25 de fevereiro de 1971, pelo acadêmico Francisco Pereira da Silva. (VHJ)

2º Ocupante

Chloris Casagrande Justen (1923)

Curitibana, filha de José Casagrande e de Isaura, levou uma infância despreocupada, cercada de carinho e de esperanças, a correr pela chácara de seus familiares no Cajuru, à cata de borboletas azuis, a surpreender o canto estriduloso das cigarras e a extasiar-se com a luz prateada da lua. Adolescente, aluna exemplar, já demonstrando por essa época sua decidida vocação para as letras, seria a normalista escolhida, após renhido pleito, a oradora da turma, ao término do curso, aplaudida de pé pelos colegas e pela platéia presente ao magno acontecimento social.

Professora, passou a lecionar, ainda muito jovem, por diversos educandários, a eles distribuindo a semente de seu conhecimento profissional. Vice-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, oradora de amplos recursos, sua atuação marcante como administradora se materializou na imponente obra que é a sede do Centro Paranaense Feminino de Cultura, fruto de muito esforço, força de vontade, renúncia, prestígio, habilidade e disciplina, tornando realidade antigo sonho das associadas da instituição. Diretora-geral do Instituto de Educação por sete anos, vice-presidente do Conselho Estadual durante um decênio, pioneira na implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente no Paraná e em outros Estados, participou, como conferencista, de inúmeros congressos, seminários e encontros sobre o referido estatuto, ministrando cursos sobre os direitos da criança e do adolescente e a proposta pedagógica da Escola e do Professor. E, ainda, sobre Ética, Direitos Humanos e Direitos da Mulher.

Fundadora do Conselho do Magistério do Paraná, pedagoga, possuidora de vários cursos de especialização no país e no exterior, sua cultura se faz presente também no Centro de Letras do Paraná, na Academia Feminina de Letras, no Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, na Sala do Poeta e no Templo das Musas. Ativa participante das sessões acadêmicas, sempre apresentando sugestões e propostas de amplo alcance cultural, é de justiça evidenciar o belíssimo trabalho desenvolvido por nossa acadêmica como presidente da Comissão de História e Geografia do Paraná. Possuidora de diversos títulos honoríficos, dentre eles o de Vulto Emérito de Curitiba, soroptimista atuante, publicou O Estatuto da Criança e do Adolescente e a Instituição Escolar, o livro de versos Jogo de Luz, as crônicas Conversando Sobre o Soroptimismo, sendo ainda a organizadora das obras Mulheres Escrevem, Com Justiça e Com Afeto e O Soroptimismo em Minha Vida. Na Academia, foi eleita em 9 de dezembro de 1996, com posse no Palácio Avenida, em 20 de maio do ano seguinte, recepcionada por mim. (WB)