Cadeira 33 – Roberto Muggiati

Patrono

Nestor Pereira de Castro (1867-1906)

Nasceu no dia 18 de maio de 1867, em Antonina. Órfão muito cedo, de pai e de mãe, foi criado e educado por duas tias, que o matricularam num seminário em São Paulo. Os estudos, porém, concluiu-os no Colégio Moretzsohn, depois de ter abandonado o seminário que o havia iniciado nas belas letras. Retornou a Antonina em 1886, iniciando-se no comércio. Fracassou. Casou em 1887 com Arminda Pinheiro de Castro, com quem teria 12 filhos. Não encontrando ambiente na cidade natal, transferiu-se para Curitiba, onde experimentou dificuldades.

Começou a trabalhar no 19 de Dezembro. Fez, paralelamente, teatro dramático, convivendo com Teóphilo Soares Gomes, Bento Munhoz da Rocha, Chichorro Júnior e Jayme Ballão, com quem escreveu uma revista de costumes musicada por Augusto Stresser. Levada à cena, fez grande sucesso. Envolvido na Revolução Federalista de 1893, fez parte das tropas de Gumercindo Saraiva, extraindo dessa vivência um drama que nunca foi levado à cena. Em contrapartida, foi nomeado secretário de Estado do efêmero governo provisório em 1894, obrigando-o, após a retomada legalista, a asilar-se no Rio de Janeiro. Vinculou-se ao jornal A Cidade do Rio, pouco permanecendo no posto. Embora colaborasse intensamente em revistas e publicações da capital federal, passou dificuldades. Retornou, então, a Curitiba. Em 1899, conforme depoimento de Leocádio Cisneiros Correia, o Léo Júnior, gerente da livraria da Impressora Paranaense e editor do Almanach Paranaense, foi convidado a elaborar, desta vez (já havia participado da feitura do Almanach em 1897), a biografia do pai de Léo Júnior, o humanitário médico parnanguara Dr. Leocádio José Correia, que abriria a publicação do utilíssimo almanaque anual. Fê-lo com brilho, surtindo daí efeitos para minorar suas agruras. Vicente Machado levou-o, então, para A República, reconhecendo-lhe os méritos, apesar de adversário político. Nestor de Castro, porém, fazendo questão de reafirmar o antagonismo, deixa claro que aceita a responsabilidade exclusivamente face à sua penúria. Não havia lugar para a soberba. Dá-se bem, por fim, no trabalho, e é certo que tenha vivido, finalmente, relativa estabilidade financeira.

Pouca coisa dera certo na vida de Nestor de Castro. Publicou Brindes, 1899, coletânea de contos; Bento Cego, Poeta e Cantor de Antonina. Rodrigo Júnior o via como talvez o maior prosador simbolista do Paraná. Faleceu em 14 de agosto de 1906, no momento em que deixava o expediente do jornal: sentindo-se mal, foi atendido ainda numa farmácia próxima, sem sucesso. (VHJ)

Fundador

Samuel César de Oliveira (1896-1932)

Mineiro de Belo Horizonte, nasceu em 6 de setembro de 1896. Veio para Curitiba ainda pequeno, cursando aqui o Ginásio Paranaense, onde participou da diretoria do Centro Estudantil. Em 19 de dezembro de 1917 concluiu com brilhantismo o curso de Direito da Universidade do Paraná, escolhido orador do Centro Acadêmico. Dono de privilegiada inteligência, acumulou um cabedal de conhecimentos de causar inveja aos seus contemporâneos. Ansioso por desvendar novos horizontes, orador fluente e arrebatador, imaginoso, interessado pelos estudos sociais, crítico de arte, admirável pianista, jornalista respeitado e temido, sempre vencedor, os que não lhe conheciam bem a superioridade tachavam-no de vaidoso, já que detestava a vulgaridade. Falava, doutrinava como mestre. Membro do Centro de Letras do Paraná, foi um dos fundadores do Círculo de Imprensa do Paraná, agremiação de jornalistas de efêmera duração.

Cultor da arte teatral, escreveu as comédias A Vida Vence, encenada em 1920, O Grande Amor e César, estas duas em três atos. Um dos fundadores da Academia de Letras do Paraná, teve por patrono de sua cadeira o jornalista Nestor de Castro. Seu elogio regulamentar, proferido em Sessão Solene de 24 de janeiro de 1927, é uma peça de alto valor biográfico. Falante, voz alta, sorridente, pasta de advogado em uma das mãos, vítima de uma moléstia que lhe fora deformando uma das pernas e sem a visão em um dos olhos, vivia a andar aos pulos, com a sua resistente bengala, castão de ouro, luvas e um indefectível monóculo, preso a um cordel de seda. Agravando-se o seu estado de saúde, transferiu-se para Antonina, em busca de melhoras. Ali ocupou as funções de 1° Suplente de Juiz de Direito em exercício. Casou com Fredolina Cercal em 7 de outubro de 1926. Do casamento, nasceu a menina Sael, nome curiosamente formado da primeira e última sílaba do nome Samuel. Seis anos mais tarde, faleceu em Antonina, em 3 de junho de 1932, com 37 anos de idade. (WB)

1º Ocupante

Alfredo Romário Martins (1874-1948)

Nasceu em Curitiba no dia 8 de dezembro de 1874. Diante das dificuldades financeiras da família fez apenas o curso primário, já que, com a morte do pai, foi obrigado a abandonar os estudos. Aos 15 anos já estava empregado como aprendiz de tipógrafo, começando no Dezenove de Dezembro, passando depois para A República, Correio Oficial, Folha Nova e Federação. Das oficinas passou para as redações, de tipógrafo a jornalista. Mas nunca esqueceria a sua humilde condição, como relembrou: …quando a merenda que eu levava para o trabalho era posta a aquecer na caldeira do motor da oficina, tinha o sabor dos mais finos manjares.

Desempenhou vários cargos públicos, como o de Oficial da Secretaria de Obras Públicas e Colonização, Diretor do Museu Paranaense durante 26 anos, Delegado Fiscal do Governo Federal junto ao Ginásio Paranaense e Diretor do Departamento de Agricultura. Fundou a União Rural Paranaense, a Granja do Cangüiri, o Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. Desenvolveu o reflorestamento e a silvicultura. Realizou a Cruzada do Trigo. Foi secretário do Diário do Comércio, da República e da Tribuna. Tomou parte ativa na questão de limites entre Paraná e Santa Catarina, publicando nessa área cerca de 14 trabalhos bem documentados, mas que não mereceram, infelizmente, a devida atenção das autoridades. Camarista, presidente da Câmara Municipal de Curitiba, eleito deputado ao Congresso Legislativo em dez legislaturas, foi autor de vários projetos, entre os quais o da criação da Escola Agronômica do Paraná. Historiador, escritor, indianista, folclorista, sócio benemérito do Círculo de Estudos Bandeirantes, fundador do Centro de Letras do Paraná, presidente de honra da Associação Paranaense de Imprensa, dono de uma bibliografia extensa, senhor de inesgotável anedotário, de verve repentista, tinha como seu ponto a porta da livraria da Gazeta do Povo. Tio de Serafim França, de Oscar Martins Gomes e de Arthur Pajuaba, foi considerado o Príncipe dos Jornalistas Paranaenses. Faleceu na sexta-feira, 10 de setembro de 1948, saindo o féretro de sua residência na Rua Cruz Machado, 253, às 16 horas, para o Cemitério Municipal de Curitiba. Otávio Secundino, abalado com a perda do amigo, afirmava que Romário não morrera, imortalizara-se. (WB)

2º Ocupante

José Loureiro Ascenção Fernandes (1903-1977)

Nasceu em Portugal em 12 de maio de 1903. José Loureiro Fernandes foi a alma do Círculo de Estudos Bandeirantes. Sua figura cresceu e se agigantou no esforço da promoção da continuidade daqueles debates e tertúlias, cuja efervescência sacudia as inteligências marcantes de uma geração inquieta e indagativa, mergulhada em cogitações filosóficas. Foi tão paranaense ou paranista quanto Alcântara Machado se denominava paulista. Seu apego pelas coisas do passado, antropólogo minudente e tradicionalista por vocação, profeta às avessas de um velho mundo que desapareceu, deve-lhe o Paraná a criação do Museu de Arqueologia e Artes Populares de Paranaguá, onde se devotou à reconstituição dos lineamentos históricos da civilização tingüi.

Nas lides do magistério superior soube aplicar os conhecimentos hauridos em pesquisas de campo e outras observações diligentes, notadamente quanto à antropometria e a hematologia dos caingangues, os sepultamentos no sambaqui de Matinhos, o interesse da investigação lingüística nos domínios do folclore do mar, além de outros de cunho científico. Da bibliografia registrada no Círculo, constam ainda várias conferências e monografias reveladoras de uma rara capacidade de produção científica e literária, própria de um polivalente. Quando escreveu sua Contribuição à Geografia de Praia de Leste, em 1947, escapou milagrosamente de morrer afogado, perto de Matinhos. Numa canoa, ele e mais alguém faziam pesquisas de fundo do mar em dia de vento. Súbita onda virou a embarcação. Felizmente os dois conseguiram, depois de muitas horas, ser salvos por pescadores. É bem da verdade que muitos dos grandes homens permanecem mais ou menos ignorados do grande público por uma razão muito simples: sua obra não se pode avaliar em termos publicitários, por ser uma luta subterrânea. Muitos dos grandes empreendimentos que elevam a nossa cultura ou que exercem um fim social de valor, sendo-os em plena função, como que de rotina, aceitos ou louvados, mas sempre encarados como decorrência normal do progresso. Entretanto, poucos sabem o que custou, muitas vezes, a sua realização, principalmente aquele salto inicial e heróico que vai da idealização ao primeiro passo da conquista. Loureiro Fernandes situa-se entre esses heróis anônimos. Faleceu em Curitiba, dia 16 de fevereiro de 1977. (TV)

3º Ocupante

Edwino Donato Tempski (1913-1995)

Nasceu em Erechim (RS), no dia 22 de setembro de 1913. Veio com os pais, em 1919, conhecer o Paraná e aqui plantou raízes. Fez o curso de Humanidades no Colégio Sagrada Família, na Escola Henryk Sienkiewicz (então dirigida pelo professor Modesto Falarz) e Colégio Santa Maria. Ingressou no Curso de Pedagogia da Escola de Professores (antiga Escola Normal) e na Faculdade de Medicina do Paraná, na qual diplomou-se em 1935. Ele já trazia uma considerável bagagem editorial de louváveis publicações no Boletim do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, de que são exemplos o Estudo Referente ao 1o Centenário da Imigração Polonesa e a Biografia de João Zaco Paraná, este no volume 19 da Estante Paranista, também daquela instituição literária. Afirmava Bento Munhoz da Rocha Neto, que conhecer as raízes e a gente polonesa era serviço de alto valor que Tempski prestava ao Paraná e ao Brasil. Sobre o livro bibliográfico acerca do imortal escultor, diria Valfrido Pilotto que foi concebido em lances de obra-prima. Todavia, Edwino Donato Tempski superou a si próprio com uma obra que, na definição do admirável Mansur Guérios, há de postar-se indiscutivelmente, ao lado de todo o já incorporado edifício lingüístico caingangue, e o qual, para os futuros investigadores, servirá para a formação da gramática histórico-comparada, cujo fim último é contribuir para a solução do problema das origens do homo americanus. Referimo-nos ao volume XLIV do Boletim do Instituto Histórico, já reportado sob o título Caingangues, Gente do Mato. Ele diz mais: Tempski se comporta como um Telêmaco Borba moderno a recolher vocábulos indígenas e a elaborar, pacientemente, ao longo de sete anos no meio dos silvícolas, o registro de todos os fonemas e a sistematizar seu vocabulário de forma a ressuscitar, em definitivo, a língua caingangue.

Percorreu, para tal fim, custoso itinerário nos confins das aldeias espalhadas às margens do médio Rio Uruguai, no Rio Grande do Sul. Além de armazenar elementos historiográficos, desenvolveu a parte etnográfica e praticou exercícios elementares de gramática e versões das corruptelas, de modo a confrontar o material lingüístico com outros autores de renome. Faleceu no dia 21 de março de 1995, em Curitiba. Foi saudado na Academia por De Sá Barreto, em 30 de novembro de 1982. (TV)

4º Ocupante

Edilberto Trevisan (1923-2010)

Filho de Bortolo Trevisan Filho e de Maria do Rosário Pereira Trevisan, nasceu em Morretes, em 5 de outubro de 1923. Fez o curso primário em Paranaguá, para depois, em Curitiba, preparar-se, com os padres lazaristas do Seminário São José e no Colégio Estadual do Paraná e Colégio Novo Ateneu, para o curso de Direito da Universidade Federal do Paraná, que concluiu em 1954. Recebeu, entre outras láureas acadêmicas, o Prêmio Hugo Simas, concedido pela Prefeitura Municipal, por ter tirado o 1° lugar em todo o curso.

Profissionalmente, exerceu a advocacia e integrou o quadro de advogados da Rede Ferroviária Federal até o momento em que se aposentou, em 1984. Enquanto desempenhava essas funções, incumbiu-se, paralela e graciosamente, de coordenar e organizar o acervo destinado ao Museu Ferroviário de Curitiba, hoje uma realidade. Literariamente, estreou na revista O Livro, em 1944. Como colaborador, percorreu as redações do Correio dos Ferroviários, da Notícia Bibliográfica e História, de Campinas, e da Gazeta do Povo, de Curitiba, por meio do qual publicou mais de uma centena de artigos sobre a história do Paraná. Pertenceu aos institutos históricos de Paranaguá e do Paraná. Sua bibliografia é inteiramente paranista: Do Litoral ao Planalto, 1965; A Gênese do Museu Paranaense, 1976; Ao Apito do Trem, 1996; Quando a Província Nasceu, 1998; e Curitiba na Província, com ilustrações de Euro Brandão, 2000.

Entre suas preocupações literárias encontram-se algumas curiosas e significativas traduções: Os índios Héta: Peixe em Lagoa Seca, de Vladimir Kozak e outros, 1981; 40 anos no Interior do Brasil: Aventuras de Um Engenheiro Ferroviário, de Robert Helling e As Odes de Horácio, os dois últimos ainda inéditos. Foi recebido na Academia em 29 de outubro de 1999, pelo acadêmico José Carlos Veiga Lopes, falecendo em Curitiba em 15 de março de 2010. (VHJ)

5º Ocupante

Roberto Muggiati (1935)

Roberto Muggiatti nasceu em Curitiba em 1935. É jornalista desde 1954, quando começou na Gazeta do Povo, jornal em que exerceu a crítica literária e musical. Foi, em seguida, correspondente da Associated Press, no Paraná. Cursou Jornalismo no Centre de Formation des Journalistes, em Paris, como bolsista do governo francês e trabalhou na BBC de Londres, nos anos 1960. A partir da década seguinte, atuou como repórter especial, redator, editor e diretor da revista Manchete; editor assistente de Veja; diretor da revista Fatos & Fotos e chefe de redação da revista Ela, além de colaborador de O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Diário Carioca, revista Senhor, revista Realidade, do suplemento do jornal Valor Econômico e das revistas Bizz e Nossa História. Responsável também por inúmeras outras publicações, como a série de 52 fascículos História do Brasil. Foi cronista e roteirista de televisão.

Publicou os livros: Mao e a China (Record, 1968); Rock/O Grito e o Mito (Vozes, 1973); Rock/El Grito y el Mito (Siglo Veintiuno Editores, 1975); O Que É Jazz (Brasiliense, 1983; atualmente, no Círculo do Livro); Rock/Do Sonho ao Pesadelo (L&PM, 1984); Rock/ De Elvis à Beatlemania (1954-1966) (Brasiliense, 1985); Rock/Da Utopia à Incerteza (1967-1984) (Brasiliense, 1985); Jazz/Uma História em Quatro Tempos (L&PM, 1985); Blues/Da Lama à Fama (Editora 34, 1995); A Revolução dos Beatles (Ediouro, 1997); New Jazz: De Volta para o Futuro (Editora 34, 1999); A Contorcionista Mongol (Editora Record, 2000); Improvisando soluções: o jazz como exemplo para alcançar o sucesso (Editora Best Seller, 2008.). Traduziu A Selva do Dinheiro (Record, 2002); A Selva do Amor (Record, 2003) e Caminhando, de Henry David Thoreau (José Olympio, 2006), dos quais também foi editor, e obras de Ian Fleming, Henry Miller, Kurt Vonnegut Jr, Irving Wallace, John Le Carré (O jardineiro Fiel), Michael Chabon, E.L. Doctorow , Tariq Ali, romances de John Fante e Henry Miller para a José Olympio (2003), as biografias dos músicos Chet Baker (Companhia das Letras, 2002), Billie Holiday (Zahar, 2003), Charles Mingus (Zahar, 2005), a versão reconstituída e autorizada de O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (Record, 2003) e The Dark Side of the Moon/O nascimento da obra-prima do Pink Floyd, de John Harris (Zahar, 2006). Seus textos também constam de diversos livros em co-autoria. Entre suas memórias curitibanas destacam-se Nós em busca da província perdida – Revista Nicolau, 1992, e Jazz: boemia musical na madrugada – Revista Panorama, 1960. É colunista de jazz de O Estado de São Paulo e colaborador do Caderno G da Gazeta do Povo. Tomou posse em 9 de maio de 2011, no Paço da Liberdade, saudado pelo acadêmico Adherbal Fortes. (EB)