Cadeira 39 – Cecília Vieira Helm

Patrono

Aristides de Paula França (1879-1910)

Nasceu em Curitiba em 2 de junho de 1879. Completados os preparatórios nesta cidade, matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Mas ao presenciar uma necropsia, a mutilação de membros de um cadáver, sentiu-se tão abalado que escreveu de imediato a seu pai, Inácio, pedindo permissão para abandonar o curso médico e tentar a Faculdade de Direito de São Paulo.

Sempre pensando em sua terra, saudoso dela, decidiu realizar o curso jurídico em exames vagos, aqui estudando para, em segunda época, em março, prestá-los em São Paulo. O que afinal não daria certo, abandonando o novo curso. De temperamento retraído, dotado de grande sensibilidade, por vezes apresentando crises de desconfianças injustificáveis, talento robusto, não confiava no seu próprio valor, pois, crítico implacável de seus trabalhos literários, via neles defeitos, incorreções, rasgando-os por imperfeitos. Desconfiado, de certa feita ao entregar à redação do Diário da Tarde um soneto e, apesar da opinião insuspeita de Euclides Bandeira, achando-o magnífico, insistiu em só permitir fosse a poesia publicada se acompanhada de um pseudônimo, Aristarco Sciolo. Escrevia muito e sempre, versos, crônicas, críticas, assiduamente em O Sapo e em o Azul, variando sempre de pseudônimos, como a encobrir, envergonhado, suas produções de alto valor literário.

Morreu jovem, em 3 de janeiro de 1910, em Curitiba aos 30 anos de idade, às voltas com as rimas e com o trabalho prosaico de guarda-livros como auxiliar de seu pai. Seus sonetos seriam reunidos e publicados em duas edições, em 1911 e em 1931, Dolência Astral. Raul Faria, que o estudou em vários artigos publicados no Comércio do Paraná, seu colega, confidente e amigo, assim definiu o autor de A Tortura do Artista: Espírito elevado que muito compreendeu com precocidade os disfarces do convencionalismo com que sempre andou em luta, profligando as lantejoulas das mentiras do interesse do preconceito social. (WB)

Fundador

José Antônio Fernandes Cadilhe (1881-1942)

Antoninense nascido em 26 de agosto de 1881 — ainda que a data seja controvertida — iniciou sua vida profissional como mestre-escola, empregando-se, depois, na Estrada de Ferro Paraná-Santa Catarina como praticante de telegrafista, depois telegrafista e, mais tarde, agente de estação. Jornalista combativo, colocou-se à frente do Diário do Comércio, de Paranaguá. Em Ponta Grossa foi redator do Diário dos Campos. Embora excelente poeta, sua capacidade para o teatro fez dele mais conhecido e respeitado como comediógrafo e dramaturgo. Casado por duas vezes, com Siomara e depois com Adelaide, com 14 filhos para sustentar, claro que teria de trabalhar exaustivamente. Considerando-se um joguete do destino, confessava nestes tercetos finais de seu soneto Razão Suprema o motivo pelo qual suportara durante toda a vida revezes físicos e morais:

Se à mente obrigo a pensamentos quietos
num círculo onde a luz tem fracos brilhos
e se sucedem males indiscretos;

se ainda sofro a pressão dos empecilhos, é —
razão agridoce — ó, meus afetos!
porque sou pobre e tenho tantos filhos…

Desde cedo, arrimo de mãe viúva, só contou com a proteção de seu padrinho, um velho comerciante português que não via com bons olhos as inclinações artísticas do afilhado. Assim, Cadilhe subiu a serra, chegando a Curitiba. Aluno de Júlia Vanderley e, depois, da Escola Normal, completou seu curso de professor com pouco mais de 17 anos de idade. Autor de Poesias (1916), Valdina (poema dramático, 1917) e Delirium Tremens (poema, 1945, obra póstuma), certamente no teatro a sua maior vocação, produzindo mais de 50 peças, todas com muito sucesso, muitas levadas para os grandes centros e lá, depois de levemente modificadas, divulgadas e encenadas com novos títulos e sob a chancela de novos autores.

Na aparência um homem introvertido, na realidade um espírito sensível, de elevado temperamento cívico, faleceu na madrugada da terça-feira de 10 de novembro de 1942, em sua residência, na Rua Augusto Stellfeld, em Curitiba, quando ocupava o cargo de secretário da 1a Divisão da Estrada de Ferro. (WB)

1º Ocupante

José Farani Mansur Guérios (1905-1943)

Nascido em Curitiba em 7 de novembro de 1905, professor, catedrático de Direito, escritor e tribuno, um dos fundadores do Círculo de Estudos Bandeirantes. Desde os bancos escolares aprimorou o gosto pelas letras, como fundador do Grêmio Literário São Luís e como sócio do Centro Acadêmico de Direito. Trabalhador infatigável, a espalhar pelas revistas acadêmicas e técnicas de Direito os frutos de seus estudos e observações, pouco e pouco seu organismo, com aquela palidez de vegetal sem sol, passou a sentir os efeitos de tanta dedicação. Corpo frágil, atormentado por sofrimentos físicos que o acompanharam desde a infância, ascendeu, em curto prazo, de simples promotor público do interior do Estado às culminâncias da cátedra de Direito Internacional Privado, conhecido até fora de nossas fronteiras, em correspondência ativa e permanente com notáveis mestres dessa disciplina em todo o mundo. As suas orações, as suas teses e demais trabalhos jurídicos, além do tesouro de pensamentos cristãos dos Mosaicos Marianos (1939), são o testemunho de uma existência totalmente devotada ao bem comum.

Lacerda Pinto estudando-lhe a obra, na sessão comemorativa do passamento do saudoso jurista, na Academia Paranaense de Letras, em 1945, frisa que o mérito maior do nosso biografado não se encontra no que ele tenha deixado escrito mas sim nos padrões dignificantes da sua própria vida, um exemplo e um estímulo para os que tiverem a ansiedade dos cimos e se dispuserem a fazer o esforço necessário para respirar o ar das alturas. José Farani faleceu, muito jovem, em 4 de janeiro de 1943, em São Paulo. Ainda Lacerda Pinto retrataria num soneto o colega, cuja mocidade fora um eterno calvário, cabendo aqui os tercetos finais:

Um segredo, porém, trazias na alma forte
que a morte não temia: a tua aceitação
de, em plena flor e em pleno sonho, adormecer;

de não ter um lamento e, no último transporte,
gravar afogo a Cruz no próprio coração,
para ensinar a Vida a quem quiser viver.
(WB)

2º Ocupante

Rosário Farani Mansur Guérios (1907-1987)

Nasceu em Curitiba em 10 de setembro de 1907 tornando-se um dos mais competentes e respeitados filólogos nacionais. Desde cedo passou a se interessar pelos estudos da lingüística, da glotologia e do aprendizado de várias línguas. No convívio familiar, ouviu e aprendeu a lidar com três idiomas diferentes: o de seu pai, o árabe; o de sua mãe, o italiano; e o de seu próprio país. Estudou nos ginásios Bom Jesus, Diocesano e Santa Júlia. Em 1934, formou-se em Direito pela Universidade do Paraná. Toda a sua vida foi dedicada ao magistério. Lecionou Português no Colégio Estadual Regente Feijó, em Ponta Grossa, no Colégio Estadual do Paraná por 14 anos e na Escola Técnica de Curitiba durante duas décadas. Professor Catedrático titular de Língua Portuguesa do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade do Paraná, professor contratado de Filologia Românica na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e assistente de Lingüística no Museu Paranaense. Casado em 1941 com Fili, muitas vezes a esposa o acompanhava até aos redutos indígenas, no convívio dos silvícolas, a estudar-lhes a língua e os costumes. Tanto assim que bem moço, com apenas 25 anos de idade, surpreendeu os estudiosos ao lançar Novos Rumos da Tupinologia. Conhecedor de vários idiomas, autor de mais de trezentas e seis publicações filológicas, desde 1937 a Editora Saraiva faria com ele um contrato de exclusividade para a publicação de suas obras didáticas.

Manteve durante muitos anos na Voz do Paraná e na Gazeta do Povo a seção Divagações Lingüísticas, de consulta obrigatória por estudantes e professores. Membro da Academia Brasileira de Filologia, do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, do Círculo de Estudos Bandeirantes, revisor de nossa Constituição de 1947 e de 1967, professor emérito da Universidade Federal do Paraná em dezembro de 1979, delegado permanente do Brasil junto ao Comitê Internacional de Ciências Onomásticas com sede na Bélgica, deixou entre seus numerosos trabalhos Estudos Sobre a Língua Caingangue (1942), Estudos Sobre a Língua Camacã (1945) e Tabus Lingüísticos (1941 e 1956). Internado no Instituto de Medicina e Cirurgia, duas semanas depois faleceu em Curiti-ba, de trombose cerebral, em 31 de agosto de 1987. (WB)

3º Ocupante

Francisco Filipak (1924-2010)

Filho de Antônio Filipak e de Maria Gawlak Filipak, nasceu em Araucária, em 7 de agosto de 1924. Formado em Filosofia Pura na UNISINOS, de São Leopoldo (RS), em 1945, e em Letras na PUCPR, pela qual também tornou-se Mestre em Letras (1984). Fez o Curso de Especialização em Língua e Cultura Polonesa pela UFPR, em convênio com a Universidade Jaguelônica de Cracóvia, Polônia, em 1997. Professor Titular de Lingüística, Teoria Literária, Língua e Literatura Latinas e Técnica de Comunicação nos Cursos de Letras de União da Vitória, Irati, Universidade Tuiuti e Faculdade de Plácido e Silva, estas em Curitiba. Professor de Português concursado em 1963 no Magistério Público do Ensino Médio do Paraná, exerceu a profissão na Escola Normal Colegial Professora Amasília e na Escola Técnica de Comércio Cel. Davi Carneiro, em União da Vitória. Professor de Língua e Literatura Espanholas e de Filosofia no Colégio Túlio de França, em União da Vitória. Foi Diretor da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória entre 1968 a 1972, criando os Cursos de Letras e Geografia. Recebeu, em 1956, o título de 1° Cidadão Honorário de União da Vitória.

Autor das seguintes obras: Teoria da Metáfora (Tese de Mestrado), 1984; Fundamentos da Linguagem Figurada, Antologia do Vale do Iguaçu, com Nelson A. Sicuro, 1976; Helianto Outonal (poemas), 1976; Centenário no Brasil da Família Filipak, 1980; Dicionário Sócio-Lingüístico Paranaense, 2002; Glossário do Vale do Iguaçu; Vocabulário Regional de Ibiraçu (ES); Antologia Polono-Brasileira, 1998; Curitiba e Suas Variantes Toponímicas, 1999. Co-autor do Calendário Cívico-Religioso Nacional, Estadual e Municipal de Curitiba, em 1982, e das publicações da COMOCI-PR, Vols. I, II e II. Deixou ainda: Dicionário Regional do Contestado (PR e SC), Dicionários Toponomásticos Indígenas do Paraná e Santa Catarina, Ensaio Sobre Tropeirismo Andino-Brasileiro e Antologia do Pinheiro. Ministrou cursos sobre Linguagem Figurada nos Cursos de Letras de Curitiba, Maringá, Cascavel, União da Vitória e Irati (PR); Alegre, Cachoeiro do Itapemirim, Colatina e Linhares (ES); Caçador, Concórdia e Lages (SC); Caruaru e Garanhuns (PE); Ourinhos e São Paulo (SP); Campina Grande (PB) e Campo Grande (MS), bem como a escritores e poetas em Campos (RJ) e Vitória (ES).

Foi membro da Academia Internacional de Lexicografia de Divinópolis (MG), Academia ALACS de Irati, Academia de Letras do Vale do Iguaçu, Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, Centro de Letras do Paraná, Círculo de Estudos Bandeirantes e UBT, Curitiba. Faleceu em Curitiba em 27 de março de 2010. (WB)

4º Ocupante

Cecília Vieira Helm (1937)

Cecília Maria Vieira Helm nasceu em Curitiba, em 16 de novembro de 1937, filha de José Rodrigues Vieira Neto, professor, advogado, ex-presidente da OAB/PR, e de Hermínia Carneiro Vieira. Graduada em Ciências Sociais, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFPR, cursou Especialização em Antropologia Social, em Etnologia Indígena, na UFRJ. Realizou Pós-doutorado no Centro de Investigaciones y Estúdios Superiores en Antropología Social na Cidade do México, desenvolvendo o projeto de pesquisa Relações de poder e identidade étnica entre os Kaingang do Sul do Brasil.

Em 1963 foi contratada pela Universidade Federal do Paraná a pedido do professor Loureiro Fernandes, precursor da Antropologia no Brasil. Realizou sua Livre-docência em 1974, com a tese A integração do índio na estrutura agrária do Paraná, o caso Kaingang. Em 1977, por concurso público, se tornou Professora Titular em Antropologia, com a defesa da tese O índio camponês assalariado em Londrina: relações de trabalho e identidade étnica. Foi Chefe do Departamento de Antropologia da UFPR; Professora e Coordenadora do Curso de Especialização em Antropologia Social da UFPR; Professora Visitante e Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina; e Diretora do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR, em Paranaguá. Também Coordenadora e chefe do Patrimônio Cultural da Secretaria de Cultura do Paraná, gestão José Richa; membro do Conselho Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural e do Conselho Estadual de Cultura. Foi vice-diretora da Associação Latino-americana de Antropologia e diretora da Associação Brasileira de Antropologia.

Realizou pesquisas sobre A Implantação de Usinas Hidrelétricas em terras indígenas no Sul do Brasil, sobre As Usinas Hidrelétricas na Bacia do Rio Tibagi e os Povos Indígenas, Guarani, Kaingang e Xetá; e sobre a Usina Mauá no Rio Tibagi. Produziu pesquisas também para a elaboração do Laudo pericial antropológico em Mangueirinha, por solicitação do Ministério Público Federal, para o Laudo antropológico sobre os Povos Indígenas Kaingang e Guarani da Bacia do Rio Tibagi, e para o Relatório antropológico sobre a Demarcação da Terra Indígena Boa Vista, Paraná. Autora da História da Antropologia no Estado, com a obra Os 50 anos da Antropologia no Paraná. Destacam-se, ainda: Diálogos entre Direito e Antropologia: primeiras aproximações interdisciplinares; A Etnografia, a perícia e o laudo antropológico nos processos judiciais; e A Antropologia dos Nativos, publicado pela Universidad Autonoma de La Plata, Argentina, entre tantos trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Tomou posse na APL em 2 de maio de 2011, saudada por Carlos Roberto Antunes dos Santos. (EB)