A ACADEMIA TEM NOVO PRESIDENTE

Está marcada para o próximo dia 06 de março a solenidade de posse da nova Diretoria da Academia Paranaense de Letras para o biênio 2017/2018, à frente o acadêmico Ernani Buchmann, conduzido à Presidência pela unanimidade dos seus pares, na sessão de 14 de dezembro passado.

Ernani é homem ainda jovem, comparada sua idade com a da média de idade que prevalece na nossa Casa de Letras, além do que tem se revelado um dos acadêmicos mais representativos da nossa comunidade literária por sua produção cultural, contribuindo para o prestígio da instituição.  Assim, sua formação e ânimo de trabalho prestigiam nossa previsão do sucesso que haverá de marcar não só seu mandato como os anos futuros da Instituição.  

Mas, a ocasião é oportuna para lembrar que, confiado no exemplo do Cônego Januário, secretário do Instituto Nacional Histórico e Geográfico durante o Império, há algum tempo acreditávamos que o destino e o sucesso de uma entidade cultural como a nossa depende principalmente do desempenho de um bom secretário. Assim como o contributo de quem seja seu orador oficial, alardeando suas grandezas.  Distribuindo cartões postais em dia de festa. Mas o Presidente, seria uma figura simplesmente decorativa, assumindo porte heril, mas reduzido a aconselhar e conciliar. Um trabalho de salão.  Hoje, porém, já não penso assim. Pelo contrário, o Presidente é que constitui a figura principal e forte de uma instituição.  É ele o responsável pela vida e o tamanho da entidade. Ele é que agrega, aproxima, dá corpo e destino à grei social.

Nesse sentido tenho especial e admiração pelo trabalho do padre lazarista Luiz Miéle, então à frente do Círculo de Estudos Bandeirantes da capital, uma entidade religiosa e confessional fundada em 1929, reunindo um pugilo de jovens, os mais promissores do laicato católico, com vistas à formação de uma elite intelectual, à luz da doutrina  e da fé católica.

Miéle distribuía as tarefas, voltadas para temas culturais e religiosos,  que criavam um clima permanente de interesse e contribuíam  para a formação de uma das mais brilhantes gerações intelectuais do nosso Estado. Daí saiu a sede do Circulo, o belo edifício da Rua  XV, como saíram figuras notáveis como as de Bento Munhoz da Rocha, Sá Nunes, Brito Pereira, Mansur Guerios, Linguaru do Espírito Santo, Mário de Abreu e tantos mais.  Foi o foco da fundação da primeira Faculdade de Filosofia de Curitiba (1937), berço da Faculdade Católica, depois integrada à PUC-Pr).

Procurei identificar esse mesmo espírito e direção em Túlio Vargas Um intelectual bem avisado e bem organizado. Como secretário guardo a impressão de que mantinha atenção em tudo quanto havia e usava mãos habilidosas e de mando na direção da entidade, não para interferir nas escolhas dos membros da casa, que foram dezesseis e bem escolhidos, mas para prevenir a presença das aves de arribação.  Assim na vaga deixada por Oliveira Franco Sobrinho, diante dos muitos postulantes à vaga, Túlio anunciou, a tempo, a participação do Ministro Milton Luiz Pereira, recém aposentado do Superior Tribunal. O anúncio e a fama do novo participante espantaram os adventícios, e o desmentido só foi revelado às vésperas do pleito. E então se fez a eleição, mas só com os que, a seu juízo, mereciam… E Túlio tinha até oradores de plantão, que usava para animar as sessões tomadas pelo tédio. Nada fugia de sua vigilância e da sua habilidade em preservar nosso silogeu.

Nesse tempo, porém, havia concorrência; hoje é só um por vez, e vem escoltado por mão amiga e com lista de adesão. Infelizmente, muitos dos nossos eventuais candidatos já adiantam seu desinteresse pela vaga. Foi assim na França com Stendhal, Flaubert, Proust, Gide que desdenharam das láureas acadêmicas. No Brasil também, tantos eventuais acadêmicos antecipam a dispensa de vergar a “pelerinne”.

Mas, o que desperta maior admiração, é que além  desses tantos, dos outros e dos nossos, que dispensam homenagens oficiais, o candidato único não oferece condições de homenagem e avaliação da própria densidade  literária da nossa cultura local. E, o que ainda mais me admira é que, embora seja um único candidato, ausente do confronto e da disputa, há em torno dele intensa movimentação e manifestações de apoio, como num  clima de verdadeira competição literária.

O que me leva a concluir que o brasileiro é  ao mesmo tempo tanto autoritário como democrata: porque impinge um único nome, à sua escolha, mas imprime em torno dele a aparência de uma disputa democrática.

Senhor Presidente, vejo também que precisamos de meios melhores de comunicação e troca de informações. Nos velhos tempos a comunicação era pessoal e formal. Era feita pelo correio. Hoje é pela internet, quando se sabe que há colegas que não têm computador ou têm dificuldade de conviver com ele. Conservam hábitos tradicionais que resistem às inovações da tecnologia.

Assim também quanto à nossa revista. Durante seu mandato Túlio Vargas tirou diversos exemplares do Academus, uma  pequena publicação oficial noticiosa da Academia, bem editado e ilustrado, graças ao apoio da Reitoria da Universidade Católica do Paraná. O Academus já não existe mais. Nossa Revista, porém, data vênia, carece de uma reformulação. Precisa ganhar nova configuração capaz de garantir uma sequência das matérias que privilegie temas propriamente paranaenses e ofeeça estudos de qualidade cultural e oportunidade. As primeiras páginas devem ser ocupadas por trabalhos que dêm mostras da qualidade do nosso trabalho, prestigie o nome da Academia e atraia leitor. Primeira página não dá qualidade para ninguém; muitas vezes compromete a dos outros. E assim pela ordem. Outrossim, nada de discursos. Ninguém os lê, diz o mestre Rodrigo Octávio. O discurso vive de emoção que provoca e que o papel geralmente não dá.  E é ela que lhe confere vida e esse frisson coletivo. Ele vive da emoção, da sonoridade e do calor da voz humana.

Enfim, são estas as poucas e breves ponderações que nos ocorrem à margem de um novo tempo de mandato da nossa Academia. São ditos sem magoas ou pretensões, pensando apenas que a Academia é a nossa voz culta, pela qual devemos zelar e preservar, de modo a podermos nos sentir orgulhosos da nossa contribuição à vida e à expressão cultural do nosso país.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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