A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO DE VARGAS LlOSA

Li recentemente, no noticiário diário, que o Ministro da educação do Japão recomendou aos departamentos de humanidades das universidades do seu país, que procurassem excluir os cursos de Filosofia, Sociologia, Letras e outras disciplinas da área, para conformar a cultura geral aos interesses maiores da nação e às necessidades atuais da civilização moderna.

Alegou que seguia uma orientação de política cultural que já vigorava na direção das universidades dos Estados Unidos e contava com igual precedente em medida adotada pelos órgãos australianos de fomento à pesquisa. O fundamento era sustentado por um renomado filósofo alemão, para quem a promoção desses cursos e disciplinas culturais consistia num verdadeiro “desperdício de dinheiro”.

A iniciativa já não surpreende: é uma síndrome que vem caracterizando nosso tempo.

Não faz tempo, Vargas Llosa, – escritor peruano, prêmio Nobel de literatura (2010), publicou “A Civilização do Espetáculo”, uma radiografia da cultura e do nosso tempo, ocasião em que denunciou a banalização atual das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista, a frivolidade da política e a propensão para converter nossa sociedade num mero espetáculo de distração e entretenimento.

A ideia parte da ingênua suposição de que se possa promover a democratização universal da cultura e da arte, através do empobrecendo do seu alcance, com sua conversão num produto superficial, de consumo vulgar e barato. A cultura passou a ser produto de difusão extensiva e ostentada a custo de um mínimo esforço, criando assim a ilusão falsa de ser culto e estar na vanguarda do seu tempo.

Dessa ideia guardei a memória de um recente pensador alemão que, em entrevista da imprensa, lembrou a invenção moderna do rádio, como uma das manifestações de desvitalização da cultura contemporânea. Ora, independente de quem tenha inventado o “telegrafo sem fio”, seja Marconi, o americano Nikola Tesla ou o brasileiro padre Moura, o rádio surgiu para demolir a hegemonia dos jornais impressos e, mais que isso, para servir também como poderoso veículo de comunicação humana e outro tanto difusor da arte e da cultura. Ora, vencida sua fase de ouro, o que restou do rárioe foi servir de entretenimento doméstico das categorias mais simples da sociedade ou de companheiro de nossas manhãs e fins de tarde de trânsito intenso, sem maior significação.

E assim também se houve a televisão, que ao invés de fazer da riqueza e da sedução de suas imagens um instrumento vivo e amplo de criação e divulgação cultural, reduziu seus melhores horários, à divulgação de espetáculos de circo e novelas de enredos populares e gosto ordinário.

À propósito Vargas Llosa se serve do ensaio “Notas para uma definição de Cultura” (1946), do norte-americano e inglês naturalizado Thomas S. Eliot, poeta modernista e critico literário, premio Nobel literário (1948), para quem a cultura está estruturada em três instâncias distintas, correspondentes ao indivíduo, ao grupo e a sociedade.  Cada qual tem um padrão próprio de cultura, que lhe incumbe produzir, sem que deixem, porém, de coexistirem, a despeito de suas diferenças, sobretudo econômicas.  Porém, quanto a alta cultura, a preservação de sua qualidade é assumida por uma minoria apenas, uma elite, responsável   por sua concepção, seu recrutamento e seu patrocínio. É, na verdade, uma elite, mas não constitui uma minoria privilegiada ou um estamento aristocrático.

Então conclui Vargas Llosa que é ingênuo supor que, simplesmente através da educação, se possa difundir os valores superiores da cultura à totalidade da sociedade, para proveito de todos, senão empobrecendo-a e tornando-a cada vez mais superficial. Uma coisa é o conhecimento outra é a cultura. O conhecimento é uma soma de habilidades e tem a ver com a técnica e as ciências.  Cultura é algo anterior. É uma propensão do espírito, uma sensibilidade, um estilo de vida, que dá sentido e orientação ao conhecimento.

Assim, diante do que revela o espírito atual da vida moderna, o autor denuncia a propensão de nossa sociedade de se empobrecer e se banalizar cada vez mais, para se converter a vida em um mero espetáculo prazeroso e incerto de entretenimento, mas vazio de cultura.

Vale a pena pensar nisso, como já fazem tantos outros que se preocupam em dotar a humanidade de um destino superior.

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