A Guerra do Paraguai vista pelos outros

por Rui Cavallin Pinto

Em geral se diz que as piores dores são as da guerra, que são tão dolorosas que nenhum soldado gosta de recordar o que lhe aconteceu. E a pergunta que então nos vem, é: quanto dói e quanto tempo dura uma guerra? Tem umas e outras em que o ressentimento não acaba nunca e só aguarda a oportunidade de devolver a agressão.  Os curdos são ainda  36 milhões de indivíduos sem pátria, pleiteando o Curdistão, como sua terra nativa, contra a opressão da Turquia, do Irã e Iraque. O judeu viveu as vicissitudes da Diáspora  por milênios, com fé no versículo do Levítico, que diz que, ao contrário do romano, o direito de propriedade é eterno e, indisponível: é sobretudo de Deus. E, foi assim, que foi inventada mentira, como disse recentemente Pierre Miquel. Na verdade, não se mente como se respira; ele exagera (nem tanto…), porque é ele mesmo quem diz que a História mente, e até o faz com descaramento, mas faz com consciência e bons propósitos; como quem está fazendo o bem. Ela o faz para ajudar a viver ou  ajudar a morrer.  Veja o que ocorre com a Guerra do Paraguai, ou a chamada Grande Guerra, na versão dos outros. Pelo Manual de Historia Paraguaya, de Luis Benites a guerra foi provocada pela ambição dos seus vizinhos de se apossarem de suas terras e pela agressão brasileira ao Uruguai. Ora, se sabe pelo que aprendemos, que, após o conflito, o Paraguai saiu totalmente desorganizado, empobrecido e reduzido a um pequeno contingente de população, formado de mulheres, crianças e velhos inválidos. Em Uruguaiana as tropas paraguaias capitularam e acusam que foram forçadas de entregar seus soldados como escravos ou se engajarem nas tropas brasileiras, contra seu próprio país. Após a batalha de Lomas Valentinas o exército brasileiro conquistou a capital Assunção e teria promovido um terrível saque, em que não poupou Igrejas nem cemitérios. Fomos acusados de toda sorte de abusos e  atrocidades perpetradas contra o povo e as autoridade do país: Tamandaré  mandou fuzilar o general Leandro Gomes, defensor de Paysandu, no Uruguai, mesmo após ter-se rendido. Após a vitória de Peribuí, já nos últimos tempos da guerra, o conde d’Eu, (agora no comando brasileiro), mandou degolar todos os inimigos que sobreviveram à batalha. Essas e outras, são as muitas verdades ou meias-verdades que se difundem na versão oficial ou na língua do povo situado do lado de lá.

Ernesto Palacio é o autor de História de la Argentina, um espesso volume de mais de 400 páginas. Breve Historia de la Argentina é obra do historiador José Luis Romero, ex-reitor da Universidade de Buenos Aires e integrante do Conselho Diretor da Universidade das Nações Unidas; e Félix Luna  foi historiador e famoso advogado, fundador da revista Todo Es Historia. Nenhum deles, porém, reserva espaço maior em seus livros para a Guerra do  Paraguai; essa guerra que, ao fim,  parece ter sido só nossa. Palácio trata dela como “guerra inícua” e lhe reserva um espaço mínimo na obra. Os paraguaios são “hermanos”, ligados aos argentinos pelo sangue, o idioma e a história comum. Os brasileiros constituem povo “extranjero”, antigo e permanente inimigo. A guerra é impopular junto ao povo, atribuída a compromisso pessoal do presidente Mitre com o o Império brasileiro. Durante conflito surgiram inúmeras insurreições contra o “déspota porteño”, e teve até prenúncio de guerra civil. Afastado do comando das operações de guerra e ao término do seu mandato,  Mitre não conseguiu eleger nem seu próprio sucessor, Rufino de Elizalde.  Apesar de atribuir a causa da guerra à ansiedade expansionista do Brasil, a Argentina se envolveu nela durante todo o tempo, contribuindo com 30 mil homens, dos quais 18 mil foram sacrificados.  A troco dessa participação, porém, incorporaram toda a região paraguaia, ao sul do Paraná, entre os rios Bermejo e Pilcomaio, além do Chaco Boreal, cuja pretensão só acabaram perdendo por decisão arbitral. Além do mais, durante toda a campanha, foi seu comércio que abasteceu de mantimentos e víveres todo o exército aliado. Apesar disso, porém, suas obras registram que essa guerra não produziu nenhum benefício ao pais, em nenhum sentido. Outra versão inusitada, foi a do chileno Francisco Javier Alcalde Cruchaga, publicada em 1990, “Epopeya Paraguaya – La Guerra Increíble de Francisco Solano López”, talvez a mais insólita de todas. Para Alcalde essa guerra foi sua paixão. Representou, porém,  uma história formosíssima e o exército paraguaio constituiu uma falange de heróis formidáveis. Lopez era um rústico (“patán”), mas se converteu Diane do seu povo numa figura histórica de proporções colossais. Era, como se diz, homem que tinha a medida do seu povo e na sua condução fez  prodígios admiráveis de resistência e coragem. Para Alcalde, foi o mais excelso capitão guerreiro de todos os tempos. Durante sua obra o autor se incluiu entre os grandes admiradores de Lopez, e lhe atribui qualidades semelhantes às de… Hitler. E, para consagração dessa dupla admiração, editou o livro: “De Hitler- Todos han hecho leña” (todos castigam?), em que exalta o sucesso do nazismo na Alemanha, e a atuação de Hitler, como verdadeiro líder político e estadista a serviço dos ideais do seu povo. Igual a Lopes…

Como se vê, a história muitas vezes não é feita só do que foi ou do se viu, mas, singularmente,  do que os seus narradores gostariam que fosse ou quisessem ver…

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.