A Identidade Paranaense

A procura da nossa identidade passou a ser um anátema e um desafio ainda sem resposta para muitos de nós paranaenses, desde quando nosso jovem conterrâneo Pinheiro Machado, então mero estudante no último ano de Direito, no Rio de Janeiro, cometeu a blasfêmia de dizer em artigo da revista católica A Ordem que o Paraná era  um Estado sem relevo humano, sem identidade própria, incaracterístico, ao inverso do gaúcho, do paulista, do baiano e outros nossos irmãos de maior presença na vida nacional.

Depois disso, ainda veio um pernambucano, Fernando Pessoa Ferreira, que, retribuindo a generosa hospitalidade paranaense, calcou em cima que Coritiba (com “O”) é um exílio, habitada por uma tribo estranha, que se alimenta de pinhões. A maior atração turística da cidade é o inverno, que começa em fevereiro e termina em dezembro. No resto do ano chove. Para ele o curitibano é um taciturno, frio e arredio. Não tenho notícia de que o nosso Estado recebesse maior defesa do que a de Bento Munhoz da Rocha, que, em seguida saiu de punho em riste e alçou sua voz contra o coestaduano e amigo, para  lhe opor,  pelo menos, uma explicação sociológica: somos muitos e múltiplos, na origem. Em nosso Estado se fundem cerca de 80 diferentes etnias e, ao tempo, ainda conservávamos áreas pioneiras. Nossa colonização foi feita por três vertentes independentes e sucessivas: a tradicional que ocupou o litoral e os Campos Gerais e as duas outras que vieram pelos fundos da casa: a do Norte do Paraná, com o café e do Oeste e Sudoeste, através da corrente teuto gaúcha. O Paraná constitui ainda hoje um Estado em permanente formação e pelas suas contingências está longe de oferecer um modelo homogêneo de identidade, como se queira ou que sirva para se impor aos demais da União.  Pinheiro Machado foi tido como jovem ainda mal informado e preconceituoso. A maturidade e o tempo, entretanto, iriam fazer dele um dos nossos melhores historiadores e  o mais confiado deles nos destinos do seu Estado. Fernando era jornalista. A matéria era paga e o que fez foi apenas graça: jeux d’espritBento ofereceu então um inventário geral e pontual dos nossos atributos e da consistência do nosso desenvolvimento e da nossa liderança em muitos planos, incluindo as lendas de primitivismo, que nos foram negadas. Pois então não tínhamos os amores de Nhaipy e Tarobá e tantas outras lendas que Romário Martins vinha revelando  da mitologia indígena? Também no campo cultural não nos faltava “relevo humano”, pois já desde as últimas décadas do século XIX Curitiba manifestava uma intensa vida literária e o Paraná passara a ocupar um centro regional de cultura de expressiva grandeza. Já tínhamos a nossa Universidade, aproveitando a “desoficialização” da reforma Rivadávia Correa e ostentávamos figuras do porte do historiador Rocha Pombo, do crítico Nestor Vitor ou do poeta Emílio de Menezes. Foi no Paraná que surgiu o movimento simbolista, que durante meio século haveria de dar vida a uma legião de poetas nascidos no Estado e fora dele. O simbolismo do Paraná é para Roger Bastide (a citação é de Paulo Amado) ”a primeira manifestação de um Brasil diferente contra o Brasil tropical, uma consciência literária daquilo que o Paraná tem de específico, e, portanto, de autenticamente brasileiro, contra aqueles que querem amoldar todos os brasileiros no mesmo molde”…

Mas, Bento excluiu uma hipótese: a do homem-padrão, o genótipo, um modelo único e geral, representativo do paranaense; coisa que o Brasil não tem e nem nós podemos cobrar do tempo, pela extensão das nossas diversidades. Depois é pensar: a História não é, na sua maior parte, uma invenção do homem? Veja o gaúcho idealizado. Outrora era termo de uso pejorativo. Para Lothar Hessel, gaúcho não era o “herói”, o cavaleiro fidalgo da  história recente do Rio Grande do Sul.  Era o “peão” nômade e maltrapilho, confundido com o próprio índio. E o bandeirante? Para Viana Moog o que os paulistas fizeram foi magnificar o bandeirante, emprestando-lhe atributos que ele nunca teve. Pelo contrário, ao tempo das bandeiras São Paulo era a região mais pobre e atrasada do Brasil. A expressão bandeirante só foi difundida a partir do século XVIII, antes se falava apenas em “gente de São Paulo”, “paulista”, que, para os padres das missões jesuíticas do Guairá não passava do “mameluco”. O progresso de São Paulo só viria séculos depois dele. Com o senhor do engenho ocorreu o mesmo processo de idealização. Infelizmente deixamos de inventar, como os outros, nosso protótipo regional.  Não tivemos quem fizesse a história encomiástica do nosso passado e dos nossos ancestrais. Ou então, por que não fizemos como os outros e consagramos nosso próprio ícone histórico pelas veredas largas da criação literária? O subciclo do mate, sua riqueza e seus brasões não poderia ter engendrado alguma legenda heróica? E quanto à saga dos tropeiros, nenhum daqueles lendários “monarcas das coxilhas”, Cristóvão Abreu, Sá Camargo, Paula Gomes, Santos Pacheco ou Silva Machado, não poderia ser convertido num símbolo da nobreza do homem do campo?  O Paraná é o Estado da Federação mais rico e original quanto à sua composição humana, com gente de todas as falas e origens. Por que não se ser servir dessa mescla opulenta para compor um signo humano representativo dessa fusão e do espírito comum que animou a conquista de uma nova pátria. Como diria o poeta D’Annunzio, se não se fez, então por que ninguém imaginou?  E, afinal, a História não é tantas vezes uma forma de invenção?

Mas, ao pé destas considerações ainda nos vale servir da pesquisa que a Gazeta do Povo fez recentemente, reveladora de que, à margem do nosso processo de integração, o Paraná ainda conserva valores e hábitos de vida bem diferentes e marcantes entre o interior e a região metropolitana. Sinal, sobretudo, da diferença de como se processou a  colonização do Estado,  o que levou a historiadora Roseli Boschilia a dividir o Paraná em três territórios autônomos  e cada um deles com um estilo de vida diferenciado. A pesquisa está representada por uma reportagem de jornal, mas trás informações, embora escassas, que servem, pelo menos, para acusar que aindaestamosin fieri, ou seja,não consolidamosde todo nossa formação, o que é compreensível diante da complexidade humana e cultural de nossa formação histórica. Há diferenças  entre o modo de falar, de vestir e até de comer entre uma e outra dessas regiões. Oito, em cada 10 moradores do interior, não visitaram Curitiba no último ano e grande parte de sua população está vinculada mais a São Paulo e ao Rio Grande do que aos nossos hábitos. Uma pesquisa mais ampla vai revelar, certamente, maiores particularidades, que afinal nos convençam de que, se não ostentamos uma insígnia única do nosso tipo representativo é devido à nossa própria multidiversidade.

Rui Cavallin Pinto, cadeira 13

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

Publicado em Artigos