A PROVÍNCIA DO GUAYRÁ É O PARANÁ DE HOJE

Pelo Tratado de Tordesilhas, assinado entre Portugal e o reino de Castela (1494), as terras “descobertas ou a descobrir” situadas antes de uma linha imaginária traçada a 370 léguas (1.770km), das ilhas do Cabo Verde, pertenceriam a Portugal; porém, aquelas localizadas além desta linha, seriam da Espanha.

Ocorre, no entanto, que, na previsão do território que cabia a cada um no novo continente, Portugal se atribuía, no extremo sul do meridiano adotado, o domínio de uma extensão de terra litorânea que incluía a baia de Paranaguá, até onde alcançasse o Tratado de Tordesilhas. Para a Espanha, porém, o meridiano era apenas uma fímbria imaginária que passava à entrada da baia, para se perder no oceano, convertendo o Paraná num território inteiramente espanhol. Tanto que os mapas marítimos espanhóis da época, faziam menção da nossa baia como sendo a “baya de La Coroa de Castilla”.

Porém, com a ocupação da terra e sua inclusão nas Capitanias de São Vicente e Santana, todo seu território se inseriu no país e, em 1614, se converteu na sesmaria de Diego de Unhate (ou Diogo Unhate), para, finalmente, se incorporar à Província de São Paulo.

No outro lado, porém, os espanhóis ocuparam nosso interior, fundando a cidade de Ontiveros (1554), à margem do rio Paraná (depois dada por inóspita e abandonada), como também a Ciudad Real de Guayrá (1556), na confluência do Piquiri, dando expansão ao seu povoamento,  à semelhança da figura geométrica de um quadrilátero, correspondente a quase todas as terras do nosso Estado, numa área contida pelos rios Paranapanema, Paraná, Piquiri e Tibagi, até o limite da escarpa devoniana, nos contrafortes da serra do Purunã,  sob a denominação de Província do Guayrá.

A região era intensamente povoada pela população nativa, com forte influência da cultura guarani. Quanto a sua organização, teve três frentes de expansão: o sistema espanhol de encomiendas, a missionária jesuítica e a bandeirante portuguesa. As encomiendas foi a primeira forma de exploração do trabalho indígena, instituída como base de uma política de fixação e colonização agro pastoril, mediante a concessão de privilégios e a sujeição a obrigações. Os colonos recebiam as áreas de terras, com o direito de explorar o trabalho agrícola dos indígenas da região, mediante a obrigação de introduzi-los na fé cristã e nos bons costumes. Com o tempo, o sistema degenerou, pela tentativa de convertê-lo em exploração servil e de pessoas, além de procurar converter as doações em terras perpétuas.

A soma dessas tendências levou à criação da Província Jesuítica do Paraguai à pretexto de promover a conquista espiritual e cristã do “país de Guayracá”. A unificação das coroas ibéricas favoreceu a remoção das dificuldades políticas iniciais, para que a Companhia de Jesus do Brasil e do Peru pudessem assumir a jurisdição da Província do Guayrá e enviar missionários para a organização das reduções e cristianização dos índios, convertendo-os em vassalos do rei e fiéis cristãos.

As primeiras reduções surgiram na região do Paranapanema, como Nossa Senhora de Loreto e Santo Inácio Mini (1610 e 1611), e, em 1620, já contavam com uma população de 8.000 almas.  Depois disso 14 missões guaranis e jês se difundiram pelo curso do rio Paranapanema e seus afluentes e ao longo de rios Tibagi, Ivaí, Piquiri e Iguaçu (Santa Maria), somando uma população indígena estimada em 150 mil habitantes. Além da iniciação catequética, os índios apreendiam carpintaria, pintura, escultura, serralheria e tecelagem, e também o canto e a fabricação de instrumentos musicais. Adquiriam costumes sociais pelos padrões de vida da sociedade espanhola, bem como eram convencidos a abandonar a poligamia e a antropofagia.

Desde 1585 os bandeirantes paulistas atacaram, a Província do Guayra para capturar índios e vendê-los para os trabalhos domésticos e agrícolas.

Foi com Raposo Tavares que ocorreu a primeira destruição da missão jesuítica e, dali em diante outras se sucederam. Consta que, de 1628 a 1630 foram levados 50.000 índios para São Paulo.

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Os jesuítas chegaram a tal ponto a desolação, que decidiram abandonar as missões maiores de Santo Inácio e Loreto, movimentando doze mil índios em 700 balsas; carregando familiares e seus pertences pelo Paranapanema e Paraná, em direção à Argentina,onde voltaram a  instalar missões.

Vila Rica foi sitiada em 1632 e dela se apoderaram os bandeirantes, com o abandono dos seus habitantes. Em 1759 os jesuítas foram expulsos de Portugal pelo marquês de Pombal, as missões extintas e a ordem suprimida pelo papa Clemente XIV.  Os bandeirantes “paulistas”, embora senhores da Província do Guayrá, não promoveram sua colonização, razão pela qual, reduzida ao abandono, seu desenvolvimento e a fundação de novas cidades, só voltaram a ocorrer a contar do século XX.

A ocupação brasileira do território só se consolidou com a “Guerra do Paraguai” e se tornou definitiva com a solução dada pela “Questão das Missões” e até o término da “Guerra do Contestado”. Hoje, o a “Província do Guayrá”, com suas perdas e arremates territoriais, constitui o atual território do Estado do Paraná, membro integrante da federação republicana brasileira.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

 

 

 

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