A Rua XV de Novembro

A paisagem urbana de Curitiba, que no seu conjunto inclui o trecho da Rua XV de novembro, constitui patrimônio histórico e cultural do Estado, conforme Processo nº 45/74, inscrição nº 5, do Livro do Tomo 1, datado de 11 de março de 1947 (Coordenadoria do Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura do Estado do Paraná).

A ORIGEM DA CIDADE

Curitiba nasceu no outeiro que divide o rio Ivo do Belém, ao redor da praça da matriz, depois D. Pedro II e finalmente Praça Tiradentes, desde a República até hoje. Para Edilberto Trevisan, e Nelson Omegna (em quem se louva o nosso historiador), este é o modelo paulista da origem das vilas, diverso do padrão mineiro de Sylvio de Vasconcelos, para quem o povoado surge em geral à margem dos caminhos e se alonga no sentido de sua extensão; a serviço da estrada e dos interesses do comércio. A configuração inicial da cidade paulista se dá ao redor da praça e na presença da matriz, e ambas constituem a garantia de sua estabilidade. No entorno dela se alinham então os moradores que inicialmente são bem poucos, porque a maior parte da gente pioneira vive em sítios distantes, ocupada nas lides do campo. O povoado é então uma herança rural e as habitações são despojadas de tudo. As casas são feitas de pau a pique e cobertas de folhas de butiá. O interior é paupérrimo, pois só conta com móveis escassos e rústicos: o catre, os bancos de madeira e uma arca que serve de assento e para guardar mantimentos. Na verdade o povoado só tem vida aos domingos, quando o povo aflui à praça e á matriz, para participar de festejos ou dos ofícios religiosos. Com o levantamento do pelourinho o povoado ganhou, porém, por adiantamento, o predicado de Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, a que só fará jus 25 anos depois, quando o topônimo passa de Vila de Nossa Senhora da Luz a Bom Jesus de Pinhais. Mais tarde as casas terão construções de taipa-de-mão ou de sopapo em, que as tramas de madeira das paredes são preenchidas com camadas de barro compactadas ou arremessados à mão. As poucas ruas então se desmembram da praça central, à medida que o povoado se expande em busca de maiores espaços, através de caminhos que acompanham grosseiramente o alinhamento das poucas casas, ou das estradas que demandam ao litoral ou ao interior, Edilberto Trevisan fez um trabalho de devoção beneditina elencando o nome dos seus primeiros moradores e reconstruindo a fisionomia primitiva do centro histórico de Curitiba, durante as primeiras quadras da vida da comunidade. Para isso se serviu de inúmeras fontes primárias que percorreu com minudência em arquivos públicos e particulares, bem como se louvou na melhor bibliografia histórica da cidade, a qual reviu e em parte refez através de contribuições próprias. Para se contrapor à idéia de atribuir a fundação da vila à iniciativa pessoal de alguns dos nossos condottierihistóricos, Trevisan se louva na pesquisa do historiador português Jaime Cortesão, para sustentar com ele que a chapada curitibana representava a esse tempo uma área típica de conflagração ou de confronto entre as disputas políticas entre Portugal e Espanha, provocadas pela ambição portuguesa de estender seus domínios até a embocadura do Prata. E essas manifestações incluem as incursões dos preadores de índios e exploradores de ouro; a passagem de bandeiras paulista na direção do país das reduções jesuíticas do Guairá e Vera, circunstâncias que tornavam o plateau de Curitiba região estratégica que, reclamava a formação de um núcleo de sustentação, para prover a intensa movimentação desse imenso espaço político continental. Há ainda uma outra hipótese que exclui a imagem do capitão povoador. Pelo registro da historiografia oficial do período, a descoberta do ouro em Paranaguá provocou um grande deslocamento de população em sua direção, provindos de São Paulo, Cananéia, Iguape, São Vicente. Mantidas as proporções devidas, na imagem de Francisco Negrão estes migrantes teriam sido tão numerosos que formavam verdadeiras “cidades ambulantes”; figura metafórica que Trevisan faz servir também para descrever o povoamento das margens dos ribeiros auríferos do planalto de Curitiba. Esse retrato guarda, porém, uma característica peculiar, pois entre esses grupos de ádvenas se incluem famílias inteiras, com seus pertences e a escravatura índia, como ocorreu com a grei dos Baltazar Carrasco dos Reis e de Matheus Martins Leme, o que estimula supor que o próprio governo da Colônia tinha interesse em promover o movimento de ocupação da região, – semelhante ao que ocorreu na política de imigração adotada pelo governo paranaense. Quanto aos italianos, o Estado estabeleceu que deveriam provir do Norte da Itália, região em que emigrantes habitualmente deixavam seu país levando a família e seus haveres, em demonstração, portanto, de que vinham com o ânimo de se radicar definitivamente na nação hospedeira. Outra versão sobre a origem de Curitiba corre por conta de que, após a restauração da Coroa Portuguesa (1580-1640), então consolidada pelo Tratado de Lisboa (1668), a Metrópole procurou se prevalecer da recente autonomia para adiantar a ocupação da região, além da linha imaginária de Tordesilhas. E Isto também serve para explicar porque Gabriel de Lara se ateve apenas em erigir o pelourinho, deixando de compor a Câmara, – providência que então lhe daria a condição de vila, só adotada depois do falecimento de Gabriel de Lara, 25 anos depois.

A VILA E A RUA XV DE NOVEMBRO

A vila estava assentada e ganhara seus predicamentos legais e políticos, centrada na praça da matriz, onde se erigira o pelourinho e a câmara fazia uso da capela, cedida para suas reuniões. Porém, durante os dois séculos seguintes, mesmo convertida em cidade e tornada capital da Província, Curitiba representou sempre um cenário urbano exíguo, vivendo basicamente da agricultura e da criação de gado. Em carta de 1720, ao rei de Portugal, o Ouvidor-Geral Pires Pardinho dá conta de que nas duas freguesias de Curitiba havia 200 casas e cerca de 1.400 pessoas de confissão. Quando o naturalista francês Saint-Hilaire visitou Curitiba, em 1820, ela já era sede de comarca mas mesmo assim era “a mais simples que ele viu”. Contava com mais que 220 casas, grande parte de pedra. Casas pequenas, no rés do chão e com cobertura de telha. De 1820 a 1836 Romário Martins aponta ainda as mesmas 220 casas e nove ruas, projetadas inicialmente da praça central: Rua do Fogo, do Louro, do Chafariz, Direita, Alegre, Balizada, da Entrada, das Flores e do Comércio, algumas já inteiramente calçadas. As casas eram habitações rústicas, só ocupadas inteiramente nos domingos festivos e de reza, devido as atividades do campo. Ruy Wachowsky identifica as três artérias principais daquele tempo: a Rua do Jogo da Bola (hoje Dr. Murici); a dos Lisboas (Riachuelo) e das Flores (hoje XV de novembro). Consta que esta última ganhou este nome pela abundância de flores nos terrenos baldios da sua vizinhança, ou, numa versão pessoal de Pamphilo D’Assumpção, por inspiração de alguns pés de “Rosa Louca”, a popular “Mariquinha” que florescia nos muros de propriedade de sua família, no início da rua, – ou quem sabe mesmo, se não foi fruto apenas da fantasia popular? A Rua das Flores tinha apenas 3 quadras: da Dr. Murici à Barão do Rio Branco, mas o trecho da Murici e Monsenhor Celso era o mais rico e ativo. O professor Oswaldo Pilotto adverte que na ocasião só havia um acesso da Rua das Flores para a Praça da Matriz, por um beco bastante antigo, que descia para o Sul, e que Trevisan e Agostinho Veiga identificaram como Ladeira do Pelourinho ou Beco do Pátio, depois Rua 1º de Março e hoje Monsenhor Celso. O outro acesso procurado esbarrava de frente com a casa de D. Ana Rosa Paixão ou Maria do Ivo, mandada construir em pleno leito da rua, esquina da Rua das Flores com a da Assembléia (hoje Murici). Pois, por volta de 1860, os moradores da Rua das Flores pleitearam o prolongamento da Rua do Rosário, para dar acesso à Matriz, que a Câmara acatou, mediante oferta de 200$000 da parte dos pleiteantes e o suprimento de outros 400$000 pela edilidade, inteirando o valor da indenização da proprietária, que ainda assim ficou malcontente e levou a causa à Justiça, embora sem sucesso. Com isso se obteve novo acesso à Matriz e a Marechal Floriano ganhou o que é hoje sua primeira quadra. E não foi só esse o caso de construções no meio da rua, que obstruíam a extensão da Rua das Flores. Contam-se duas outras, ambas com alvarás da Câmara Municipal. Uma delas na mesma Rua da Assembléia, mas do lado oposto, e, a outra, no início onde seria a Praça Santos Andrade. Para que a das Flores pudesse ser prolongada, o erário municipal precisou despender quantia expressiva para removê-la, que é o que conta Ruy Wachowicz. Porém, ainda outras dificuldades obstruíam o curso e todo projeto de aformoseamento da Rua das Flores. Nos primeiros tempos, era comum os proprietários cercarem com arame a rua da frente de sua propriedade, para transformá-la em cocheira dos seus animais. Já na primeira década do século XX, quando o automóvel passou a frequentar a Rua XV surgiu um sério atrito entre seus proprietários e os donos de carros de tração animal. Como os automobilistas costumavam estacionar seus veículos em plena Rua XV, em lugar exclusivo, na frente do Café Mignon, os proprietários das cocheiras também passaram a estacionar suas charretes e aranhas em fila, do lado oposto da rua, onde recolhiam e deixavam passageiros. O movimento foi pacifico, mas criou tamanha animosidade que obrigou a intervenção da polícia, que acabou por proibir os dois lados. E houve até quem anotasse que essa foi a primeira vez que nossa cidade presenciou uma disputa ente o automóvel e os carros de tração animal pela disputa da rua. Outra característica curitibana, que vigorava mesmo ao tempo do Império era a de fincar paus na frente das lojas comerciais da cidade ou argolas nas calçadas, para os fregueses amarrassem suas cavalgaduras.

OS ANTECEDENTES DA URBANIZAÇÃO

A preocupação com a urbanização de Curitiba começou cedo, ainda no tempo da Colônia, com a presença e as determinações adotadas pelo Ouvidor-Geral Raphael Pires Pardinho que, a serviço do governo da Metrópole, veio promover uma devassa geral na vila, e aqui permaneceu por volta de seis meses, de setembro de 1720 a fevereiro do ano seguinte. Fez uma viagem penosa vindo de São Paulo pelo caminho de Itupava, trazido num bangüê carregado por negros puxadores. A primeira visão que teve da vila foi desalentadora, tanto pela pobreza dominante, como pela fraqueza e o abuso dos costumes. O povoado ascendera à condição de vila por criação do povo, mas a presença do ouvidor referendava o ato e Pardinho, em escrito a El Rei, até se gabava de que, com isso, tê-la-ia criado de novo. Ao demarcar esse tempo limitou também a extensão da sua devassa, porque antes disso nada lhe cumpria apurar, “por não ter havido nem vila, nem Câmara, nem justiça”, Sua atuação, entretanto, teve ampla repercussão, que iria se refletir ainda por muitos anos adiante. Uma das principais seria a de subtrair a vila do domínio direto das facções dominantes e adequá-la às leis e costumes do Reino. Além dos provimentos que adotou a respeito da justiça cível e a aplicação da lei criminal, conta-se a renomeação das autoridades principais da vila e a promoção de medidas de defesa do bens dos órfãos, suas posturas administrativas determinavam que as novas casas já não podiam ser construídas sem autorização da Câmara; deviam ser dotadas de cobertura de telhas e benfeitorias mínimas. Além disso, as novas construções tinham de obedecer ao alinhamento urbano adotado, evitando claros na ocupação central e acompanhando as ruas principiadas, para que a vila crescesse uniformemente. Houve também posturas sobre o corte de árvores para a construção de casas e a recomendação da limpeza anual do rio Belém, responsável pelo alagamento que costumava inundar a frente da matriz. Enfim, as posturas de Pardinho constituíam recomendações e cuidados compatíveis com a existência de uma pobre e remota vila, sem lei nem grei, perdida na extensão do sertão paranaense. Chegado a seu termo, Pardinho voltou a São Paulo, de qual lamentava estar afastado há dois anos, em trabalho de correição, mas não sem mostrar receio de que seus provimentos e os adotados pelo Conselho pudessem ser contraditados pelo gênios e pareceres de bacharéis ou então afrouxados pelos próprios moradores.

Na verdade, porém, o planejamento urbano de Curitiba teve seu começo após a criação da Província, em 1853. Com a instalação do governo da Província o engenheiro francês Pierre Taulois foi contratado em 1855, como Inspetor-Geral de medição de terras públicas e para propor reformas e a modernização da infra-estrutura da cidade, principalmente quanto a malha das ruas e as retificações que fossem necessárias. Nesse tempo a Rua das Flores já era a principal da cidade, a que tinha mais prédios e o maior número de sobrados. Foi a primeira a receber calçamento. Sediava as repartições da Polícia e de Terras, e possuía um hotel ostentando o luxo de um lampião à porta. Seus moradores revelavam também um poder econômico maior e politicamente mais influente. Mas era rua torta e ondulada, tanto que, quem via o início não conseguia ver sua extremidade final. Taulois não cuidou dela e só mais para adiante no século é que a rua foi nivelada, ganhando um declive suave de ponta a ponta. Nos primeiros tempos, porém, conta Euclides Bandeira, a Rua XV nem tinha calçamento, senão um palmo de pó vermelho no chão, que, quando chovia se convertia num lençol de lama fluida e pegajosa que arrancava o tamanco dos pés dos transeuntes e fazia do uso de botina um luxo e um desperdício, para quem se atrevesse a usá-la. Na quadra que ia da ponte do rio Ivo (início da Luiz Xavier) até a Rua da Assembleia, havia um barranco elevado, do lado norte da via, sem muro e coberto de vegetação alta, lugar que a população costumava usar como dejetório público. À vista de Taulois só duas ruas se cortavam em ângulo reto: da Assembleia (Murici) e a Carioca de Baixo (depois do Comércio e agora Marechal Deodoro), que então se prestaram a um correção gradativa, mediante desapropriações, que não se ateve, porém, a garantir apenas a angularidade da quina das ruas, mas levou à retificação do traçado da Carioca para garantir os domínio dos fundos de lote dos proprietários da Rua das Flores. Pierre Taulois fez diversas sugestões dentro de uma visão de planejamento urbano que, para Romário Martins, iria converter Curitiba num “quadrilátero normal”, com uma feição aproximada à de La Plata (Buenos Aires?). Com relação à Rua do Rosário ele considerou seu traçado tão imperfeito, que julgou impossível retificá-lo para estendê-la além da Igreja com seu nome. Ao mesmo tempo, porém, fez recomendações que, adotadas no curso do tempo, tornaram-na perfeitamente reta e ligada à atual Marechal Floriano.

OS PRIMEIROS SINAIS DE PROGRESSO

 

Na segunda metade do século XIX Curitiba passa a revelar os primeiros sinais positivos de progresso e a assumir ares mais modernos. Chegam as primeiras levas de imigrantes de diferentes etnias e a cidade passa a sentir o influxo da riqueza e do desenvolvimento provocado pelo incremento do comércio e a exportação do mate para a região do Prata, como conseqüência da Guerra do Paraguai, que teve os seus ervais abandonado. Em 1880 o Estado recebe a visita da família imperial, ocasião em que, entre as homenagens festivas prestadas ao Imperador e sua esposa D. Thereza Christina Maria de Bourbon, a Câmara Municipal muda o nome da Rua das Flores para Rua da Imperatriz e o da Praça da Matriz para Praça D. D. Pedro II, “como prova de apreço e comemoração da auspíciosa visita. Nas últimas décadas do século a cidade assiste a introdução de uma série de melhoramentos e novos equipamentos urbanos. A Rua das Flores fora a primeira a ser calçada e contava com a iluminação e o maior número de lampiões a gás, no trecho da atual Dr. Murici com a Barão do Rio Branco. Mas, em 1876 nossa via principal ainda terá continuidade, abrindo e aterrando novo trecho, na direção da atual Presidente de Faria e do potreiro municipal (hoje Praça Santos Andrade e Teatro Guaira). Também do lado oposto e durante o governo do Visconde de Taunay (1885-1886) a Rua da Imperatriz se projetou em linha reta para além da Praça Osório, abrindo as duas primeiras quadras da Rua dos Campos Gerais (Vicente Machado), até o potreiro dos Murici. Na época também foi construído o Teatro S. Teodoro, o Passeio Público, inaugurado em 1886, transformou o extenso charco do rio Belém num espaço de lazer para o povo curitibano. Uma linha de bonde a burro faz o trajeto do Boulevard 2 de julho (Avenida João Gualberto) até o bairro do Batel, cujo serviço será substituído em 1913 pelo do bonde elétrico. As Posturas de 1905 já proibiam a construção de casas de madeira na Rua das Flores, da Liberdade (Barão do Rio Branco) e na Praça Tiradentes, e, além disso, as novas casas de alvenaria deveriam ter 2 ou 3 andares. Em 1920 o censo registra mais de 79 mil habitantes em Curitiba e dessa década em diante a Rua das Flores vai se projetar como a passarela moderna e elegante que dá vida à cidade e inaugura o footing nos domingos e feriados. Durante a administração Cândido de Abreu a Barão e Rua XV são alargadas, e o centro pavimentado de paralelepípedos, os passeios rebaixados e revestidos de ladrilhos e mosaicos (petit pavê) tornando mais fácil e seguro o tráfego de transeuntes. Abrem-se casas de moda e lojas chiques de artigos femininos e masculinos , expostos em amplas vitrines. Surgem os cafés de mesa de vime e cadeiras de palhinha onde, sentados à roda, se reúnem e se agitam os intelectuais e artistas da terra. Abrem-se casas de pasto, restaurantes e confeitarias, agências bancárias, cinemas (Central, Mignon), redações de jornais, que alimentam crescente agitação e o burburinho das ruas. Curitiba é a cidade sorriso, na inspiração do sergipano Hermes Fontes e já se faz comparar à Rua do Ouvidor do Rio de Janeiro, ou à Avenida Paulista. É celebrada em versos pelos poetas da terra e de fora que vêm conhecê-la: Heitor Stocker, Ciro Silva, De Sá Barreto, Alceu Chichorro, Clement Ritz, Hermes Fontes e nosso príncipe nacional Olavo Bilac … Enfim, a Rua XV de novembro passou a representar a rua curitibana por excelência: guarda da alma da cidade.

A ADMINISTRAÇÃO MOREIRA GARCEZ E A RUA XV

O engenheiro João Moreira Garcez integrou muito cedo ainda a administração pública do Estado (27 anos), como Secretario de Viação e Obras do governo Carlos Cavalcanti e Secretario da Fazenda do governo Afonso Camargo. Participou também da fundação da Universidade do Paraná, tanto na própria construção do edifício central, como na condição de professor, em cujo cargo se aposentou. De 1920 a 1928, foi, porém, Prefeito de Curitiba, cumprindo dois mandatos e em seguida se viu eleito Deputado Federal. À frente da Prefeitura Municipal fez uma administração que mereceu destaque pela determinação com que a conduziu e pelo dinamismo com que procurou dotar a cidade de uma visão mais moderna e progressista. De suas primeiras iniciativas se conta a criação da chamada “Cidade Nova’, de que resultou a abertura e urbanização das avenidas Visconde de Guarapuava, Sete de Setembro, Silva Jardim, Iguaçu e Ivai (hoje Getúlio Vargas), abertas em retângulos perfeitos, através de amplas avenidas arborizadas e revestidas de macadame. O primeiro automóvel de Curitiba pertenceu ao industrial Fido Fontana, mas o número deles foi crescendo rapidamente, pela oferta de veículos de todos os tipos e marcas, e pelo incentivo produzido pela propaganda dos jornais que ofereciam veículos sob a garantia de que alcançavam 48 quilômetros, “ sem nenhum inconveniente”. Ocorre que, na verdade, Curitiba não estava então preparada para esse tipo de veículo. Sua ruas foram projetadas para o tráfego de carroças e quando chovia os carros acabavam atolados no barro. Mesmo com o tempo seco a pista de paralelepípedo levantava poeira devido o tráfego dos carros, tornando o ar pesado e desagradável. Foi então que o alargamento e o asfaltamento da Rua XV de novembro constitui a obra de maior repercussão de Moreira Garcez. Em princípio, o trecho do alargamento ficava entre as atuais Luiz Xavier e Dr. Murici, uma quadra apenas em que a rua se afunilava e defletia do alinhamento da via, provocando o estrangulamento do seu curso e o congestionamento do trânsito, além de dar causa a acidentes, como ocorria com os bondes na chamada “curva da morte” (a esquina da Rua das Flores com a Murici). Em geral, o projeto foi acolhido, com pouca resistência, mas mesmo assim exigiu novos decretos expropriatórios e providências judiciais. Porém, essas dificuldades não detiveram o prefeito que logo promoveu a demolição da parte sul da rua, usando dezenas de operários e agindo “à moda americana”, como disse dele Wachowicz. Então, em outubro de 1926 foi lançada a primeira camada de cobertura asfáltica, acompanhada pela presença de inumeráveis curiosos, maravilhados com o jorro de asfalto quente que a máquina despejava na rua, para quem, na visão do povo, a máquina parecia uma vaca expelindo mingau preto. Mas o asfalto não passou a cobrir apenas a Rua XV, mas ainda a Avenida Luiz Xavier e a Praça Osório. A Ébano Pereira e a Cândido Lopes também receberam pavimentação de betume. O asfalto era novidade inclusive na Europa e nos Estados Unidos e o primeiro logradouro público do Brasil a receber cobertura asfáltica foi a Avenida Paulista, em 1909, com betume importado da Alemanha. O asfalto passava a ser um instrumento de modernidade e de transformação democrática do espaço de convivência, com prioridade para os carros. A inauguração do alargamento da rua e da cobertura asfáltica foi festejada no dia 19 de dezembro de 1926 (dia da emancipação política do Estado), com grande presença de povo e desfile escolar, ocasião em que predominou o clima de intensa alegria popular e de prestigiamento das autoridades locais. A faixa inaugural foi cortada pelo Presidente Caetano Munhoz da Rocha e, depois de ouvidos os oradores oficiais, foram distribuídas medalhas em ouro e prata, gravadas pelo artista José Peon, concedidas ao Presidente do Estado e ao Prefeito da cidade, em estojos igualmente luxuosos. Franqueado o tráfego nos pavimentos asfaltados foi preciso, entretanto, regulamentar seu uso, estabelecendo espaços próprios de rolamento e estacionamento, para prevenir eventuais danos , sobretudo aqueles produzidos pelas rodas das carroças, bem como proibir o tráfego em horários dos domingos e feriados. O asfaltamento foi objeto de filme “Pelo Paraná Maior” que serviu, inclusive, de propaganda da administração do Presidente Caetano Munhoz da Rocha. Para a opinião pública curitibana, o asfaltamento da Rua XV de novembro veio coroar o reinado da principal rua da cidade, centro da vida urbana e motivo de orgulho do povo curitibano, em que o automóvel aparecia como símbolo de riqueza e de uma visão de futuro. O asfalto ainda deu reforço ao “footing”, este jogo de sedução, em que os grupos de moças provindos da saída da missa dominical ou aproveitando o fim da tarde curitibana, desfilavam em grupos pelo centro da cidade, e se ofereciam à troca de olhares, à paquera e ao flirt dos jovens postados à frente das lojas ou dos espaços da Rua XV, num desfile de ida e volta, que permitia a troca de olhares e as escolhas de parte a parte. O ”footing” decaiu após a segunda guerra mundial, mas teria voltado mais tarde, tentando renascer sob outras formas, mas foi aquele antigo “footing” é que ficou na memória e na saudade dos curitibanos…

PEDESTRIANIZAÇÃO DA RUA XV

Abrão Assad autor do projeto da Rua da Flores e de tantos outros de revitalização de nossa cidade, costumava dizer que o curitibano é hoje muito mais um urbanista do que um arquiteto, pela familiaridade com que, desde nossa emancipação política, temos convivido com diferentes projetos de planejamento urbano de Curitiba. Pierre Taulois é presença entre nós desde os primeiros anos da Província, e seu projeto de reforma urbana trouxe expressivas mudanças de sua infra-estrutura e uma proposta moderna de cidade. Em 1940, o Prefeito Rozaldo de Mello Leitão contratou a firma Coimbra Bueno & Cia. Ltda. com o objetivo de conceber um plano diretor para Curitiba, e esta trouxe o urbanista francês Alfredo Agache, para a elaboração de um projeto conjunto de ordenação da cidade. Agache partiu da concepção da cidade como um conjunto arquitetônico dividido em zonas funcionais : um centro comercial (tradicional); outro administrativo (Centro Cívico);, universitário (Politécnico); militar (Bacacheri); industrial (Capanema e Rebouças) e de abastecimento (Mercado Municipal), interligados por vias de comunicação motorizada e com preferência pelo automóvel . O projeto também fazia menção à construção de galerias térreas na Rua XV, obedecendo a padrões oficiais. Ocorre que as propostas de Agache só foram implantadas parcialmente. Assim, o plano 11envelheceu rapidamente, devido a sua rigidez e em virtude do crescimento imprevisto da cidade. Em 1960 a UFP criou o Curso de Arquitetura e Urbanismo, e quando Ivo Arzua foi eleito Prefeito da Capital a primeira turma de engenheiros-arquitetos (1966) levou-lhe algumas idéias sobre a circulação da cidade e a proposta de reexame do Plano Agache. Dessa aproximação surgiu então o Plano Diretor da Cidade e a URBS, que logo se converteu no IPPUC, ficando este encarregado da implantação do novo plano. O projeto não se reduzia à Rua XV, a lei municipal 2828, de 1966, além da transformação da área central da cidade, previa as canaletas do ônibus expresso e a Cidade Industrial, que se transformariam em referências urbanísticas da cidade. Com relação à Rua XV o projeto era convertê-la em área privilegiada e devolvê-la ao pedestre, sacrificado pela presença crescente e dominante dos veículos, num espaço de trânsito muito exíguo. A implantação do plano só teve início dos anos 70, quando Jaime Lerner assumiu a Prefeitura da cidade. Inicialmente foram estabelecidos pontos reservados de estacionamento pago, um deles na extensão da Rua Ermelino de Leão à Dr. Murici, e o outro, da Dr. Murici à Marechal Floriano. Os carros circulavam com cartelas (Proparq) e cancelas foram instaladas à entrada e à saída da rua, liberado o trânsito de véículos só antes das 9 e depois das 22 horas. Houve exceções, porém, para os veículos que faziam entrega de mercadorias e para os serviços de taxi, como também foram realizadas adaptações para atender as exigências do Corpo de Bombeiros. A imprensa pendeu para um lado e para outro, acusou a prefeitura de criar “currais”, o “calçadão”, mas acabou se confraternizado com seus planejadores. Os comerciantes do centro, porém, resistiram até o fim, clamando contra a queda das vendas. O objetivo dos projetistas partia da interdição do tráfego de veículos na nova Rua XV, para preparar a conversão da ex-Rua das Flores numa via de animação central, reservada à convivência social e ao lazer exclusivo dos pedestres. O fim era criar uma avenida-jardim, um boulevard-logradouro, que seria uma espécie de extensão da sala de visitas da casa de cada um, onde o homem encontraria o espaço e a proteção necessária contra a agressão urbana, as fumarolas de carbono, a azáfama diária do tráfego e a poluição visual e sonora em que se transformaram as grandes cidades. Aos poucos todo o espaço foi dotado de bancos, floreiras, luminárias especiais, bancas de revistas, árvores e todo um farto equipamento urbano e recreativo, destinado a transformar o local num “oasis” para os pedestres.

Mas o dia “D” de ocupação de toda a área já estava preparado pela Prefeitura para surpreender os moradores e comerciantes, que já tinham até tomado a iniciativa de contratar advogado para promover o embargo judicial da iniciativa. Assim, aproveitando o recesso de fim de semana, na noite de sexta-feira do dia 19 de maio de 1972 e na madrugada que seguiu, caminhões, máquinas, operários e toneladas de pedras “petit-pavè” passaram a cobrir de brita e areia, para, em seguida pavimentar todo o espaço entre a Praça Osório e a Marechal Floriano. Depois dessa extensão o revestimento de “petit pavé” alcançou a Barão de Rio Branco . Pela manhã estava instalado o primeiro centro urbano do mundo, reservado exclusivamente ao pedestre e que depois passou a ser modelo, imitado por todas as principais cidades do país . Assim foi recriada a Rua das Flores, a praia do curitibano, o jardim do povo e sua sala de visita. Mas, além da beleza que acrescentava à vida e à animação do centro da cidade, servia de fundamento aos planejadores de que o calçadão também iria influir diretamente sobre o tradicional temperamento frio do curitibano, tornando-o mais acessível à comunicação e a uma convivência social mais aberta. Agora, porém, passados mais de 38 anos de sua implantação, a Rua XV de novembro após ter sido alvo, como é natural, de diversas intervenções, visando a revitalização de sua paisagem, os retoques de sua urbanização e correções de sua infra-estrutura, continua sendo, na verdade, a área mais ativa e animada da cidade, cumprindo seu papel de espaço livre e estimulante da vida coletiva, e, mais ainda, recobrando uma das tradições mais saudosas da vida curitibana: o footing das tardes de sábado e das manhãs de domingo.

Errata: A imagem deste artigo onde se lê século XVIII, leia-se século XIX.

Rui Cavallin Pinto, cadeira 13

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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