A vaidade criminal

Scipio Siguele, jurista italiano, discípulo de Ferri, denunciava em livro, no final do século XIX, o prestígio que o crime assumia na imprensa e na literatura da época. O crime parecia despertar  tal grau de interesse e de curiosidade pública, que os  veículos principais de divulgação popular esmeravam-se em oferecer amplos detalhes dos delitos mais hediondos, em largos painéis e imagens detalhadas. A escritora Dora Melagari até apelidou esse  período de prestígio do mal. Mas eram tempos de livro e  jornal.  Embora  o livro, pudesse produzir o mesmo efeito  corrosivo da vida social.  A sugestão suicida de Werther, por exemplo,  difundiu-se pelo mundo da época e causou uma umwertheritis aguda. Muitas mães acusaram Goethe de ter arrastado seus filhos para o suicídio.  René de Chateaubriand refletia a imaginação doentia e sensual do autor,  igual a Hernani de Victor Hugo, Adolfo de Benjamin Constant ou Manfredo de Byron, foram todos personagens literários que contribuíram para  construir o clima de melancolia  que deu a fisionomia romântica do tempo. Todos eles vitimas de algum mal que os fazia lívidos e frágeis. Até por aqui, entre nós se projetou a sombra de Byron, na sociedade epicuréia, em São Paulo,  e  na byroniada  do episodio da jovem Judith, de 20 anos, que morreu de desgosto porque o pai judeu  a obrigou a se casar com o caixeiro da venda, para subtraí-la da pretensão  amorosa  do estudante brasileiro. Pois, os estudantes foram ao cemitério à noite, e abriram o caixão para que os jovens se confraternizassem mesmo com a presença da morte. Mas esse não era ainda o tempo do cinema e da televisão. Esses é que são agora os  arautos da criminalidade. Com eles passamos à apoteose do delito. O fluxo da violência é hoje permanente e intenso. Está em todos os quadros e todas as cenas da tevê e do screen. Embora o bem vença no arremate do derradeiro capítulo das novelas, é a violência que prevalece em todas as cenas, domina  os episódios, articula  as tramas e revela suas habilidades e seu poder. Só não vence, no final, por um  detalhe mínimo, uma surpresa,  ou porque o diretor de cena intervém e impede o bandido de vencer. Recentemente, tem surgido outra modalidade de vender o crime e alimentar a insofreável curiosidade popular por esse lado  perverso da vida humana:   o Ministério Público convidou Luiz Alberto Mendes Júnior, ex-presidiário, para o seu “Café com Letras”, programa de sua associação,  para proferir palestra  sobre o crime e sua redenção (que diz estar proferindo pelo país), prestando  testemunho  de sua vida criminosa, sua condenação e os caminhos que adotou para sua completa reabilitação, – tornando-se inclusive autor de livros sobre o tema. Uma espécie de Caryl Chessman brasileiro.  Não sei se a apresentação foi paga. Suponho…     O conferencista, porém, não era o que eu costumo ver ou supunha ser. Pelo contrário,  é homem de boa postura física e que domina a  cena. Voz firme e  fala constante.  Sem o refino de escritor  é usuário do chulo. Ocupou o tempo maior  no relato com sua infância e  adolescência, montando um quadro de martírio e miséria às mãos de pais brutais.  Quadro comum, que não chega a ser surpresa para quem  vive  à margem de uma sociedade como a  nossa. Porém, fala pouco dos seus crimes, que, se cometidos logo nos primeiros anos da maioridade foram de grande atrocidade pelas penas que mereceram. A receita da cura é pouca e simplória. Abjura a religião e exalta a educação, a quem atribui sua redenção do crime. Mas,  a reduz  à leitura dos Pensadores da editora Abril. Obra conhecida e de simples divulgação, não de formação.   Não cita livro, nem autor. Não cita ninguém de merecimento.  De que vale, portanto,  toda a bibliografia e o esforço secular de tantos para a recuperação do sceleratus? Esse é que é o fim último do Direito Penal e sua frustração.  Vejo, portanto,  com natural incredulidade  querer converter  a redenção do homem a um espetáculo de palco e gosto popular.  Sou dos que creem  que o livro salva, sim. É o caminho certo, mas é também um longo percurso, todo iluminado. Quem o cumprir certamente se salvará.

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

Publicado em Artigos