A vida não tem limites

Vivi, já nesse milênio, uma paixão avassaladora. A amada morava do outro lado do mundo e vinha de vez em quando ao Rio de Janeiro. Adotamos como mote do nosso caso desesperado as palavras finais de O amor nos tempos do cólera. Desejando navegar livremente pelo rio, sem parar em porto algum, Florentino Ariza manda o capitão içar a bandeira de quarentena do cólera. O capitão indaga:

– ¿Y hasta cuãndo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? – le preguntó.

Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y três años, siete meses y once días con sus noches.

– Toda la vida – dijo.

Querendo agradar a moça, mandei confeccionar, numa loja de artigos náuticos no centro velho do Rio, uma bandeira amarela de quarentena, com a inscrição do nome do navio, Nueva Fidelidad. Quando ela voltou do outro lado do mundo, fui ao seu encontro com a exótica oferenda, antevendo já o jubiloso estandarte desfraldado na parede principal de sua casa.

– Mas o que vou fazer com isso? – perguntou ela. – Esqueceu que sou casada?

Essa pequena fábula mostra o poder das palavras do velho Gabo e como – mais do que com as preferências de leitura – ele mexeu com a própria vida das pessoas.

A morte, quase sempre, dá a medida da importância de uma pessoa. A mídia cedeu espaços generosos a Gabriel García Márquez, os obituários enalteceram seus dotes literários, lembraram o encantamento de seus romances e destacaram a riqueza de sua complexa personalidade. Em seu livro de memórias Viver para contar, Gabo afirma: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.” Voltando ao episódio final de O amor nos tempos do cólera, transcrevo o sentimento do capitão quando percebe toda a grandeza da paixão de Florentino Ariza, “su domínio invencible, su amor impávido, y lo asustó la sospecha tardía de que es la vida, más que la muerte, la que no tiene limites.

A vida de Gabriel García Márquez, mais do que a sua morte, é a que não tem limites.

ROBERTO MUGGIATI

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