ARICÓ E CAOCOCHÉE – é obra precursora do indianismo?

John Henry Elliott foi presença singular na historiografia paranaense. Era 1825 quando o adolescente americano de dezesseis anos, chegou ao Rio de Janeiro como guarda marinha (middy) da fragata norte-americana (Cyane), ocasião em que, por proposta do tio, o Comodoro do barco de guerra, ele passou a integrar a marinha de guerra do Império brasileiro.

O jovem vai se revelar sertanista e vigoroso desbravador dos sertões e rios desconhecidos da nossa região e sua vasta vizinhança meridional, vivendo vida perigosa em convívio com as populações indígenas e no ambiente inóspito e imprevisível do sertão, nas bacias dos rios Paraná e Paraguai, ocupado em elaborar relatórios, confeccionar mapas, croquis, e aquarelas das impressões colhidas a serviço de João da Silva Machado, o Barão de Antonina.

A princípio, quando incorporado à marinha nacional, seguiu para Montevideo numa expedição de guerra malfadada contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, em confrontos que serviriam para redefinir as fronteiras sul-americanas. O objetivo era a conquista da cidadela de Carmen de Patagones, na foz do rio Negro, ao sul de Buenos Aires.

Ocorre que a esquadra argentina já sabia da incursão e preparou sua defesa, infligindo severa derrota aos brasileiros, com grande número de mortos. Elliott, porém, sobreviveu preso na Penitenciária do Rio Salgado outros dois anos.

Depois disso, livre ou foragido, voltou ao Brasil, onde vamos encontrá-lo diante do Barão de Antonina, a quem, isso por volta de 1840, se põe a seu serviço, ao lado do sertanista José Francisco Lopes, encarregados de percorrer os rios Verde, Tibagi e Paranapanema, navegar o rio Paraná e penetrar no sul do Mato Grosso, percorrendo seus afluentes da direita: Ivinhema, Iguatemi, Brilhante e Dourados, fazendo a ligação entre Curitiba e Cuiabá, desbravando suas florestas e campos circundantes. Além disso levavam instruções de marcarem posse das terras percorridas, com contato e tratados de amizade com as populações indígenas e lideranças, além da obrigação de promoverem a reunião das tribos nos aldeamentos criados.

Foram nove as expedições do Barão de Antonina, desbravando as florestas e campos que interligavam as bacias do Paraná e do Mato Grossos. Os sertanistas marcavam a posse das terras e elaboravam minuciosos relatórios dos territórios desbravados, adiantando seus potenciais de uso e aproveitamento, cujo redação o Barão revisava e assumia a autoria, para depois promover seus registros nas paróquias e fazer sua difusão em instituições públicas e privadas, como a Biblioteca Nacional, a Rev. do Inst. Hist. e Geográfico do Brasil, de São Paulo e do próprio Paraná, além incluir o Arquivo Público paranaense, o Militar, e Itamarati.

Ora essas iniciativas se prendiam ao propósito de se antecipar à edição da Lei 601 de 1850, que, a pretexto de organizar as propriedades privadas do Brasil (que, em geral constituíam simples posses, sem registro da aquisição e alterações), passou a proibir a ocupação das terras devolutas que não fosse através da compra e venda. Isso fez acender a ambição de quantos passaram a promover incursões pelas florestas e campos, improvisando documentação de posse de vastas extensões de terras, que o Barão, após a emancipação da Província e de sua eleição a senador do Império, pôs à venda, como as de Faxina e do Paraná, que representavam 3 fazendas de gado com 90 mil km² e outras do Mato Grosso com a extensão dos municípios de Miranda, Nioac, Aquidauana, Ponta Porã, Porto Murtinho e Bela Vista.

Quando Elliotti e Lopes, completarem a sexta expedição, consideraram cumpridas as tarefas assumidas com o Barão, e, desde então, com a emancipação da Província, só se tem notícia de Elliott, da florescência do seu talento como escritor e artista plástico.

A esse tempo o Paraná tinha 80 mil habitantes em 19 localidades, como Curitiba, Paranaguá, São José dos Pinhais, Campo Largo, Ponta Grossa e Castro. Curitiba, contava com 338 casas e 6.800 moradores. O governo passou a editar o Dezenove de Dezembro, como órgão oficial e o jornalista Cândido Lopes tirou o periódico literário e recreativo “O Jasmim”, em setembro de 1857, o primeiro do gênero do Paraná.

A essa altura, então Elliott apareceu ligado a Cândido e publicando “O enjeitado”, seguido, no 8º número, da narrativa “Aricó e Caocochée – Uma voz no Deserto”, dedicada ao Barão de Antonina. A data de “Aricó…” é de 1857, mas foi composta em 1844, daí se dizer que a obra é pioneira do indianismo brasileiro, anterior ao Guarani, de Alencar (1857) ou aos Primeiros Cantos, de Gonçalves Dias (1846).

A obra é catalogada como Narrativa Romântica ou Romance Histórico, ambientada em Guarapuava e campos de Palmas, em torno do amor de dois jovens indígenas, a bela Aricó, filha do cacique Nonohay, “ (d) entre as mais donzelas de sua igualha” e Caocochée, “um dos mancebos intrépidos e assinalados pela sua destreza no arco” e de, “que (m) facilmente se divulgava (sobre) sua alta e engraçada estatura e brilhantes plumas de arara”. Ermelino de Leão fez a apresentação da obra em reedição e louvou o esforço do estrangeiro em tentar imprimir à narrativa “estilo elevado”, tolhido, porém, pela transposição da língua; David Carneiro vê nela intensa descrição geográfica que tira a “vibratilidade” humana da narrativa; Maria Cristina Wissenbach, ao contrário, colheu ricos significados literários e belas imagens poéticas, reveladoras dos pendores artísticos do autor

Por sua vez, entretanto, Aricó não pode assumir a primogenitura do movimento histórico e artístico do indianismo romântico brasileiro, que traz forte sentimento político e nativista. Elliott era um estrangeiro e viveu vida de sertanejo no sombrio da floresta e à margem das ideias literárias correntes.

Porém, creio que o que mais impressiona não são só seus pendores pelas letras, porque Elliott foi também artista plástico de grande sensibilidade estética e nos deixou preciosas heranças daqueles primeiros tempos da Província, que impressionam pelo gosto e qualidade igual ao das letras.  Elliottt foi aquarelista e deixou, entre outras riquezas, as primeiras imagens da pequena Curitiba e seus arredores, e entre tantas aquarelas o retrato do Dr. Faivre. Morreu no abandono, no aldeamento de São Jerônimo, pobre e fisicamente debilitado, ficou, porém, a memória viva de um tempo que aguarda ainda trato melhor e maior.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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