AS MENTIRAS QUE CONTAM SOBRE A ACADEMIA

Tradição. Cerimônias de posse têm pompa e muita ‘circunstância’

Em 2017, a Academia Brasileira de Letras irá comemorar 120 anos. Criada por iniciativa de Lúcio de Mendonça, reuniu um grupo de 40 escritores, dentre os quais Machado de Assis, à época um de seus mais idosos fundadores. Autor já consagrado, com inconteste ascendência sobre os mais jovens, presidiu a Casa até morrer, em 1908.

Desde cedo a Academia povoou o imaginário da intelligentsia brasileira, provocando reações extremadas de amor e ódio, estas, muitas vezes, provindas de candidatos que não lograram êxito em tentativas eleitorais. De todo modo, no crepúsculo do século XIX o surgimento de uma confraria literária representou decisivo fator para o reconhecimento e a profissionalização do ofício de escritor.

Muitos equívocos e meias mentiras circulam em torno da instituição. Criticamna, por exemplo, por abrigar acadêmicos que não são literatos em sentido estrito. Ora, pautada pelo exemplo da Academia Francesa, a nossa optou por também acolher os chamados “notáveis”, expoentes em várias áreas do saber: diplomatas, juristas, cientistas. Machado de Assis e Joaquim Nabuco divergiram na questão, mas o ponto de vista de Nabuco – favorável a um conceito mais amplo de “humanidades”, em que as letras não tivessem exclusividade – acabou prevalecendo. Isso explica a presença do Barão do Rio Branco, de Santos Dumont e de Oswaldo Cruz no quadro acadêmico.

Grandes nomes – como Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade – não concorreram à ABL. Nunca é demais recordar que a candidatura decorre de ato unilateral do pretendente, formalizado mediante carta de inscrição. Pelo Estatuto, datado de 1897, demanda-se que os membros da Academia tenham publicado, em qualquer gênero, “obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário”. O mérito, conquanto parâmetro passível de discussão, avulta como principal critério no momento das votações. Mas, como em qualquer eleição, existem outros crivos que podem – ou não – ser considerados. A genealogia da cadeira, por exemplo: se ela até então foi preponderantemente ocupada por ficcionistas, haverá quem defenda a manutenção da linhagem, e quem dela discorde para impedir a formação de capitanias hereditárias. A sociabili
dade também é levada em conta, pois um novo acadêmico é pessoa com quem se conviverá até o inevitável fim dos dias – do eleitor ou do eleito. Se ocorreram alguns equívocos em escolhas e preterições, não nos esqueçamos de que Euclides da Cunha, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, entre outros escritores de primeira grandeza, foram membros da instituição.

A Academia subsiste sem ônus aos cofres públicos. Não sendo subvencionada pelo Estado, dispõe de plena autonomia, o que se reflete na coexistência de divergentes posições políticas e ideológicas de seus membros; assim foi desde a fundação, quando acolheu ao mesmo tem- Maitê Proença confirmou ter recebido o apoio de três acadêmicos para se candidatar à vaga de Ivo Pitanguy na ABL. Porém, Maitê diz que não irá se candidatar em homenagem ao Poeta Antônio Cícero, que também é postulante. po monarquistas e republicanos. As sessões das quintas-feiras costumam ser palco de debates sobre temas do passado ou da atualidade. Sim, é importante salientar a dimensão da atualidade na ABL, pois, de modo caricatural, muitos a figuram como espaço vedado ao contemporâneo, onde senhores de certa idade, usando fraques e mesóclises, e tratando-se por “Vós”, apegam-se apenas ao cultivo ornamental de formas pretéritas. Um compromisso estatutário determina que a instituição se dedique à “cultura da língua e da literatura nacional”; ambas, língua e literatura, são fenômenos em perpétuo processo. A ABL, decerto, é generoso abrigo de nossa memória literária. Mas, se respeita e repertoria a tradição, a ela não se limita. Um exame, ainda que ligeiro, de suas atividades comprova a afirmativa.

Não seria exagero afirmar que a Academia, hoje, é um dos mais dinâmicos centros de cultura do país, embora nem todos saibam ou queiram saber disso. Os interessados podem inteirar-se da programação completa no site www.academia.org.br . Entre março e dezembro, ciclos de conferências congregam especialistas das mais diversas áreas: literatura, antropologia, filosofia, política, psicanálise, comunicação, história. A cada mês, um seminário convoca estudiosos para discussão de assunto da atualidade brasileira ou internacional. Com a mesma periodicidade, são oferecidos recitais de música clássica e de música popular. Todos os eventos são abertos ao público e transmitidos ao vivo. A Academia também franqueia visitas guiadas para estudantes do ensino médio. Duas bibliotecas – a acadêmica e a geral – recebem diariamente dezenas de consulentes e pesquisadores, com acesso a um moderníssimo Centro de Memória. O aplicativo gratuito VOLP, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, representa outra contribuição acadêmica à comunidade. A linha editorial da ABL investe em títulos relevantes, mas não contemplados pelo mercado, que os considera de escasso retorno comercial. Citemse, entre outros livros recentes, os cinco volumes da correspondência completa, ativa e passiva, de Machado de Assis, e a reedição, em 2013, das obras de Cláudio Manuel da Costa, cuja publicação anterior datava de 1903.

Ao apoiar e difundir a cultura em sua pluralidade de manifestações, a Academia cumpre a sua mais legítima destinação. Em meio aos percalços e sucessos que lhe marcaram a trajetória mais que centenária, a ABL persiste como uma casa que sempre lutou pela dignificação e independência da intelectualidade brasileira, concedendo simbolicamente a seus membros a fugaz sensação da imortalidade de uma glória “que fica, eleva, honra e consola”.

Antonio Carlos Secchin, O Estado de São Paulo em 21 Aug 2016

 

 
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