Brasil e Argentina – Uma história comparada

A história comparativa vem a ser um dos exercícios mais recentes e complexos da observação histórica, e o destaque é atribuído à obra “Os Reis Taumaturgos”, de March Bloch, que mesmo sem ser a primeira delas, constitui uma das pedras fundamentais de sua construção.

O nosso historiador Boris Fausto e seu colega argentino Fernando Devoto, ambos doutores em História e altamente qualificados, com obras e magistério no estrangeiro, também se lançaram a esse trabalho comparativo do levante de 150 anos de História entre os dois vizinhos, Brasil e Argentina, traçando paralelos  aproximativos e diferenciadores sobre a trajetória histórica de um e de outro.

É trabalho inédito e denso (mais de 500 páginas), que revê a construção de ambas as nacionalidade,  cujo texto se presta tanto para preencher  nossa curiosidade sobre nosso maior vizinho,  como serve para aguçar nossa tradicional rivalidade sobre a quem pertence a hegemonia sul continental. O espaço histórico vai da independência à atualidade. Embora independente em 1810, a Confederação Argentina só se integrou em 1862, com a eleição de Mitre para presidência.

Enfim, o quadro é largo e vai de sua herança colonial à atualidade, percorrendo o caminho de sua composição territorial e incremento populacional, formação social, cultural e política. Acompanha a formação de suas instituições e seus planos e projetos econômicos de combate à inflação e promoção do  desenvolvimento, através da via da substituição das importações e a industrialização. Trata-se, assim, de um quadro de visão dupla, que acompanha, em paralelo e igual tempo, o que sucede tanto no Brasil como na Argentina.

São duas economias de feição distinta, mas, até a altura da Primeira Guerra Mundial era a Argentina  que se mostrava mais promissora. Não tinha a feição “tropical” de suas irmãs da América e revelava condições climáticas semelhantes às da Austrália e Nova Zelândia. Em 1909, sua renda per capita era nitidamente superior à do Brasil e muito maior  que a média da América Latina.  Chegava a ser comparada à Alemanha e  Países Baixos. O vice-reinado do Rio da Prata, do qual provirá a Argentina contava então com 5 milhões de km², do quais as 13 províncias originais só preservaram  2,8 milhões de km²; e cuja diferença nunca recuperaram.

O Brasil, pelo contrário, contando com Tordesilhas só teria 1/3 dos seus atuais 8,5 milhões de km², reconhecidos em 1750 pelo Tratado de Madri. Área que manteve inteira e que  os autores atribuem ao papel coesivo da própria monarquia lusitana e do receio das nossas elites  da ameaça da abolição.

Partindo de uma visão de si mesmo e do outro, as elites argentinas se viam como sociedade aberta e igualitária, igual a Estados Unidos e encaravam com desprezo o Império brasileiro e sua condição de sociedade escravista. Em contraposição a elite brasileira via as repúblicas sul-americanas como bárbaras, sem liderança legítima e enfrentando um estado permanente conflito na disputa do poder.

Porém, apesar das fricções provocadas pela rivalidade entre os dois  na disputa da hegemonia na América do Sul, só há registro de um único precedente de confronto direto entre os dois países, quando ocorreu a Questão de Palmas, em que o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Estanislau Zeballo chegou a propor ao presidente Alcorta a invasão e ocupação do Rio de Janeiro. Felizmente, a intriga foi desfeita e  acabou com a renúncia do ministro.

Enfim, o ensaio percorre toda a extensão e diversidade de ambos os países, desde o modelo primário exportador, que, na Argentina, incluía a carne, o trigo, o milho e lã, com mercado  na Europa, sobretudo em Londres. A exportação brasileira cingia-se a um único produto, o café, posto que a cana reduzia sua produção com introdução do açúcar de beterraba. Entretanto, graças as condições de ordem  política e social conquistadas pelo governo do Império e o grosso das exportações  do café  para o mercado norte americano, o Brasil mostrou, a princípio, condições mais favoráveis que a Argentina. Ocorre, porém que, vencida essa etapa, antes da Primeira Guerra a Argentina alcançou e superou o Brasil, em todas as suas dimensões, até por volta de 1930. De lá prá cá, porém, a vantagem passou a ser do Brasil, em velocidade constante e maior do que a Argentina.

Enfim, o ensaio é amplo e revelador. É um trabalho  que acompanha e confronta a trajetória econômica de ambos os países através de seus indicadores mais representativos. Vale por um valioso compêndio histórico de macroanálise. Oferece ao leitor um amplo panorama macroeconômico, com a  alternância de suas crises e planos econômicos que estremeceram ambos os países. O Brasil é geralmente acusado de voltar as costas para seus vizinhos da América. Se isso é verdade, numa visão individual,  este livro não serve apenas para desfazer essa má impressão, pelo esforço valioso que faz para a aproximação e compreensão dos dois países, numa visão histórica conjunta e paralela, e o que é mais, pelo caminho difícil da história comparativa e a serviço da causa de um mundo melhor, pelo menos parte dele.

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.