Breve Perfil de Zacarias

O culto aos valores históricos tem sido, através dos anos, permanente referência da nossa ufania ancestral. As instituições culturais cuidam dessa liturgia cívica, como o fez a Academia Paranaense de Letras em consonância com outras entidades congêneres.

Só poderemos compreender a gênese do nosso processo civilizador à medida em que rebuscarmos nas raízes do passado a seiva da paranaensidade. Nessa matriz é que encontraremos os traços pioneiros da nossa identidade coletiva. Importa-nos não apenas redescobrir, mas exaltar aqueles precursores que, empolgados por um ideal comum, engajaram-se desde a primeira hora nos movimentos pela conquista da nossa autonomia política. E que, sobretudo, consolidaram-na.

Zacarias de Góis e Vasconcellos foi um deles. Natural de Valença (Bahia) coube-lhe instalar a Província do Paraná e dar-lhe as linhas mestras da organização administrativa, social e política. Trouxe vasta experiência da vida pública, pois jovem ainda, recém-formado em Direito pela Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Olinda (PE), iniciou-se na carreira política como deputado provincial.

A partir daí, ganhou renome pela cultura abrangente e a oratória primorosa. Não tardou a ser convidado a presidir a Província do Piauí e depois a de Sergipe. Revelando-se administrador competente, viu aumentado o seu prestígio pessoal. Elegeu-se, em seguida, deputado geral e passou a impressionar o Parlamento pelo brilho da sua inteligência e a volumosa bagagem cultural. A Câmara enriqueceu-se do seu talento e da sua liderança carismática.

Durante o Gabinete do Visconde de São Lourenço, em 1852, foi convocado a ocupar o Ministério da Marinha. No ano seguinte, criada a Província do Paraná, entendeu o Gabinete da Conciliação, presidido por Hermeto Carneiro Leão, de nomeá-lo presidente da novel unidade.

Instalou-a em 19 de dezembro de 1853, não sem antes contrair núpcias com a jovem Carolina, vinte e cinco anos mais nova do que ele, o que despertou curiosidade e maledicência. Ela, filha de importante diplomata da Legação Brasileira em Paris. Da lua-de- mel na Cidade-Luz, o casal partiu para Curitiba a enfrentar o desconforto de uma viagem longa e penosa.

Visão de estadista, plantou os alicerces de uma gestão voltada aos interesses da população. Pacificou a política regional dividida entre liberais e conservadores, de modo a governar acima das paixões e rivalidades existentes. Criou comarcas, a Força Policial, o Arquivo Público, a Imprensa Oficial, Distritos Sanitários, duas Secretarias de Governo, a Diretoria dos Índios, as cadeiras de latim, francês e inglês no Liceu Paranaense, estabeleceu a obrigatoriedade do ensino fundamental e determinou a abertura da estrada da Graciosa, entre outras realizações importantes.

Ao deixar o governo, em abril de 1855, para assumir mais uma vez a cadeira de deputado geral pela Bahia, recebeu consagradoras manifestações de estima e reconhecimento do povo paranaense.

Professor catedrático da Faculdade de Direito do Recife(PE) por concurso, militou por muitos anos no magistério superior. Eleito numa lista tríplice para o Senado, viu-se nomeado pelo Imperador conforme as regras constitucionais de então.

Admirado e temido, ao mesmo tempo, dado o seu temperamento arrebatado, inimigo da mediocridade e da corrupção, poucos se atreviam a enfrentá-lo nos debates. Em 1862 ascendeu ao cargo de presidente do Conselho de Ministros, governo de curta duração. Mais tarde preside o Conselho de Ministros por mais duas vezes, até romper finalmente com a política de D.Pedro II e aderir ao Centro Liberal, quando suscitou com mais veemência sua tese sobre os limites do Poder Moderador e se alinhou às idéias republicanas.

Em 28 de dezembro de 1877, vítima de uma linfatite perniciosa, faleceu no Rio de Janeiro, aos sessenta e dois anos. Os publicistas do seu tempo, na maioria anti-clericais, distorceram-lhe a imagem e tentaram ensombrar-lhe o brilho existencial. Não lhe perdoavam a ortodoxia ultramontana, nem a independência da sua postura pessoal. Mas, é inegável que os substratos do espírito sobrevivem aos agravos e se impõem ao juízo da posteridade.

O atleta da palavra, que enfrentou sozinho as legiões do Parlamento, alcançou, por fim, os altiplanos da imortalidade.

Sua vida foi um permanente gesto de coragem, rebeldia e edificação. Ao mesmo tempo culto e talentoso, álgido e amoroso, sensível e desassombrado, fecundou a coerência do comportamento na busca incessante do seu modelo ideológico. Ao encontrá-lo, imolou-se às idéias e princípios que lhe arrebatavam o espírito.

Não cortejou o poder. Alçado às culminâncias, desdenhou a glória dos brasões, em desgraça política ignorou as tentações das galas palacianas, fiel à sua doutrina liberal. Inteligência superior, seus atos audaciosos e, às vezes, agressivos, continham sinceridade e nobreza. Provocavam devoções ardorosas dos admiradores e ressentimentos amargos dos inimigos. Era autêntico, dessas vocações que tanto podem explodir em reações inusitadas, quanto amenizar as crises com a serenidade dos lagos.

Uma individualidade assim, original e fascinante, está a exigir o estudo e a meditação das novas gerações pelos exemplos e lições com que ilustrou a história do Paraná e do Brasil.

Túlio Vargas, cadeira nº23

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.