CECÍLIA WESTPALEN, A EMBAIXADORA DA NOSSA HISTÓRIA

Em 1983, ao ser recebida no quadro associativo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Cecília Maria Westphalen, foi saudada pelo seu presidente Pedro Calmon como embaixadora da história paranaense, pela produção considerável e inédita de obras que tem realizado sempre à frente da Universidade Federal do Paraná e das Instituições a que tem emprestado sua rica e incansável contribuição.

Nascida na Lapa, em 1927, Cecília foi descendente do berlinense Eugênio Westphalen, emigrado para o Brasil em 1824 e radicado no Paraná.  Concluídos os primeiros estudos na cidade natal, seus pais e irmãos se transferiram para Curitiba, onde completou o curso normal no Instituto de Educação e, em igual tempo, o curso clássico no Colégio Estadual do Paraná.  Prosseguindo nos estudos ingressou no Curso de História e Geografia, da Faculdade de Filosofia, que concluiu em 1950, e, em duplo caminho, no de Direito, da Universidade Federal, onde também se bacharelou, agora em 1952. 

Votada ao magistério, em 1951 concorreu à disciplina de Estudos Brasileiros e Paranaenses no Instituto de Educação e foi aprovada com distinção, enquanto, prestou concurso, igualmente, para a cadeira de História, no Colégio Estadual do Paraná e teve igual aprovação.

Prosseguindo em seu estudo, em 1950, após concluir o curso de História e Geografia na Faculdade de Filosofia, em 1957, concorreu com sucesso à cadeira de História Moderna e Contemporânea, da mesma Faculdade, com a obra ” Carlos V – Seu Império Universal”.

Seu livro serviu então de passaporte para que, nos anos seguintes de 1957 e 1958, participasse de curso de pós-graduação na Faculdade de Filosofia, da Universidade de Colônia, na Alemanha, e, em Paris, na 6ª Sessão da Ècole des Hautes Ètudes, onde se especializou em Historia Moderna e Contemporânea

Festejando o quarto centenário da morte do imperador Carlos V, Cecília levou para a Europa alguns exemplares de sua biografia, que distribuiu ao conhecimento de muitos dos seus colegas participantes dos cursos. Em geral, a obra foi vista com simpatia, porém, considerada uma biografia linear, provida de ampla e atual bibliografia, mas sem particular originalidade: “un tableau  de règne  qui se lit avec agrèment.

Porém, seu  professor Frederic Braudel, com a morte de Marc Bloc havia se convertido sozinho no personagem central do curso de sua famosa Escola dos Annales, já na sua segunda fase, que não deixou, entretanto, de criticar o livro por obedecer  o modelo tradicional da história positivista, narrativa e política, repetindo ainda uma versão já consagrada pelo historiador alemão  Kark Brandi, e contrariando a pregação da Nouvelle Histoire, em defesa de uma história de caráter serial, de conteúdo social, que incluísse a realidade do dia a dia, tal como é ou parecesse ser,

Então, sob a orientação de Braudel e a animação natural de sua vivência francesa, Cecília passou a seguir novos rumos, adotando uma compreensão braudeliana da História, orientada por uma visão de longa duração, pluridisciplinar, econômica e quantitativa (pas de chiffres, pas de histoire).

Quando voltou, em 1957, vinha assim com uma nova visão da história e com projetos mais audaciosos de se voltar para o mundo Atlântico e suas relações com o porto de Paranaguá, registrando a presença de navios e o movimento de mercadorias (seu “Porto de Paranaguá – Um Sedutor”, durou cerca de 40 anos para ser concluído).

Passou a promover o levantamento de fontes demográficas de nossa História e a análise do comportamento político de sua população. Procurou rever; a estrutura agrária tradicional do nosso estado e suas transformações, bem como compreender os alicerces de nossa economia.

Aproximou-se dos colegas dos Estados vizinhos, integrando o grupo de professores de Marília e da Universidade de São Paulo, visando a fundação de uma associação nacional de historiadores universitários. Tornou-se chefe do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná, Coordenadoras dos Cursos de pós-graduação, Presidente do Conselho de Ensino e Pesquisa.e Diretora do Setor de Ciências Humana, Letras e Artes, além de membro do Conselho de Contas da Universidade.

Relegara o seu “Carlos V” à condição de um “erro de juventude” ou a “uma ingênua ambição européia”. Embora assumisse múltiplas funções administrativas na Universidade, sobretudo no setor de ensino e pesquisa, isso tudo não impedia que prosseguisse contribuindo para o conhecimento histórico, a que dava continuidade com a mesma constância, mesmo com o acúmulo de suas pesquisas.

A História paranaense é ainda uma obra “in fieri“. Há dissídios de origem, não resolvidos, assim a “heroicização” de Afonso Botelho, adjunto de ordem do governador de São Paulo, o Morgado de Mateus, que, na segunda metade do século XVIII, foi comandante das expedições militares e de conquista dos sertões do Paraná, que David Carneiro sacraliza com tendo sido o verdadeiro precursor da criação da Província do Paraná. Durante as celebrações do centenário de nossa emancipação David pleiteava fossem suas cinzas transferidas de Portugal para o Brasil e sua memória celebrada em nosso Estado. Valfrido Piloto não pensava assim e qualificava Botelho como serviçal do despotismo, sequioso de fortuna e glória. A quizila começou em 1939, durou muito tempo e quase chegou ao confronto pessoal.

Doutro lado, embora o Paraná fosse reconhecido como provindo de três vertentes de ocupação e desenvolvimento; sejam o Paraná tradicional, o do Norte e do Sudoeste e Oeste do Estado, um professor da Universidade de Sofia, no Japão, apresentou uma tese de doutorado nunca cogitada antes, baseada em títulos eleitorais, provando que há ainda uma quarta região, que fica no Centro do Estado e foi ponto de encontro de todas as outras colonizações.

Ainda, para completar, pode ser citado o movimento separatista de “O Sul é o Meu País”, explorado com promessas enganosas por forasteiros ambiciosos.

Enfim, Cecília Maria Westphalen foi mais que uma dedicada historiadora, foi nossa embaixadora de todas as frentes de nossa memória, a quem devemos não só construção de nossa verdadeira imagem como dos estímulos para uma confiança maior em nossa própria grandeza.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

Publicado em Artigos