Curitiba: um breve surto de filosofia?

Para Sílvio Romero, na sua “Filosofia no Brasil” (1878), embora o nosso país possa reivindicar a precedência do pensamento especulativo na América Latina, ainda somos muito modestos neste campo. Na verdade, nosso espírito tem sido mais assimilativo do que criativo. O episódio que trago à lembrança é de 1943, e tem como um dos seus principais protagonista o  curitibano Temístocles Linhares, crítico literário, dos maiores nacionais, com mais de 20 obras editadas e  reconhecimento internacional. Catedrático, Diretor de Ciências Humanas e jubilado da Universidade do Paraná, em 1965 foi contratado pela Universidade de Lisboa. Só não foi acadêmico, souvenaient même, com diz o epigrama fúnebre. Faleceu em 1993, em Montevidéu. Tinha 87 anos.

Na verdade, porém, muitos há que não aceitam a láurea acadêmica, pois ela nada mais acrescentaria ao prestígio já alcançado. Tais foram Sthendal, Flaubert, Baudelaire e outros franceses e, no Brasil, o exemplo que trago é o de Constâncio Alves, que se recusou até de participar da criação da Academia Brasileira de Letras. Ora, conta Josué Montello que, na antiga e gloriosa Academia Francesa, nem o bispo de Limages sabia ler, nem Batteux sabia escrever.

Na nossa, Sérgio Buarque se recusou a integrá-la. Assim Osvaldo Aranha. Lobato recebeu apenas 1 voto, Juscelino foi rejeitado, Pontes de Miranda se candidatou 3 vezes e só foi eleito na última. Porém, o médico Pedro Kassab nem precisou escrever livro para ser eleito em 2009.

E nós paranaenses, temos filósofos ou acadêmicos de título nacional? Dentre 277 membros da Academia Brasileira de Letras, o Paraná só contou com 2 representantes: Emílio de Menezes e Rocha Pombo, ambos in articulo mortis. Emílio assumiu por carta e morreu 42 dias depois. Rocha Pombo durou ainda 3 meses, mas sem ocupar a cadeira 39, enterrado no Inhaúma, com a presença de três ou quatro acadêmicos.

Voltando a nosso registro filosófico, ia a guerra mundial ao fim. Stalingrado sitiada representava o sacrifício maior e o epílogo do morticínio guerreiro.

Frei Sebastião Tauzin, dominicano e professor de filosofia tomista, na Universidade Católica do Brasil, no início de 1943 fez uma visita a Curitiba, ocasião em proferiu duas concorridas conferências no Circulo de Estudos Bandeirantes:  uma delas sobre O Espiritualismo de Bergson e a outra “Guerra de Idéias”.

As palestras contaram com a presença do jovem professor Bento Munhoz da Rocha,  visto como pensador católico de militância do humanismo integral, na linha de Thomaz de Aquino, Maritain e Alceu de Almeida Júnior. Foi um dos fundadores da Circulo Bandeirantes e professor de História da América e Sociologia da Universidade Católica.  Seu porte cultural e religioso prenunciava brilhante carreira política, após regime.  Como se deu…

Temístocles, por sua vez, se comovia com o preço caro cobrado da Rússia pelos sacrifícios humanos, para garantir seu território  e a sobrevivência das potências democráticas, e, finalmente, pôr fim á guerra. Tudo isso. Independente dos seus dogmas e de um sistema repressor das liberdades e dos direitos humanos.

Contra as manifestações dos grupos católicos dos Estados Unidos,  que abjuravam o comunismo e se opunham a qualquer forma de cooperação  ao esforço da Rússia, Tauzin, pelo contrário, pregava maior ajuda do mundo ocidental ao heroísmo do povo russo, país de tantas raças e de permanente sujeição política. Acreditava Tauzin que, se um povo assim sofrido pagava tão alto pela sua liberdade e a do seu país, merecia nossa ajuda, nossa lealdade para ser reconquistado para os ideais comuns da humanidade cristã.  Pois Stalin até já não oferecera espaço em Moscou, para a instalação de uma fundação jesuítica?…

Foi quando  Temístocles Linhares publicou seu artigo  – “Rússia, esperança do Mundo”, abrindo o debate e acendendo a polêmica que iria animar a imprensa local e as rodas notívagas de jovens intelectuais e professores, que curtiam as noites em tertúlias e vagares literários, formando até um grupo : Patrulha da Madrugada. O primeiro pavio aceso foi o de Bento mas ao grupo acudiram todos às folhas da Gazeta, entre eles o redator de “O Dia”, Caio Machado, e o médico Milton Carneiro que gostava de noctivagar pelas noites curitibanas.

O colóquio começou com Stalingrado sitiada e o esforço do povo russo para conter o exército de guerra alemão e desfazer o mito de sua invencibilidade. A resistência russa comprovava, entretanto, sua fortaleza e seu espírito de luta, tanto quanto, a força reprimida de independência do seu povo, e que o ideal comum da guerra poderia aproximá-la ainda mais e anunciar aos católicos a oportunidade de uma confraternização geral cristã. Para Bento, entretanto, o tema tinha dois lados. Duas maneiras de ver: o lado  político, tomado por Temístocles e o cristão, que era seu.  E passou a dizer: o regime russo não se transforma. Essa guerra não era ideológica mas de expansionismo  nacionalista.  Para o jovem Bento, aos russos não interessavam as concepções nem as ideologias, pois  estavam defendendo sua própria terra da invasão estrangeira. Esse o seu nacionalismo. De qualquer modo, comunismo não é apenas o anticapitalismo, mas uma concepção total de vida. E, afinal, Bento, Tauzin não tomara partido nenhum, fora, na verdade, apenas ortodoxo e imparcial, como era diante das idéias, aquelas  que não se exprimem sob a aparência de uma simples maquillage, num mundo de contingências, à serviço  de um ideal partidário,  estranho a realização da própria vida. E, por esses caminhos, o debate se multiplicou de mil formas e ganhou as ruas, porém, sempre em tom cordial, só  animado pelo calor dos debates, quebrando o silêncio noturno da pequena Curitiba. Foi ai, então, que o jogo teve de mudar de rumo. Apareceu no jornal um delegado de polícia,  da Ordem Política e Social que mandou suspender tudo. Suspendeu as publicações. Comunismo era  palavra proibida pelo governo e ofensiva aos bons costumes da época. Porém,  Acyr Guimaraês, o experiente diretor do Jornal não queria perder o talento dos “rapazes”  nem o gosto do público,  já cativo do confronto das idéias. Então fez um trato com a polícia: doravante saiam da pauta os temas de comunismo e de guerra, que se  convertiam nos da filosofia geral ou abstrações maiores, como os da condição e  destino da pessoa humana; os da cultura europeia e americana, ou quejandos. Infelizmente,  o debate amorteceu com o tempo. Alguns de seus personagens se  dispersaram e os temas perderam a vivacidade de antes. Manteve-se vivo nas mãos dos últimos, mas agora convertido só num debate pessoal e político sobre os candidatos a presidente da época: o Brig. Eduardo Gomes e o Gen. Eurico Gaspar Dutra. Foi o último estágio da polêmica.

Há quem diga que o paranaense não tem vocação filosófica. Basta dizer isso? E o surto que nos acometeu? Não nos levaria aos arcanos da filosofia, se fosse cultivado?

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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