David Carneiro

Se vivo estivesse, David Carneiro faria hoje, dia 29 de março, 102 anos. Quanto mais passa o tempo, mais avulta a sua figura emblemática de polígrafo inconfundível, historiador fecundo e polivalente notável, que explorou todas as vertentes do pensamento humano.

Nenhum historiógrafo paranaense se lhe igualou na bagagem bibliográfica, nem os luminares de outras épocas, tamanho o volume e a densidade da sua produção intelectual em obras diversificadas e abrangentes da inteligência, numa conjugação de temas fascinantes.

Por causa dele, não perdemos a fé no primado da cultura, nem no humanismo. Nesta hora em que pontificam os valores efêmeros da sociedade de consumo, evocá-lo torna-se um exercício de saudável aprimoramento espiritual. Nós precisamos de paradígmas e da sabedoria de homens que se projetaram para ganhar a condição de símbolos nossos. Rogamos por ícones, exemplos e modelos.

O professor David Carneiro foi um caminho, quando se observa hoje “o elogio da massa ou a reverência a lideranças humanas que explodem como bolhas de sabão.” Campeia a vulgarização dos ídolos de pés de barro e a banalização do mérito, no plano inclinado da mediocridade.

Historiador, professor, poeta e museólogo, para não citar, por demasiado longos, outros títulos que lhe enriqueceram o currículo, ele foi, sobretudo, uma figura aristocrática e gentil, iluminado pela generosidade e o conhecimento

A tarefa quotidiana e portentosa de preservar a memória paranaense e brasileira foi sempre a sua paixão, seja na pesquisa, na publicação de livros, nas aulas, no recesso do museu ou nos periódicos.

Transcendeu-lhe a vocação de incorporar o passado ao presente, sem perder a visão do futuro. Sua coluna diária “Veterana Verba” ensinou gerações a compreender a gênese do nosso processo civilizador.

Estudioso da história, da filosofia, da teologia, da matemática, foi um eclético infatigável e hábil semeador. Sua ilustração filosófica e científica constituiu manancial inesgotável no mundo das idéias e na criação literária e historiográfica.

Ninguém que se aventure a perqüirir temas da história do Paraná poderá ignorar-lhe a bibliografia torrencial nesse campo, calcada em prospecções eruditas e abalizadas.

A história que David Carneiro produziu não foi um simples relato expositivo ou contemplativo, crônica ou registro, mas sim de natureza dinâmica, interpretativa, enciclopédica, metodológica, enfim, crítica, objetiva e científica.

Nunca foi o escritor encastelado, insensível aos jovens que o procuravam em busca de apoio e aconselhamento. Mostrou-se aberto e solícito, prefaciando e estimulando as vocações emergentes.

Para melhor admirarmos esse historiador marcante, agora à distância, basta recorrer aos seus livros, riquezas da tradição, guias luminosos, e entendermos a larga dimensão do seu espírito esclarecido.

O saudoso acadêmico Wilson Bóia, seu biógrafo, soube traçar-lhe o perfil e cultuar-lhe a lembrança amena, suave e inesquecível numa obra portentosa. Por sua vez, Clotilde Germiniani, também acadêmica, discorreu sobre a importância da sua política museológica. Tudo ainda inda é pouco para testemunhar-lhe a nossa gratidão, mas o suficiente para, genuflexos, beijar-lhe a memória.

Túlio Vargas, cadeira nº23

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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