DESAPLANAR: UM NOVO ESTÁGIO DE NARRATIVA VISUAL

Nick Sousanis foi primeiro aluno da prestigiosa Universidade Colúmbia e, a concluír seu curso, apresentou em 2014 sua tese de doutoramento em Educação, sob formato de quadrinho, abordando nossos condicionamentos mentais e o processo de aprendizagem em que questiona a primazia da palavra escrita sobre o visual, e defende a simbiose do texto-imagem. Deu ao trabalho a denominação heterodoxica de:”Unflattening. A Visual-Verbal Inquiry into Learning in Many Dimension”. A tradução que lhe atribui é a de “Uma invetigação verbo-visual sobre o aprendizado em várias dimensões”.  Unflattening não tem no dicionário inglês, nem com o sentido que se quer imprimir. Tampouco em português, onde a palavra assume o lugar de neologismo.  Aliás, Sousanis confessa que não quis usar palavras para definir “unflattening”. Se serviu de metáforas, para que possam ser compreendidas de forma diferente, dependendo de quem faz a leitura.

Na verdade, foi o primeiro pós-graduado a apresentar e ver aprovada a tese de doutorado em formato de história em quadrinhos, coisa que não voltou a acontecer desde então, No ano seguinte o trabalho foi publicado pela editora da Universidade de Harvard e seu livro escolhido para leitura dos calouros e para orientar os discípulos. Ganhou na categoria de humanas o prêmiomais tradicional atribuído às pesquisas e trabalhos acadêmicos nos Estados Unidos (American Publishers Awards for Profesonal and Scholarly Excelence). Ganhou o Eisner, o prêmio máximo da indústria de quadrinhos dos EUA., equivalente ao Oscar, como também venceu o prêmio da Lynd Ward Graphic Novel e o American Publishers Awardy,No Brasil saiu publicado recentemente seu livro “Desaplanar, da editora Veneta, com tradução de Érico Assis.

Hoje, com mais de 40 anos, Sousanis é formado em Matemática e professor da Universidade de São Francisco, quadrinista e pesquisador laureado, mas foi pré-adolescente desenhista e criativo, cuja precocidade tem sido creditada a favor do seu sucesso de agora. Assim, ainda aos treze anos criou o super-herói Homem-Armário, dotado da faculdade de atravessar portas e poder passar de um lado a outro dela, em qualquer tempo ou lugar. A princípio esse poder só podia ser usado nos armários, mas logo sua força logrou atravessar qualquer porta. E ele revelou ainda outros estranhos fascínios como o por chaves e fechaduras. A imagem deixada pelo irmão mais velho da existência de um guarda-louças com a porta sempre fechada. São imagens de obstáculos que cercam os espaços e nos deixam fora dele, ou, como aconteceu com ele, vão incitá-lo a transpor suas barreiras. Dizem os seus intérpretes que essas experiências vão servir para abrir outras tais, não convencionais, ao poder da imaginação. Seu pai era professor de física e sua mãe professora de estudos contemporâneos e sempre se mostraram abertos à sua formação e à leitura de quadrinhos.

Para Nick Sousanis a linguagem verbal é plana e está habitualmente confinada às entidades culturais e ao discurso acadêmico, que em geral não chega ao maior número. A dificuldade principal está na própria linguagem convencional, sobretudo quando se propõe a desenvolver narrativas complexas e a propor problemas de maior cognição. É aí que Sousanis vê a oportunidade dos quadrinhos, como meio de descaracterizar e democratizar o conhecimento. Certamente a linguagem dos quadrinhos não é tão adequada para expressar com detalhes idéias técnicas iguais a linguagem verbal. Mas aí é que ele introduz a sua simbiose visual-palavra. O fato é que o quadrinho permite experiências simultâneas e sequenciais, que nos favorecem levar à frente narrativas de natureza complexas ou a explorar ideias novas. Ora, o tema atual é desenvolver todas as nossas potencialidades e explorar os limites das nossas percepções. A história em quadrinhos representa um desses potenciais. É uma ferramenta, ou uma linguagem visual, da qual a educação pode livremente se servir e com proveito.

Os dias atuais aumentam o interesse e há uma demanda crescente à procura de novos formatos de pesquisa.

Que se abram as portas, portanto, para outros pesquisadores com formação em linguagem não convencionais.

Afinal, a expectativa é que o trabalho abra portas para mais pesquisadores na defesa de outras linguagens não convencionais, desde que sejam compreensíveis e compatíveis com o nosso tempo.

E, a propósito, já há notícia da edição pelo autor de uma breve edição de um guia suplementar, que vai dar continuidade ao livro.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto