Discurso de posse na Academia Paranaense de Letras, em 25 de julho de 2016, do novo ocupante da cadeira nº 40, Antonio Carlos Carneiro Neto.

Ilustres Acadêmicos,

Senhoras e Senhores,

Ao tomar posse para ocupar a cadeira número 40 desta augusta Academia Paranaense de Letras recordo que minha profissão e vocação permanente é a de jornalista, embora tenha atuado e continue atuando em diversas áreas através dos tempos.

Nasci, profissionalmente, no rádio aos 15 anos de idade empunhando o microfone da Rádio Clube Pontagrossense nos tempos dourados do futebol brasileiro, então bicampeão mundial, graças a arte e ao talento de Pelé, Garrincha, Didi e tantos outros craques imortais.

Apaixonado por futebol e pelas inesquecíveis transmissões radiofônicas de Pedro Luiz, Edson Leite, Fiori Gigiglioti, Jorge Curi, Waldyr Amaral e Oduvaldo Cozzi, com os comentários de Mário Moraes, Rui Porto e Mauro Pinheiro embalava os meus sonhos juvenis que se tornaram realidade ao conhecê-los pessoalmente e ter tido o privilégio de transmitir partidas de futebol ao lado de alguns deles em estádios no Brasil e no exterior.

Devorava os jornais e revistas que chegavam em Ponta Grossa e, mais adiante, em Curitiba para aprender com os verdadeiros gênios da crônica esportiva como Mário Filho, Armando Nogueira, Nélson Rodrigues, João Saldanha, Thomaz Mazzoni. Da crônica paranaense lia a tradicional coluna “Do meu degrau das gerais”, do veterano Pedro Stenghel Guimarães publicada no jornal O Estado do Paraná.

As transmissões dos jogos do Campeonato Paranaense eram acompanhadas pelas ondas curtas da Rádio Clube, a velha e poderosa PRBedois onde iniciei como narrador esportivo depois de trabalhar seis anos como repórter nas rádios Guairacá e Independência.

Admirava as narrações de Machado Netto, Willy Gonser, Silvio Ronald, Aloar Ribeiro, Airton Cordeiro e outros expoentes da radiofonia araucariana.

Era a época de ouro do rádio com o povo curtindo os seus ídolos ouvindo em casa, no trabalho ou no auditório.

No mesmo prefixo brilhou como locutor esportivo o depois líder político, escritor e acadêmico Odilon Túlio Vargas, que foi presidente desta excelsa casa de cultura.

Concomitantemente com a vibração pelas atividades esportivas tive minhas primeiras experiências literárias em casa, graças ao incentivo e a modesta biblioteca particular de meu estimado pai. A paixão pelos livros começou entre a segunda infância e à adolescência com a descoberta dos clássicos de Machado de Assis, Eça de Queirós, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Emile Zola, Rafael Sabatini, Érico Veríssimo e tantos mais que enriqueceram o meu conhecimento.

Aprendi, desde logo, pela orientação de meus pais, pela leitura e o amadurecimento precoce por conviver com pessoas mais velhas, que as coisas da vida se dividem em duas categorias básicas: corretas ou incorretas.

Carrego esse conceito, pois fui orientado e formado, profissionalmente, por companheiros mais experientes comprometidos com a ética jornalística.

Emissoras de rádio, televisão e jornais sabem que uma informação só merecerá esse nome se for verdadeira. Se não for, deve ser remetida à lixeira reservada a rumores, versões ou boatos.

Nenhuma mídia de massa está livre do risco de abrigar em seus noticiários ou em suas páginas erros, equívocos e imprecisões – nunca por má-fé, mas porque nenhuma publicação ou emissora são infalíveis, seja quais forem os mecanismos de controle adotados pela redação.

Ocorrido o erro, de todo modo, ele deverá ser imediatamente registrado e corrigido.

Esse credo conceitual acompanhou todos os meus dias através desses 52 anos de atividade jornalística ininterrupta tomando o cuidado de manter a imparcialidade.

Sempre me senti obrigado, moralmente, a prestar contas aos leitores e ouvintes de minhas impressões objetivas ou subjetivas, mesmo que, eventualmente, elas perdessem algo de equidistância em função do calor e do frenesi do estádio em um clássico do futebol ou em uma final de campeonato.

Não é tarefa fácil manter o equilíbrio e a isenção transmitindo para duas torcidas empolgadas, além dos ouvintes neutros com expectativas contraditórias em torno de um evento carregado de profundo conteúdo emocional.

As glórias do mundo, já advertiam os antigos, são passageiras. De mais a mais, sempre tive consciência de que a missão mais nobre é a de dizer a verdade, como narrador dos fatos e crítico independente.

Jamais me arvorei em dono da informação ou da verdade, não tenho o dom da onisciência nem me pretendo com o monopólio da sabedoria sobre os assuntos nos quais adquerí domínio e conhecimento.

A maior qualidade dos comunicadores, como a dos governantes, já se dizia desde os tempos de Confúcio, são a temperança e a humildade.

Tomando, honrosamente, posse neste momento da cadeira que me foi destinada, invoco e reverencio a memória do patrono da cadeira número 40, Cícero Marcondes de França. Filho de Palmas nascido em 1884 teve vida terrena de apenas 24 anos. Homem retraído, solitário e ensimesmado, vez por outra soltava frouxos de riso e repentinamente tornava-se comunicativo, vivaz e disposto a recuperar o tempo de poucas palavras.

Estudante em Curitiba mudou-se para São Paulo e logo chegou ao Rio de Janeiro, a antiga capital do país. Conviveu com o conterrâneo estadual e já célebre poeta Emílio de Menezes.

Em seus escassos 24 anos de existência, Cícero Marcondes França distinguiu-se pela aqüidade intelectual e sonetos publicados. Embora curta a sua obra o remeteu ao pedestal das letras paranaenses.

O fundador da cadeira número 40 foi o guarapuavano Generoso Borges de Macedo. Homem com o espírito do século dezenove, ele escreveu poemas inspirados em sua esposa, Otávia, a quem invocou em seus versos como a “dama dos seus castelos de ouro”.

Deputado estadual, jornalista, poeta e cronista escreveu incontáveis trabalhos em jornais e revistas paranaenses.

O paulista Ângelo Guarinello foi o primeiro ocupante da cadeira que me foi reservada pelo Grande Arquiteto do Universo para honrá-la a partir de hoje.

Contista, poeta e fabulista, dono de privilegiada memória, apreciador de bons espetáculos teatrais e música erudita, Guarinello mantinha apreciável biblioteca de apurado gosto e fino requinte.

Ele é considerado um dos fundadores desta honorável Academia.

Alvir Riesemberg nasceu em Rio Negro, às margens do Iguaçú, como timbrou em um de seus textos mais sensíveis: “Os pinheirais imensos e as curvas do rio, vapores subindo, pejados de erva-mate, o pai decifrando charadas do Almanaque Paranaense e a mãe a declamar Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias enquanto embalava na rede o sono de seus filhos”.

Formado em medicina pela faculdade da Universidade Federal do Paraná, Riesemberg atuou como professor e médico durante décadas na cidade de União da Vitória. O segundo ocupante da cadeira número 40 foi deputado estadual e dedicou-se a escrita sobre assuntos ligados a navegação fluvial e estudos paranaenses no Instituto Histórico e Geográfico.

Meu antecessor foi um respeitado professor e apreciado escritor: Valério Hoerner Júnior, curitibano de nascimento e atleticano de coração, foi tetraneto de Manoel Antonio Pereira, último capitão mor e primeiro prefeito de Paranaguá e bisneto do célebre médico humanitário doutor Leocádio José Correia.

Formado em direito enveredou para o jornalismo através da quase centenária Gazeta do Povo, assinando por cerca de dez anos a coluna “Histórias de Curitiba”. Na literatura, desatacou-se por diversos títulos como “A vida do doutor Leocádio”, “A mosca azul”, “Ruas e histórias de Curitiba”, “Palácio Avenida”, “Atlético, a paixão de um povo”.

Membro do Conselho Estadual de Cultura, Valério Hoerner Júnior foi eleito para a Academia Paranaense de Letras em 1981.

Li, não me recordo onde, um pensamento curioso. Afirmava seu autor que, para acabar com a sonegação, o governo deveria criar apenas dois impostos: um sobre a virtude e outro sobre a inteligência. Por mais altos que fossem, todos se lisonjeariam em pagá-los e os que mais se apressariam a fazê-lo seriam os menos sujeitos a elas.

Quanto ao Estado, bem, esse, a partir de provas irrefutáveis, seria o primeiro a receber isenção…

O sermão da planície do futebol, para não ser escutado por desavisados ou principiantes no mundo da bola, propõe que sejam Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.

Bem-aventurados os que não têm paixão clubística, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto.

Bem-aventurados os que não apitam jogos, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada ao saírem do estádio.

Bem-aventurados os treinadores que não inventam muito na escalação dos times, pois escapam de xingamentos ferozes reverberados pelo som das arquibancadas.

Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, contusões, fraturas e mesmo da glória efêmera de alguns anos.

Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura.

Bem-aventurados os fotógrafos que trocaram a documentação do esporte pelos desfiles de modas, pois não precisam gastar tempo infindável para fotografar o relâmpago de um gol.

Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas nos países baixos, como os atletas profissionais ou os craques ocasionais de peladas.

Bem-aventurados os que não conseguiram comprar televisão de última geração a tempo de assistir ao maior vexame da seleção brasileira em sua rica história na última Copa do Mundo.

Bem-aventurados os que não moram perto de arenas ou estádios e muito menos em ruas com sede de torcidas institucionalizadas, pois estão livres de barulhos e confusões.

Bem-aventurados os surdos que não são alcançados pelo estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores que entram em êxtase no grito do gol decisivo.

Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com partidas mal jogadas e que se divertem como os mais fiéis ouvintes do rádio.

Bem-aventurados os eruditos que, na hora do jogo internacional, conseguem ouvir a sonata de Albinoni, pois destes é o reino dos céus.

Bem-aventurados os intelectuais que não distinguem as consequências da derrota do time da Lapônia ou o triunfo da seleção da Islândia.

Bem-aventurados os que, depois de escutar pacientemente este sermão futebolístico, aplicarem todo o ardor juvenil no peito maduro para torcer freneticamente pelo seu time de preferência, como faz este velho cronista, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.

No epitáfio de Andrew Carnegie está inscrito: “Aqui jaz um homem cujo grande e único mérito foi saber cercar-se de homens com mais mérito do que ele”.

Essa é também a minha filosofia de vida. Não devemos rezar a Deus para que nos dê tarefas iguais às nossas forças, mas, sim, para que nos dê uma força igual às nossas tarefas. Só assim o fruto do nosso trabalho não será um milagre. Seremos, nós mesmos, o milagre de Deus.

Sinto-me honrado ao ser entronizado como o mais novo membro desta egrégia Academia Paranaense de Letras.

Senhores acadêmicos curvo-me diante de vós, ilustres representantes e espaldares do Paranismo. Estão depositadas nesta soberana casa de cultura os símbolos mais elevados do conhecimento e da história do nosso amado estado do Paraná.

Senhoras e senhores muito obrigado pela presença.

Acadêmico Antonio Carlos Carneiro Neto