E CONHECEREIS A VERDADE E ELA VOS LIBERTARÁ – Cognoscetis veritatis, et ueritas libererabit uos (João, 8,32)

Conheci Aramis Sabóia da Silveira em plena adolescência. Frequentávamos os primeiros anos do antigo Ginásio Paranaense, da Ébano Pereira. E eu o via tantas vezes acomodado na saliência de um muro do pátio da escola, desenhando à lápis nosso herói Flash Gordon e sua namorada Dale Arden, na luta contra o imperador Ming, do planeta Mongo.

À volta, seis ou mais garotos como eu, vivendo as emoções que o desenho despertava. Embora desenhar fosse também um dos meus pendores, admirava a habilidade e o capricho com que nosso artista mirim dava vida a seus personagens. E reconheci que ele o fazia melhor que eu.  Soube mais tarde que, quando tinha 13 anos foi levado à presença ao interventor Manoel Ribas, com um desenho do Presidente Getúlio Vargas, e o fim de pleitear uma bolsa de estudo. Trazia um trabalho de reconhecida qualidade, tanto mereceu apoio igual ao que fora dado a Poty Lazaroto para estudar no Rio de Janeiro. Porém, com Aramis foi diferente. Talvez por ser muito novo ainda, o interventor se congratulou com ele, elogiou seu desenho, mas o despediu prometendo apenas atendê-lo mais tarde, com maior idade. E ficou nisso, porque nem o jovem artista voltou, nem foi convidado. 

Nosso convívio, porém, durou até ai.  Logo mais cada um seguiu seu caminho e não nos vimos mais, por dezenas de anos e outros mais.

Porém, embora já tão longe da memória, sempre me acudia a lembrança do seu destino. Por que caminhos seguira sua arte?  Será que fez carreira artística, se tornou pintor famoso e vive fora do país?  Ou, quem sabe, morreu e nos privou de sua arte.

Muitos anos depois, porém, já sessentão, ao ser admitido no Instituto Histórico, entre os novos relacionamentos, conheci o secretario da instituição, um engenheiro, beirando minha idade, bom porte e bom papo. E, não durou muito que não surpreendesse nele o menino precoce.

E era ele mesmo, mas revelando outras artes, que não as visuais como supunha. Era agora engenheiro aposentado da Copel, com alta formação técnica e consagrado sucesso profissional. Tivera participação superior na construção de usinas hidrelétricas e hidráulicas do Estado, pontes, prédios públicos e particulares no Sul do país, entre as quais ganhavam destaque a ponte Collombo Salles, ligando a ilha de Santa Catarina ao continente, e a ponte de Vitória a Vila Velha, no Espírito Santo. Nesse entrementes fizera curso no Centro Técnico de Aeronáutica, em S. José dos Campos e participou de estudos e execução de projetos de construção de aviões, chegando a receber convite para participar como assistente do curso e lecionar aerodinâmica.

Desde menino a aviação era seu encanto e chegou a alimentar o desejo de se tornar piloto, fez curso, mas foi eliminado por inaptidão visual.

Teve vida intensa, mas confessou ter sido obrigado a abandonar sua arte e o prazer de praticá-la. Mas isso não era toda verdade. O salão nobre do Instituto Histórico hoje ostenta, no alto e à sua volta, uma galeria de 24 desenhos de crayon sobre papel, retratando os presidentes da instituição. São quadros com moldura de 50 cm, em geral, 13 deles, no entanto, de autoria de Aramis e 11 outros de Guido Viaro, Andersen (2), Lewandowski (3), Doubek, Fernando Leão e Paulina Taborda Ribas de Camargo. Um precioso patrimônio artístico tipicamente paranaense, além de retratos a óleo sobre telas do Imperador D. Pedro II e do presidente, Zacarias de Góes e Vasconcelos

Por outro lado, se mostrava preocupado com o que viu ao tempo de seu gerenciamento e execução dos projetos energéticos do Estado, todos do mais alto porte econômico e indispensáveis ao desenvolvimento do país.

Durante seu tempo atravessou períodos de sérias disputas políticas e lamentava ter sido testemunha de inúmeros atos de improbidade administrativa, no uso do dinheiro público e do interesse do país, envolvendo a compra de turbinas e equipamentos das usinas. Numa dessas passagens, apesar da família e 8 anos de serviços pediu demissão do Departamento de Águas e Energia Elétrica, para não trair “suas inabaláveis convicções e poder preservar seus princípios de moral”. Naquele tempo, o governo não fazia licitação para a construção de obras públicas. Delegava os projetos a amigos e interesseiros, que se serviam das facilidades para cobrarem altos percentuais sobre as faturas, sem documentação ou recibos.

Mas conta, que seu momento de maior constrangimento foi durante a transição dos governos Lupion e Ney Braga. O Estado não tinha dinheiro. Então, embora aprovadas as faturas, o pagamento só era feito com autorização do genro do governador. Assim, nas circunstâncias, a fim de prover o caixa da empresa PROTEC e pagar o operariado da usina, Aramis foi compelido a pagar 20% de comissão, sobre uma dívida de 12 milhões e quinhentos mil cruzeiros ao genro indicado. O pagamento foi feito no escritório de sua empresa particular, em sala fechada, de cortinas cerradas:  cheque ao portador e sem recibo.

Aramis guardou desse momento um permanente sentimento de mal estar.  Era homem de formação moral rígida, que atribuía às lições e exemplo do avô Jica, da Lapa, homem simples por quem fora criado. Acreditava na virtude do trabalho e a ele atribuía todo o sucesso que conquistou. Mas a má lembrança ficou, carregada de um permanente sentimento de culpa. Um peso na alma que não podia aliviar.

Foi então que sugeri que tornasse isso público, que escrevesse e contasse o que ocorreu. E assim se libertaria dessa autoflagelação. Uma catarse. Uma purgação que o libertaria das más lembranças.

Ora, sabe o que aconteceu?  Passado algum tempo ele veio ao nosso encontro cheio de si, portava um calhamaço de papel, de que disse ser a história de sua vida. Seguira o conselho e se dispusera a contar tudo, inclusive o pagamento da comissão. Era, enfim, sua libertação. Trazia o nome, as circunstâncias e valores de tudo. Tirou cópias e me ofertou uma delas.  Por fim, agora se sentia liberto, redimido e reconciliado consigo mesmo e com seus valores morais.

Pouco tempo depois soube que fez mais. Fez editar tudo em livro, que intitulou “Périplo Existencial – Histórias de uma vida”, reproduzindo sua vida e tudo quanto me antecipara. Tinha tudo do calhamaço, inclusive o episódio e os detalhes da comissão. Só que, para minha surpresa, não tinha o nome do usurpador; este aparecia mencionado apenas como um  anônimo assessor da Secretaria da Fazenda (!?…)

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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