É TEMPO DE RESSUREIÇÃO

O que se diz habitualmente da literatura paranaense é que lhe falta uma maior identificação regional, uma certa comunhão com a terra, sua gente, costumes e padrões de cultura. O acadêmico Pinheiro Machado, ainda nos idos de 1920 acusava pela revista católica “A Ordem” que o Paraná era um Estado incaracterístico e de menor presença na vida literária nacional. O curitibano um taciturno, frio e arredio. O Paraná, um espaço ainda informe do país, sem ícones representativos, como o gaúcho, o bandeirante, o baiano.

E há ainda os que desdenham de nossa origem. João Itiberê da Cunha nasceu em Assungui (hoje Cerro Azul), mas estudou na Bélgica, onde foi colega do poeta Maurice Maeternick e voltou parisiano, adotando a língua e costumes franceses. Mudou o nome de João para Jean e editou Preludes, de versos franceses à merveille, pregando o simbolismo de Maeternick e de Iwan Gilkin. Dalton Trevisan sempre que vem a Curitiba anuncia a seu modo, vou me emerder.  

Metry Bacila, em trabalho relativamente recente demonstrou que, em dados comparativos da população, a contar da nossa emancipação política até 1980, o Paraná ocupou o desprimoroso 18º lugar da Federação em número de escritores, só à frente de Goiás, Espírito Santo, Rondônia e os dois Mato Grosso. Tínhamos apenas 1 escritor para 111.082 habitantes, enquanto Sergipe contava com 1 para cada 15 mil pessoas; Rio de Janeiro 19, Ceará 22, São Paulo 32 e assim em diante, em contraste com nossos brios culturais e o privilégio de ostentarmos a primeira Universidade do país.

Bacila ainda tentou redimir nosso pobre quadro literário, demonstrando que, ao contrário, em período mais curto, à entrada do século XX e então com uma população orçada em 327.136 habitantes, o Paraná pode contar com o dom de 1 escritor para cada 6.676 pessoas, isto é, conquistava a posição honrosa de 5,5 vezes a mais da média nacional.

Mas Metri arremata seu inventário com um consolo nativo, a avaliação que fez já contava vinte anos, por que não admitir, portanto, de que daquela data em diante o Estado poderia alcançar uma nova florescência de talentos que o colocaria à altura do seu merecimento e dentre os mais aquinhoados do país.

Mas, com tudo que se diz, há ainda um maior desconsolo: falta um compêndio que nos dê uma resenha ou um sumário mais completo e mais crítico da nossa história literária. Os que eu vejo por ai, são parcos e têm graves e injustas lacunas. Sobretudo pelas omissões; e cito: não há, por exemplo, alusões ao nosso poeta Francisco Pereira da Silva e se as faz, é quase nenhuma. Entretanto foi o novo titular da cadeira 20, em 1970, seu segundo ocupante, em sucessão a Ciro Silva, tendo por patrono Albino José da Silva. Faleceu poucos anos depois, 1974. Sua posse tem uma nota pitoresca. Como era poeta, durante a cerimônia foi saudado em versos pelo também poeta Leonardo Henke. Pois, com o mesmo estro, respondeu a saudação também em versos. Um recital de poetas.

Francisco Pereira da Silva foi homem de letras de ampla atividade e constante criatividade. Fez permanente literatura em prosa e verso. Escreveu as biografias do “Glorioso Taumaturgo Santo Antonio de Pádua”, “Carlos Gomes, sua Vida e sua Obra”. Fez teatro poético, com “Mulheres, na História, na Lenda e na Atualidade”, “D. Pedro I”, “Almas Heróicas” (ou o Cerco da Lapa), “O Guarani”; fez poesia e inúmeros artigos que divulgava em coluna própria ou na Revista do Centro de Letras e nos periódicos da cidade, o Dia, a Gazeta do Povo ou do do interior

Além de sua participação na vida da Academia Paranaense de Letras, mantinha atividade efetiva no Centro de Letras, de que foi tesoureiro; na Academia José de Alencar, com função de bibliotecário, além do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e o Neopitagórico. Era ainda membro honorário da Academia de Letras de Roma, na Itália.

Manteve programa radiofônico, organizando o programa “Hora Literária”, nas emissoras locais da PRB2, Marumby e Guairacá. Realizou 74 dos seus programas em 1951, atuando pessoalmente em 7 deles. Mas, há ainda outra contribuição pessoal que merece destaque e até louvor. Seu amor à música e ao culto da opera, levou-o a ser assediado com convites para compor letras de hino de diversas cidades do Estado. E compôs os de Araucária (este tornado oficial pela lei local nº 1.439/2003); o de São José dos Pinhais e outros mais de Foz do Iguaçu, Coronel Vivida, Antonina, Rolândia, Astorga, Barbosa Ferraz. Guaratuba, Campo Mourão, Matinhos, General Carneiro, Campina Grande do Sul. Compôs ainda as letras do hino do centenário de Castro, do Soldado Combatente e do Centenário do Paraná, muitos dos quais reverteram em títulos de cidadania honorária.

Mas há um título maior: a composição de uma grande epopéia, “Os Paraníadas”, modelado nos “Lusíadas”, de Camões, celebrando o homem paranaense e a história do nosso Estado. Um verdadeiro exemplar renascentista, composto de 12 cantos (os Lusiadas têm 10), com 3.032 versos líricos, em oitava rima. A estrofe com oito versos de dez sílabas métricas, chamados decassílabos ou heróicos. O poema canta a descoberta da terra, suas lendas, a epopéia das Bandeiras e dos tropeiros, nossa emancipação política e a exaltação do nosso progresso. A cada Canto há uma homenagem, celebrando um dos filhos ilustres da terra. A edição de 1968, comemorativa do 35º aniversário da Fundação do Centro Paranaense de Cultura, volume XXII. Foi promoção da Secretaria de Educação e Cultura do Estado e seu titular, Dr. Cândido Martins de Oliveira, destinada à distribuição nas escolas.

Não teve reedição e os poucos exemplares que ainda restam estão expostos na Biblioteca Pública, em seção que libera sua retirada e os expõem a danos e extravios. Trata-se, entretanto, de publicação de alto valor literário e, sobretudo, histórico que deve ser preservada. A bem de ver, somos parcos da história da terra e da celebração de suas realizações. Por que não preservá-la? Historiam reviviscere! É uma reivindicação que encaminhamos aos responsáveis pela história e a cultura da nossa terra. Será que terá eco?

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

 

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