FARQUHAR: UM POLVO IMPERIALISTA OU CAPITALISTA ILUMINADO

A participação de Percival Farquhar, o  megaempresário americano,  nos negócios do Brasil, no início do século XX, foi uma presença  tanto estranha como fascinante.

Tratava-se, porém, do maior empreendedor que o país teve entre os anos de 1905-1918. Para seu biógrafo Charles Gauld, foi, também, o maior vulto americano da história do Brasil, muito embora demonizado pelos nacionalistas, incompreendido pelos políticos, hostilizado pelos xenófobos e,  para a maior parte de todos,  um desconhecido.

Foi, no entanto,  um rico investidor estrangeiro,  bem sucedido, filho uma abastada família quacre da Pensilvânia, formado em engenharia  e direito pela Yale , fez  sua iniciação empresarial como vice-presidente da companhia de controle dos  serviços de bonde de Nova York e após  foi exportador de implementos agrícolas para a América Latina, passando a  participar do serviço de eletrificação dos bondes de Havana e  construção de ferrovias em Cuba e  Venezuela.Sem título

Chegou ao Rio  em 1905, como ambicioso empresário estrangeiro, interessado nas concessões dos   governos latinoamericanos, relativas aos serviços urbanos, como tramways, telefonia, iluminações públicas e privadas, e, do propósito de incorporarem outras atividades e empresas a elas relacionadas.

Farquhar se fez senhor de um império no Brasil, mas ainda maior fora do país, como estradas de ferro na Rússia, minas de carvão na Europa Central e engenhos de açúcar em Cuba. Consta que teve trato até com Lenine. Sua fortuna seria maior que a dos Rockefeller, Vanderbilt ou Morgan e, no Brasil, comparável à dos Matarazzo ou do Visconde de Mauá.

Era um tempo de capital abundante e disponível à iniciativa privada, de que se valiam os empreendedores estrangeiros, mais experientes e audaciosos que os nossos,  que contavam com menor experiência e maior dificuldade no acesso a esses recursos. E isso favoreceu aqueles que com mais facilidade para concorrer às  concessões  mais  vantajosas oferecidas pelos  serviços públicos desses países. Uma vez adquiridas eram financiadas pelas bancas de recursos, sobretudo da Europa.  E, neste sentido Farquhar até se vangloriou de ter carreado para o Brasil cerca de 45 milhões de libras esterlinas de recursos, captados nos últimos anos

Em princípio Instalou-se no Brasil associado ao americano Frederick Pearson, visando dominar os serviços públicos da capital. Adquiriram tramways, iluminação pública e privada, serviços hidrelétrico e de telefonia. Para unificá-los incorporou então a Rio de Janeiro Tramway Light and Power. Atraído, também por Salvador, da Bahia, fundou a Bahia, Tramway, Ligth and Power que, por razões políticas, acabou vendendo, anos depois,  à prefeitura local, com grave perda.

Em 1905 investiu na construção do Porto de Belém, tido como bem sucedido e que o levou à implantação de uma companhia de navegação do Amazonas. No ano seguinte fundou a holding do grupo norte do Brasil, que o levou a participar da construção da ferrovia Madeira Mamoré, um compromisso do Brasil com a Bolívia, proveniente da aquisição do Acre. Apesar das dificuldades e da imagem trágica que deixou, o empreendimento alcançou bom termo, e Farquhar foi condecorado pelo governo de Rondônia, com outros 876 norteamericanos, obreiros da ferrovia, hoje uma sucata, porque a borracha a ser exportada pelo Amazonas perdeu preço e foi suplantada pelas plantações da Malásia.

Na verdade, Farquhar promoveu toda sorte de empreendimentos, que incluíam terras, mineração, siderurgias, ferrovias, portos, agricultura, frigoríficos  e inclusive a maior fazenda do mundo (200 mil cabeças de gado), e quanto mais disse dele a reação nacionalista contra o “Sindicato Farquhar”, atribuindo-lhe o que nem era seu, mas de associados seus.

Quanto a nós, em 1908 Farquhar comprou a Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande de capitalistas franceses e belgas,  transferida a uma concessionária americana  dirigida por Farquhar, à frente da holding Brazil Railway Co, destinada a  promover a ligação Itararé-Marcelino Ramos, no trecho do Contestado. A ferrovia seria a cabeça de um grande complexo ferroviário interconectado, com que ele idealizou unir a América Latina e seus dois oceanos. Na sua imaginação, essa seria não só a maior rede ferroviária do mundo, mas a maior empresa  então conhecida.

A concessão da estrada incluía também as terras das margens da ferrovia, na extensão de 30 quilômetros, depois reduzidos a 15, para cada eixo. A área do Contestado cobria um território de 220.000 ha, ao sul do rio Iguaçu, de escassa população e de ricas florestas de araucárias e outras espécies de madeira de lei. Diante dessa riqueza natural e da facilidade oferecida pelo transporte ferroviário, a Brazil Railway montou uma subsidiária, a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, que, em 40 anos explorou a floresta, em uma ação predatória permanente de sua flora e fauna, abatendo cerca de 15 milhões de pinheiros. A valorização e a disputa das terras provocadas pela construção da estrada, a cobiça  da madeira e a dispensa de 8.000 trabalhadores,  devido a conclusão das obras da ferrovia (a quem não se deu o prometido transporte de volta), bem como a incorporação da população cabocla marginal e insatisfeita, arrebanhada pelos monges João e José Maria, com a promessa da construção do “Império Santo”, foram os ingredientes explosivos que levaram à revolta do Contestado, um dos mais ferozes conflitos da América, misto de explosão capitalista e genocídio, também denominado guerra xucra ou dos pelados, para satirizar sua insensatez.

Por fim, o império de Farquhar ruiu, quando ele passou a ser visto como um Mauá alienígena e suas empresas foram expropriadas na era Vargas. A Vale do Rio Doce foi nacionalizada, tal como a Acesita, de aços especiais, igualmente  o protetorado americano da Lumber. A ferrovia de Porto União a Marcelino Ramos acabou desativada e reduzida a sucata. Com a guerra dos Balcãs e a o início da Primeira Guerra Mundial, secou a fonte principal dos recursos externos e mesmo nacionais, e seu império acabou desmoronando.  Farquhar ainda deixou de receber do governo o dinheiro de que se dizia credor.

Apesar do quanto foi dito e resta dizer, subsiste ainda um precioso legado deixado pelo magnata americano. São US$3.3 bilhões (afora os rendimentos), devidos à nora sobrevivente do empresário, Joana Farquhar, em ação indenizatória julgada procedente e confirmada pelo STF, desde 1984.

Seria a reparação de uma injustiça histórica ou um ganho indevido, resultado de  uma ambição exagerada a que faltou sustentação?

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

 

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