INODORA OU O VASO PRESIDENCIAL

Drault Ermanny, paraibano do sertão do Cariri, veio de origem humilde, mas percorreu um longo caminho que, no início incluiu o emprego de mata-mosquito e fiscal do leite, com cujo ganho pagou o curso de Medicina, que concluiu no Rio de Janeiro..

Depois de um começo difícil, o sucesso logo veio ao seu encontro, para convertê-lo num rico empresário, dono do Banco do Distrito Federal e fundador da Refinaria de Manguinhos.art

Também na política sua estrela ganhou brilho fácil, eleito deputado e depois senador pela Paraíba. E é ele quem conta que, durante a fase constitucional do governo Vargas, em 1952, já no Senado federal, fez um brilhante discurso de teor nacionalista, em favor do monopólio estatal do petróleo. A notícia agradou Getúlio, que o convidou para uma visita ao Catete.

Ao conhecê-lo, porém, o presidente não pode conter sua admiração, pois diante do nome arrevesado de Drault Ermanny supôs encontrar um estrangeirado, um tipo galego, aloirado, e não, ao que via, um cangaceiro estilizado.

E Drault sempre aproveitava ocasião como essa, para passar adiante o vaticínio do seu avô, de que, filho para vingar, tinha que ser batizado com nome de cachorro. E foi por causa disso que ele e seus irmãos levaram os nomes de Drault, Adelgício, Joffre, Sadoc e Bivar, receita que deu certo para todos eles. E isso não aconteceu só com ele, mas também com Titta Ruffo, o famoso barítono italiano “vocce del Leone”, companheiro de Caruso. Foi batizado Titta Ruffo Gafiero, o Ruffo foi  homenagem do pai à perda de seu fiel cachorro. E assim sucedeu ainda com John Wayne, artista do western filmes americanos. Seu nome verdadeiro era Marion Robert Morrison. Porém, para seus companheiros de escola Marion era nome de mulher e isso era motivo constante de mofa dos colegas. E daí, ainda aos nove anos, passou a adotar o prenome “Duke”, e a se chamar Duke Morrison, tomando emprestado o nome do cachorro da família. E, com todos eles a previsão do avô deu certo e eles se eles se saíram bem de vida. Porém, o mais engraçado de suas memórias, foi o episódio da passagem por Patos, da Paraíba, de Whashington Luiz, recém eleito presidente da República, vindo do Ceará…

O programa previa simplesmente uma rápida visita à casa do prefeito local, para, em seguida, a caravana presidencial seguir viagem, sem pernoite. Mas, as autoridades e o povo resolveram transformar sua presença numa festa cívica, com banda de música, hino nacional, fogos de artifício e desfile militar, encerrando as festividades com um lauto almoço, com a presença das representações de todas as cidades vizinhas.

Foi tudo então preparado com capricho. E até instalaram um vaso sanitário no interior do salão do festivo ágape, para atender exclusivamente o presidente, caso ele precisasse se “desobrigar”, evitando o vexame de usar o mato, como faziam todos dali.

A solução foi comprar a “Inodora”, uma privada portátil com descarga, última novidade do sertão. A “inodora” custava, porém, três contos de réis, soma que a prefeitura não podia despender. Às tantas, porém, se chegou a uma composição com o vendedor: o artefato seria instalado sob condição. Se o presidente fizesse uso dele, a Prefeitura pagava. Caso contrário, permanecendo sem uso, o vaso seria devolvido, sem pagamento.

E foi assim que o povo de Patos homenageou o novo Presidente da República, sob a expectativa dos organizadores do evento, que não se afastaram da mesa; olhos no Presidente.

Terminado o banquete e cumprido todo o ritual laudatório, o homenageado se despediu e a caravana oficial prosseguiu na sua viagem.

Mal saídos, porém, dobrada a primeira curva da estrada, os promotores da festa correram para o sanitário, liderados pelo prefeito que, o mais exultante de todo o grupo, repetia satisfeito:

– “Não foi usada… Não foi usada…”

A alegria, infelizmente, durou pouco. No fundo do vaso, exuberante, aparecia o atestado do “desvirginamento” da “Inodora”. Fora usada sim!… Fora usada sim!…

E logo se soube que seu violador não fora senão um bancário da cidade que, por incontinência intestinal, usurpara o direito reservado exclusivamente ao Presidente do Brasil.

E, para encerrar a festa do município, mesmo contrariado, o prefeito teve que pagar os três contos da “Inodora” e ficar com ela para uso da Prefeitura.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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