LAURENTINO GOMES – Estilo e Integridade

“Le style c’est l’homme même”

George-Louis Leclerc de Buffon

Em 1753, Buffon era entronizado na Academia Francesa, pronunciando seu famoso discurso de admissão, intitulado “Discours sur le Style”.

Em 2010, Laurentino Gomes fez belo pronunciamento de ingresso na Academia Paranaense de Letras, no que foi saudado, em nome dos acadêmicos, pelo presente autor.

É bom, no caso do Laurentino, falar de seu estilo, que, no correr dos anos, foi se aperfeiçoando, se purificando, originário em sua necessidade de se comunicar, de ser entendido por todos, que é o mister de jornalista, que sabe, encara como dever íntimo, a sua vocação de estar presente na história.

Por este simples motivo originário, os livros de Laurentino Gomes têm o corte da naturalidade, como se estivesse falando com o interlocutor, com todo e qualquer interlocutor, com os rudimentares, com os sofisticados.

Como esse interesse foi despertado em direção à história do Brasil, de seus momentos de grande intensidade, não é difícil de antever a inicial curiosidade derivada da insatisfação com os trabalhos apresentados por historiadores de alto gabarito, menos os que sublinha como essenciais, como Oliveira Lima, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Joaquim Nabuco, Wilson Martins, acrescento Oliveira Vianna e muito poucos.

Ele queria mesmo tornar a coisa fácil, direta, absorvida por um estilo absolutamente claro, de origem pois jornalística, combinada com a sua adquirida visão da história, da qual não conseguirá jamais se separar. Assim, com essa ressalva, poderemos fazer gentileza aos inconformados historiadores de plantão, dos quais esperávamos, desafortunadamente, a sua decantada futura contribuição escolar, que, quando vem, nos fará adormecer no segundo ou no terceiro parágrafo, como de hábito.

Daí o estilo. “Timing”…O homem é o estilo, o estilo é o homem. “O estilo resulta de uma sensibilidade especial em frente da linguagem. Isto não se adquire, isto se desenvolve”, dizia Paul Valéry. E daí o charme de Laurentino, em que foi cooptado pela desenvoltura de seu pensamento, de seu instinto criativo, tudo em relação ao objetivo de ser facilmente exprimido por todo e qualquer leitor.

Não custa lembrar o que Wilson Martins disse em seu diagnóstico: “Toda boa obra de história é, necessariamente, uma boa obra de jornalismo investigativo (e vice versa), qualidades ambas que se encontram no livro de Laurentino Gomes”. Wilson Martins falava de “1808”, citando assim: “O desventurado D. João VI continua sendo vítima de visões negativas criadas pelos interesses políticos e ideológicos. Entretanto, observa Laurentino Gomes, que “graças a D. João VI o Brasil se manteve como um país de dimensões continentais, o maior herdeiro da língua e da cultura portuguesa”.

Desta construção, o trabalho da conquista e manutenção do Brasil, em sua aspiração continental, veio a ser completado com naturalidade e visão do mundo, quase um século depois, pelo Visconde do Rio Branco e pelo Barão do Rio Branco (“Silva Paranhos”), a ser lembrado na terceira obra de Laurentino Gomes, “1889”, que veio agora a ser agraciada com o Premio Jabuti, que o autor recebe pela sexta vez, com grandeza, louvor, de um lado, de outro a admiração e a solidariedade da Academia Paranaense de Letras.

Como consequência:

“Dans le style le plus simple, que la phrase soit vierge, on veut une neige fraiche où personne n’a encore marché” – (Jacques Chardonne, “L’Amour, c’est beaucoup plus que l’amour”).

Acadêmico Eduardo Rocha Virmond

Publicado em Artigos