LAURENTINO GOMES, O PEREGRINO

Laurentino Gomes é membro da nossa Academia Paranaense de Letras e hoje é autor nacional, consagrado pela publicação de uma trilogia sobre nosso Império e a Proclamação da República: 1808, 1822 e 1889. Por sua obra ganhou o tradicional  Prêmio Jabuti, da Academia Brasileira de Livros e o de Maior Ensaio de reportagem, pela Academia Brasileira de Letras, sobre o tema da transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. 

No ano de 2013, porém, colhido todo esse sucesso literário, ao invés de deitar sobre os louros e seguir na sua cauda, para um novo empreendimento editorial, Laurentino optou por conter seus passos e reservar um tempo vago para um momento íntimo de espera e de recolhimento: fazer um mergulho interior em busca de orientação e de paz espiritual. E foi o que fez, atendendo a lição do Eclesiastes (3,1-7). Então foi a Roma, para a canonização dos Papas João XXIII e João Paulo II. Fez os 800 quilômetros do caminho de Compostela e, por fim, em 2014 foi a Jerusalém, com um grupo de peregrinos, liderados pelo orientador espiritual Omar Ludovico (que é co-autor do seu último livro “O Caminho do Peregrino”), num programa de viagem, que incluiu  visitas turísticas e programas de meditação e oração.

Como filho mais velho de lar cristão, Laurentino fora destinado pela família ao sacerdócio, e, na adolescência, foi seminarista da Pia Sociedade de São Paulo. Com o tempo, porém, descobriu que não tinha vocação para a vida clerical e acabou por se desviar para o jornalismo. Mas, mesmo com os novos afazeres de sua profissão, Laurentino nunca deixou de sentir despertar dentro si, muitas das memórias e dos hábitos da vida religiosa que praticou na infância e na família, cujas orações repetia em horas de reflexão e dificuldade.

Fez também meditação oriental.

Certa vez, ainda, se viu tomado de pranto convulso, dentro da Igreja, durante uma homilia sobre Cristo e o Evangelho de João. E começou então um trabalho de reconversão espiritual e preparação para uma jornada de peregrino, dedicando-se à leitura assídua dos melhores pensadores laicos do cristianismo e dos textos dos Evangelhos de João, das cartas de Paulo;  epístolas de Paulo, Tiago e Pedro; do Livro dos Salmos, e outras tantas leituras de escolha dos livros bíblicos, num ritual diário com sua mulher, de retomada e fortalecimento da fé cristã.

Por outro lado, entretanto,, esses cuidados correspondiam também à necessidade de se prevenir do chamado síndrome de Jerusalém, o surto  de delírios e comportamento obsessivo de que são vítimas, muitas vezes, os que visitam Jerusalém pela primeira vez. O transtorno psiquiátrico é de caráter religioso e foi identificado em 1930 pelo psiquiatra Heinz Herman e se acha catalogado na Organização Mundial da Saúde. Hoje os hospitais e serviços locais  de turismo mantém pessoal treinado para acudir a situações dessa natureza.

Quanto aos textos, embora distintos os autores e seus  capítulos, parecem oriundos de uma mesma pena, tal a semelhança que imprimem no tom e qualidade de suas dissertações. É como se a obra fosse de um só autor.

São temas encimados por 15 epígrafes, tiradas das páginas dos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João, como as passagens da Anunciação e do nascimento de Cristo;  dos cegos e coxos da piscina de Betsaida; os rios de água viva da festa dos Tabernáculos; a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém   pelo monte das Oliveiras; a parábola do bom samaritano e os milagres do coxo da piscina probática, da tempestade que Cristo acalmou ou da cura do surdo e gago em Decápolis.

Tudo em seqüência e tratado em linguagem amena e “clean”, mas extraindo das passagens bíblicas todo o sentido de sua transcendência cristã, como raramente se vê ou fazem  os propagadores da fé.

Não é um livro de turista, mas de peregrino. O turista olha para fora, – dizem os mais sábios. O peregrino volta-se para dentro de si enquanto caminha. Ele vai se vendo.

Mas, mais que tudo, porém, ele é um livro ainda mais bonito como obra de conversão pessoal, de procura espiritual, de confirmação e reconciliação consigo próprio. E isso sua leitura diz o que fez e, ainda mais, vai poder transmitir a todos que o leem.

 

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

 

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