Mandela

“Não sejas vencido pelo mal: mas vence com o bem o mal”
(Paulo, Epístola aos Romanos, XII, 21).

por Eduardo Rocha Virmond

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Não tem adjetivos. Esse ser humano, sua imagem, sua santidade, não há como classificá-lo. Qualquer classificação é uma redução. Não podemos reduzi-lo.

Temos desconfiança sobre o homem. É um ser abjeto? O Homem destrói seus semelhantes, seus irmãos? Aplica-lhes atos e violências da maior crueldade? É verdade que, entre os seres vivos, o homem é o maior inimigo do homem? Entre os animais há exemplos de igual adversidade?

“Eppur si muove”, disse Galileu Galilei, após ser constrangido mediante as maiores violências a rejeitar a sua descoberta de que a Terra gira em torno do Sol, portanto a terra que anda, que gira caminhando e não os astros e galáxias que estão em torno da terra. A terra é redonda e não uma imensa planície com protuberâncias.

Se o homem é capaz de tudo contra si mesmo, há os homens que transcendem qualquer vestígio de crueldade, e conferem exemplos de perdão, de compreensão, de amor pelo próximo. Dizia Georges Sand: “Comprendre c’est pardonner“ – Compreender é perdoar.

Cristo perdoou, Buda perdoou, Sócrates perdoou, São Francisco de Assis perdoou. Mandela perdoou.

Albert Schweitzer salientava que a separação entre o Budismo e o Cristianismo atingia muitos pontos importantes em relação à conduta, à mortificação, ao dia a dia do homem, mas que há uma qualidade, um sentimento que vai às profundezas do ser, da alma, que liga Buda a Jesus, que é a compaixão. A compaixão é mais forte que a  perfeição anterior, porque se revela na ação. Porém, diz Schweitzer, a ética da perfeição interior está regida pelo princípio do amor. ”Leva portanto em si a tendência a expressar-se em ação, e desde este ponto de vista apresenta superior afinidade com a afirmação do mundo e da vida. Em Jesus, a ética do aperfeiçoamento interior ordena o amor ativo”.

Mandela é um santo que exerceu, por estar repleto dele, o sentimento de alegre bondade em relação ao mundo inteiro, senão não teria sobrevivido. Por que, ao sair de um suplício que durou vinte e sete anos, pregou a liberdade, a bondade, o respeito por seus semelhantes, e conseguiu de seus verdugos que baixassem a cabeça no sentimento de conciliação, de verdade, exemplificando o amor pela humanidade, que aqueles nunca conseguiram obter?

Estas reflexões, em nome dos membros da Academia Paranaense de Letras, escrita em designação de sua Presidente Chloris Casagrande Justen, querem demonstrar o sentimento de solidariedade, de compreensão, a vontade de expressar o amor que exemplifica tudo o que rege Mandela, cuja vida concreta não é só exemplo imaginário, mas a da compaixão que deveremos exercer dia a dia, como budistas, como cristãos, como agnósticos em relação à humanidade. Se não o temos, se não o tivermos, o exercício futuro da vida de cada um só merece que os cultivemos, o amor, a compaixão, a consciência da liberdade, tudo ao contrário da frieza, da indiferença, da brutalidade, da negação da solidariedade.

Há uma linha, de Jesus Cristo, Buda, Sócrates, Francisco de Assis – Mandela. Quem se aproximar desta linha, não se arrependerá, será glorificado por si mesmo, por si próprio, sem qualquer objetivo de ser reconhecido. Gloria in excelsis Deo et in terra pax hominibus bonae voluntatis.

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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