MANOEL RIBAS – DESVELANDO COM DESVELO

Manoel Ribas ocupou longo período da história recente do Paraná: foi interventor no governo provisório da revolução de 30 (1932); governador eleito indiretamente em 1934 e voltou a ocupar a interventoria no chamado Estado Novo. Foram 15 anos de regime de exceção. Caiu com Getúlio Vargas em 1945. Deixou legenda duradoura, mas passados quase 70 anos, é a primeira obra que vejo que se propõe a trazê-lo à público. Sua neta conservou os guardados e seu marido, o empresário, professor e político Fernando Fontana se dispôs a elaborar a biografia e a obra do seu governo.

Não é uma biografia histórica. É um relato de seu legado de administrador, com flagrantes do seu gênio brusco e suas reações imprevistas, que o povo simplificou a seu modo, com a alcunha de Maneco Facão, pelo número de demissões que teria expedido ao assumir o governo. Ribas era descendente de tropeiros dos Campos Gerais e conservou muito de seus hábitos campeiros. É de remotas raízes paranaenses. Seu gosto era tirar tempo e descanso assistindo a “marcação” da boiada ou comer um bom churrasco na roda de amigos, na velha fazenda de Monte Alegre, que freqüentava nos seus aniversários, desaparecido da capital. Seus interesses principais eram os da agricultura e da pecuária.

Em 1940 fundou o Instituto de Biologia e Pesquisa Tecnológica, hoje Tecpar (sua menina dos olhos), que foi centro de pesquisa aplicada no saneamento e fomento agropecuário do Estado.  Graças à sua contribuição promoveu o combate à broca do café (com a vespa de Uganda), a peste suína e outras mais. Fundado em 1876 como Muzeo de Coritiba, só servia para expor amostras dos nossos produtos em feiras ou ocasiões políticas. Foi a presença do medico e arqueólogo José Loureiro Fernandes, levado por Manoel Ribas em 1936, que fez com que o Museu passasse a produzir pesquisa científica de qualidade e a editar, por duas décadas, os Arquivos do Museu Paranaense, cuja publicação vai surpreender as comunidades científicas nacionais, por compartilhar com suas congêneres os temas do mais alto interesse científico. Nesse tempo o Museu ainda promoveu sessenta expedições científicas sobre a fauna e a flora paranaense, in situ. O projeto original era dotar o Museu de prédio próprio, em terreno hoje ocupado pelo Teatro Guaira, para que se tornasse um dos maiores museus de história natural da América do Sul.

Foram esses tempos promissores que produziram homens do porte científico do padre Jesus Moure, autoridade internacional em apifauna, o paleontólogo Waldemar Lange Fernandes que produziu trabalhos que o projetaram no cenário científico. E tem também o incansável geólogo alemão Reinhard Maack, autor da obra prima da Geografia Física do Paraná, além de tantas outras revelações de natureza científica. Foi preso como nazista, mas redimido com a concessão do título da cidadania brasileira. O período ainda revelou Loureiro Fernandes, Marcos Enrietti, Metri Bacila, João José Bigarela.

Infelizmente a escassez dos estudos sobre Manoel Ribas suprimem parte dos debates que alimentariam seu juízo e o caldo de refino a tirarmos do seu governo, vivido em um longo quadro político e econômico de exceção, inserto em uma quadra econômica de perfil periférico, que enfrentava um mercado platino reduzido à madeira e o café, que só em 1949 passou a registrar algum surto da ascensão de preços.

Ora, o projeto do território do Iguaçu, de revisão geopolítica, já estava incorporado na proposta revolucionária de 1930, por conta da segurança nacional e do projeto da “Marcha para Oeste”. Não foi surpresa considerando que, como nenhum outro, o Paraná sofreu consumações e tentativas iguais de retaliação do seu território. Perdemos 27.510 km2 com o acordo do Contestado. A Argentina reclamou a área de mais de 30 mil km2, entre os rios Chapecó e o Jangada, que o Brasil cedeu pelo Tratado de Montevideu (1890), entregando a região das Missões. A Câmara dos Deputados, porém, não ratificou o tratado e o presidente americano e árbitro Grover Cleveland acabou dando sentença a nosso favor. Já houve movimento no norte do Paraná tentando desligar a região norte do Estado para formar o Estado do Paranapanema.

Agora, o Território do Iguaçu nos subtraia mais 51.452 km2. O Paraná ficava reduzido a que território como propriamente seu? Embora medida de impacto e  de  grandes proporções, o confisco não provocou reação popular nem manifestações, como em episódios anteriores. Luiz Carlos Tourinho atribuiu ao efeito anestesiante da ditadura de Vargas. Mas, mesmo assim, espoucaram algumas manifestações representativas. O Secretario da Fazenda, João de Oliveira Franco pediu demissão e o Procurador-Geral, Brasil Pinheiro Machado manifestou seu protesto nativo. Ermelinho de Leão ofereceu parecer dos valiosos argumentos, de todas as frentes. Bento Munhoz da Rocha fez vibrante discurso na Faculdade, Ciências Letras alegando que a alma do Paraná estava sangrando. Ribas, pelo contrário enviou a Getúlio um jubiloso telegrama de congratulações, e sustentou em entrevista seu apoio ao que considera uma amputação insignificante. Em igual tom de manifestaram seus secretários Angelo Lopes e Fernando Flores.

Com a redemocratização do país, Bento Munhoz se candidatou a deputado e fez da reintegração do território do Iguaçu sua principal bandeira. Em 10 de junho de 1946 apresentou emenda constitucional, propondo a extinção do território do Iguaçu, com 119 assinaturas de constituintes. Foi voz permanente na tribuna, mas trabalhou quase sozinho. De nossa bancada de 12 representantes, só quatro deles ocuparam a tribuna em favor da emenda. Dos dez catarinenses só dois subscreveram a emenda e nenhum deles de Ponta-Porá, que posteriormente integrava a emenda extintiva. O senador Nereu Ramos, líder da Assembleia Constitinte e ex-interventor de Santa Catarina, não assinou a emenda nem assumiu pessoalmente sua defesa. Bento travou longos debates e participou de inúmeros confrontos nacionais promovidos pelo diário carioca “O Jornal”, com deputados, oficiais do Estado Maior e estudiosos da política territorial brasileira.

O argumento da segurança nacional que parecia o mais frágil, Juarez Távora e o coronel Almirando Nunes Pereira o reduziam a uma razão menor, qualificando de “transcendente”, diante do fim da guerra e a deposição de Vargas. Ocorre, entretanto, que, o que é bom de ver, é que, durante a ocupação do território o   governo não promoveu nenhuma medida de defesa e desenvolvimento da região.  Toda linha estratégica de defesa estava dirigida ao sul. O comando militar do Sul era sediado em Curitiba, onde foram construídos quarteis especialmente fortificados e com seteiras, como o 3º RAM na praça Osvaldo Cruz. O 15 BC, da Praça Ruy Barbosa ou o de Ponta Grossa, todos oferecendo resistência a um evetual avanço do sul. A estratégia obedecia ao programa do expendable: sacrificar a parte mais fraca do território para defendê-lo melhor e mais à frente.

Finalmente, o território do Iguaçu e Ponta Porã foram extintos pelo art. 8º, da Disposições Transitórias da Constituição de 1946.O Paraná voltava a se reintegrar. E era o dia da padroeira de Curitiba.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto