Mestre Sublime

Após haver lançado dois livros biográficos, em 2005, sobre o ex-deputado estadual Mário Faraco (A Radiografia da Ética) e do ex-senador Arthur Ferreira dos Santos (O Tribuno da Liberdade), Túlio Vargas anuncia agora a biografia do professor, político, jurista e literato Laertes de Macedo Munhoz, considerado por muitos o maior orador da sua geração.

Trata-se de estudo minucioso sobre a vida agitada do grande tribuno,que inundou o seu tempo com os múltiplos talentos da sua formação humanística. Professor catedrático da Universidade Federal do Paraná, ex-deputado estadual, jurista de incontestes merecimentos e intelectual de nomeada, Laertes Munhoz incursionou por todas essas vertentes do pensamento com repassado brilho.

De todos esses atributos, talvez o maior tenha sido a oratória. Exercia um total domínio da tribuna e dos temas abordados, com percuciência e vibração, cujos arrebatamentos fascinavam as multidões. Tornaram-se célebres seus pronunciamentos nas campanhas políticas da época, notadamente na oposição. No tribunal do júri, tanto na acusação quanto na defesa, não foi menos notável.

Integrante dos quadros da União Democrática Nacional, sua atuação tribunícia em favor da candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes calou fundo na consciência do povo. Nem a derrota do seu candidato ofuscou-lhe a relevância da participação ativa e coerente. Herdou as virtudes do pai, Alcides Munhoz, que se destacou na política paranaense durante o governo de Caetano Munhoz da Rocha, dando continuidade a uma tradição de dignidade e responsabilidade no exercício de cargos públicos.

Formou com Bento Munhoz da Rocha Netto e Arthur Ferreira dos Santos uma tríade admirável, que ainda não encontrou paralelos na história do estado. Cada um deles valia por um continente. Estiveram juntos, quase sempre, nos prélios sucessórios e nos movimentos de redemocratização do país. Havia um nexo ligando seus destinos estelares. Essa foi a obra benemérita que legaram à posteridade.

Faltava o perfil biográfico de Laertes, cujo talento fulgurante enriqueceu seu tempo com a largueza do gênio criativo e erudito.

Seria uma injustiça, perante a história, olvidá-lo, tais os seus exemplos cívicos, lições de sabedoria, anseios de liberdade, ímpetos de cidadania, rasgos de humanismo, cujas expressões individuais multiplicavam valores e virtudes peregrinas.

Inigualável na cátedra universitária, nos tribunais e na arena política, manteve constante a coerência de princípios, o mesmo ardor oratório, o mesmo magnetismo pessoal, que não se alteravam no altiplano do poder, nem no amargo ostracismo da planície.

Guardava uma espécie de aristocracia intelectual, que lhe conferia uma aparente superioridade, sem nenhuma soberba ou arrogância. Mas na intimidade expunha as suas fragilidades e defeitos humanos.

Cauteloso e discreto, media as palavras e controlava as emoções com a diplomacia de uma refinada educação. Sorriso irônico e mordaz, às vezes irreverente, voz quase rouquenha, sabia esgrimir com elegância no embate das inteligências. Improvisador por excelência, poucos se atreviam a enfrenta-lo na tribuna, na qual reinava absoluto como um novo Zacarias de Góes e Vasconcellos ou um revolucionário João Neves da Fontoura.

Olhar penetrante, aguda visão do mundo, era a própria ciência do direito em permanente cintilação. Trazia do berço essa predestinação atávica de servir à causa pública e de imolar-se aos sentimentos republicanos, seiva de uma vocação sem contraste.

Fez da ação e da palavra a espada da melhor pugna, consoante a definição de Manoel de Oliveira Franco Sobrinho, ao saúda-lo na Academia Paranaense de Letras.

Viveu entre os livros, os pretórios, os bancos universitários e as assembléias do povo. Nesse habitat construiu a sua biografia sob as luzes das conspirações do pensamento.

Faleceu em 21 de dezembro de 1967.

Túlio Vargas, cadeira nº23

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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