MINHA LIÇÃO DO AMOR

Há muito tempo atrás fui professor de uma escola de moçoilas adolescente. Repetia lições de história da educação. Porém, de vez em quando, no correr da aula, uma ovelha desgarrada subitamente interrompia nossa preleção com um pedido travesso, igual a um destes:

-. Professor, dá  p’ro senhor falar do amor. Ele existe?….

Era uma animação geral. A classe toda ganhava vida…

-Fale do amor professor! Estribilhavam as mocinhas, com apoio geral.

Como era o amor no seu tempo? Existia? Conta como era! Conta p’ra nós, professor, repetia o coro em festa.

. Ora, fosse como fosse, certa vez até cedi a esse desafio, próprio da idade delas e de suas exuberâncias sentimentais. Não renunciava, porém, a postura do professor e do improvisado pedagogo.

A princípio, saia eu a exaltar o amor como sentimento universal; de aproximação e convivência humana. Um encontro e confraternização de todos com a vida e com o universo inteiro. Pois está aí plantada a árvore da vida e a seiva do amor. Ao contrário do amor egoísta, que é pessoal e exclusivo, cultivado à roda comum, para desfrute da vaidade e do prazer pessoal. Dizia então que esse não era o verdadeiro amor, pois individualizava o homem e o distanciava dos seus semelhantes.

Depois disso, porém, malgré moi, passava a dizer o que elas realmente queriam ouvir em vez das minhas lições: a história do amor romântico. Eu então começava trazendo à lembrança aquela forma de amor dos antigos trovadores medievais da Provença e das cortes de Toulouse ou Champagne, na França, onde ele era celebrado com um ritual fidalgo em que a mulher representava a imagem idealizada de princesa ou de um anjo de beleza e virtude.

 

Com o tempo, porém, esse ritual elegante e fidalgo, ia dar lugar a outra forma mais intensa de amor, que passa a ser marcado pela posse e a exclusão.  Foi o momento mais ardente do amor. Era o amor maldição, feito de dor e regozijo. Seus intérpretes já não são o poeta trovador nem a dama da torre do castelo.  Era feito de paixão e rebeldia. O Werther de Goette apóstolo do suicídio de uma geração de jovens amantes.

Outros tempos vão marcar o último quartel do século XIX e a primeira guerra mundial. As mudanças das estruturas sociais vão favorecer a emergência da mulher culta e devota da leitura. E sua presença passa a estimular a indústria cultural e a formação da “biblioteca das moças”.

Eram manuais de civilidade e etiqueta, em que a figura feminina surgia como modelo de virtude. Elas deviam ser dóceis, castas, discretas e sofredoras. São mulheres que se ruborizavam, estremeciam e balbuciavam, mas tinham alma ardente e formada das virtudes cristãs.

Havia um modelo comum e representativo, o da mulher frágil e pobre que, após tantas provações da vida, ia encontrar sua felicidade e seu conforto nos braços fortes de um homem bom e rico.

Tudo isso, portanto, deu causa ao surgimento de uma rica corrente de escritores e leitores de livros femininos dedicados à educação e exaltação da jeune fille urbana, reproduzindo os costumes e os requintes da sociedade aristocrática francesa.

A líder desta corrente foi a M. Delly, pseudônimo adotado pelos irmãos Frederic Henri e Jeanne Marie de la Rosiére, publicando mais de uma centena de livros românticos, vazantes de amor e de exaltação da mulher. Além dos dois irmãos, outras mulheres também participaram das edições, como a primeira delas Louise Albott, Jeanne Henriette e tantas mais. A coleção rósea chegou com sucesso ao Brasil por volta de 1925, publicada pela Editora Nacional de Monteiro Lobato que teve edição de livros com um milhão e quatrocentos mil exemplares

Cheguei a exibir em classe uma das obras de M. Delly e a encantar minhas jovens alunas com a “modelo mulher” que norteava a conduta de suas avós, com essa visão romântica da vida e do mundo. E, para se ter idéia de sua pudicícia, vale citar a frase que então se repassava sobre a mulher de então, “o gesto mais ousado era o beijo na testa, ou, nos momentos de sentimento mais intenso, nas sobrancelhas”.

Resta dizer, no entanto, que esse modelo de amor nem sempre passou sem resistência. Chegou até a fazer inimigos, que não foram poucos. O escritor português Oliveira Martins seguiu Platão na recusa aos poetas e condenou a influência do romance sentimental no espírito feminino. Camilo Castelo Branco acusou essa literatura de reduzir as mulheres a criaturas superficiais e indolentes. Repudiava os rostos macilentos e as formas delgadas, defendendo o modelo da mulher viçosa e de corpo roliço. Para Eça de Queiroz a novela romântica era também potencialmente perigosa e servia apenas como fator de alienação e desvio moral da mulher.

Na verdade, a fase mais grave já passou, hoje enfrentamos modelos dominantes que tornam até mais difícil definir os limites da independência e da liberdade da mulher e seu parceiro masculino. Desde 30 a ideologia republicana mantém a igualdade teórica dos sexos e os livros são condicionados à preservação dos interesses da política social e de costumes. A literatura sentimental já perdeu a maior parte das suas leitoras e o próprio interesse dos editores, porém, continua fazendo seu caminho, como forma de divertimento ou de evasão, guardando assim o que ainda resta das diferenças que existem entre nós.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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