O 1808 de Laurentino Gomes

Laurentino Gomes mostrou logo a que veio: se formou em jornalismo e, dizem que, numa de suas primeiras iniciativas foi pedir emprego no  maior jornal da Cidade, direto com o Cunha Pereira, presidente da Gazeta do Povo.  O pedido não foi atendido, mas, curiosamente, o destino reunia, naquele momento, aquele que, anos depois, viria a ser o sucessor do empresário jornalista na cadeira número 18, de Academia Paranaense de letras.

Além dessa singular premunição, o autor revela ainda outro traço forte do seu destino: sua firme determinação pessoal. E é ele quem diz que, à época, depois de sua especialização no estrangeiro e experiência em diversas publicações, agora na condição de diretor executivo da Veja, a revista se dispôs a promover uma edição especial, comemorativa do centenário da República, a qual  incluía,  a fuga da família real para o Brasil. Saiu então a primeira delas, a do Descobrimento da terra, mas a seguinte, da família real,  foi cancelada, por falta de “gancho”.

Ocorre, porém, que o tema despertou a paixão e aguçou o tino do jornalista, que, por esforço pessoal decidiu assumi-lo sozinho e passou a desenvolvê-lo, mantendo o mesmo padrão jornalístico, visando alcançar maior difusão.

Foi um trabalho de mais de  10 anos em que  passou por 150 livros e publicações, muitas das quais de difícil acesso. Dispôs de bibliotecas internacionais e, inclusive,  da particular de José Mindlin, a maior do Brasil, que guarda 38.000 títulos e artigos raros. Teve acesso a fontes impressas e eletrônicas de pesquisa, que até então ninguém podia dispor. Reviu os diários de bordo da esquadra inglesa.

Com o trato de todo esse manancial a edição  foi um sucesso de venda, como  não se vê por aqui. Foi “Best seller” nas livrarias e bancas de revista e se projetou internacionalmente. Foi galardoado com o prêmio Jaboti, o mais prestigiado do Brasil. Ganhou o título do Melhor Ensaio de 2.008, pela Academia Brasileira de Letras.  E ainda foi considerado o Livro do Ano, e, mais que isso, ganhou ampla leitura  do povo, onde é sempre mais difícil chegar.

Um livro reportagem que refaz um dos episódios mais surpreendentes e de maiores consequências da nossa história. Texto de trato jornalístico, honesto, despojado e fluente, onde não vi expressão coloquial ou o uso de gíria, como alguém já apontou  Há poucas expressões populares, como de que Napoleão “pôs de Joelhos reis e rainhas”; ou que ele quis “pôr a casa em ordem”; ainda, disse dar um “salto quântico” ou, o que ele fez nem o “Super Homem seria capaz” de fazer.  Para Peter Gay a História perde  seu público, porque perdeu seu domínio literário. Muitas obras históricas não revelam sequer um vago conhecimento da arte de escrever. Porém, este livro demonstra, principalmente, o quanto nossa linguagem pode contribuir para conquistar o gosto de um imenso público, geralmente à margem da literatura e da história.

E, conhecido o segredo, daí para  frente  Laurentino  pôs-se, com a mesma desenvoltura e igual sucesso, a produzir seus dois outros livros: o 1822 e o 1889.

Voltando ao tema, o substantivo correspondente é fuga mesmo, com todas as suas características e desabonos. Não pela ausência de  precedente histórico. A surpresa provém de sua condição de monarquia absolutista, com direito consolidado em doutrina clássica e canônica (pelo menos na Casa de Bragança), e assim  provida de poder de governo absoluto e perpétuo títulos, concedido por Deus, e que, portanto, não podia sofrer afronta. Pois, com todos esse atributos, o monarca e sua “entourage” se largou oceano adentro, levando seu trono e toda a corte, sob a guarda inglesa, à notícia da presença do invasor. A citação do logro de Napoleão também tem explicação. O  general estrategista estava afeito a tantas batalhas ferozes e seus imprevistos, que provavelmente deixou de imaginar a fuga inédita de um adversário que, além do seu exército tradicional era filho dileto de Deus e  provido de seus poderes.

Independente disso, porém, o episódio histórico do abandono da metrópole e da vinda da coroa e da corte, resultou na conversão da colônia em metrópole, e, a rigor político, desta naquela. É o que se deduz do princípio geopolítico: ubi rex ibi regnum. E não foi só isso que se atribui à epopeia portuguesa. Maiores resultados ainda colheu a colônia convertida em centro do país e do seu governo: consolidou-se nela o sentimento da nacionalidade, que, entre outros, foi responsável por nossa integridade territorial. E o livro traz sobre isso completo inventário dos seus benefícios.

Outro aspecto que concerne à personalidade de D. João VI, a quem muitos exaltam as virtudes e vêm a prática da arte da dissimulação e da astúcia, que chegou a ludibriar Napoleão. Na verdade, porém, essa visão contraria o retrato ou a caricatura que os livros guardam dele, como um rei pasmado, poltrão e muito mal dotado para conduzir uma nação. Ora, além disso, e sobretudo, não somos só nós que fazemos a história: sua porção  maior é obra do tempo e suas  circunstâncias, diversamente do que façamos. Há exemplos de maus governantes e maus homens consagrados pela história, e o contrário igualmene. E esse argumento lembra um filme recente: “Forest Gump”, um contador de histórias com atraso mental, mas que só colheu sucessos e riquezas com seus erros e descalabros. Quem advinha então o desfecho de todas as histórias? De arremate, vale invocar Robert Lopez, para quem:  “History is an ever-changing continuum”. A bem de ver, a impressão que se guarda dele é que se deixou conduzir. Foi assim na página de história que lhe corresponde e conhecemos.

Seguramente, Laurentino Gomes é hoje um nome consagrado nacionalmente. Resultado de sua inteligência, do esforço e, principalmente, do seu talento de jornalista e escritor. Seu nome engalana a Academia Paranaense de Letras, onde desponta como um dos representantes mais expressivos de uma nova geração. . E veio modesta e espontaneamente, diferente de muitos outros que se furtam a representar a cultura paranaense, através de sua Casa de Letras.

Rui Cavallin Pinto

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