O Anticlericalismo e o Círculo Bandeirantes

Em setembro último o Circulo de Estudos Bandeirantes fez 82 anos de fundação, através de solenidade discreta, mas que serviu de pretexto para o lançamento da obra Círculo de Estudos Bandeirantes – Documentado, de Sebastião Ferrarini, seu diretor e pesquisador, – para todos a alma mater. da casa, pelo tempo de fé e devoção que tem dedicado ao seu destino e objetivos. Um amplo inventário documental (omnium documentorum inventarii), recompondo a vida, organização e atividades de uma instituição de que poucos ainda têm memória do seu importante papel na vida religiosa e cultural da cidade a seu tempo.

O CEB é hoje representado por um prédio de três andares, de com sacada ampla nos pavimentos superiores, de estilo eclético, frente ornada de colunas e arcos romanos, situado no nº 1050, da Rua XV de novembro, contendo amplos espaços desde a entrada, um belo auditório de 161 lugares (salão nobre Euro Brandão) e uma rica biblioteca, que compõe um dos patrimônios bibliográficos mais valiosos da capital e ainda inclui mais de 500 obras raras, sob sua custodia.

A história documental do Círculo e sua origem nos remetem, porém, a um passado ainda recente, do início do século XX, ocasião em que a pacata Curitiba dos anos 1890 até cerca de 1940, se tornou cenário de vigoroso debate público, de cunho ideológico-religioso, marcado, sobretudo, por seu forte impacto anticlericalista, que ressoou e vai repercutir em todo país.

Com a proclamação da República e a promulgação da Constituição de 1891, o Estado decretou a separação da Igreja do Estado e o fim do padroado. Instituiu o culto livre de todas as crenças. Converteu a educação numa atividade laica e o governo passou a assumir as funções oficiais dos registros civis e secularizou os cemitérios. Então, por se ver desligada do Estado e desprovida do recebimento dos dízimos e do pagamento do clero pelo governo, a Igreja passou a reordenar suas unidades religiosas, a se valer de Roma e da autoridade do papado, bem como a reforçar seus laços internos. Cobrou severa obediência à hierarquia eclesiástica. Criou a diocese de Curitiba (1892) e depois as de Ponta Grossa e Jacarezinho. Ampliou sua participação no ensino privado, em todos os seus graus, chegando a assumir o controle de 70% de toda a atividade docente. Assim, diante do Estado leigo e da necessidade de refazer os recursos perdidos; passou a atuar na evangelização das camadas populares e a fazer frente ao predomínio das idéias liberais em avanço, através da adoção das 80 proposições ultramontanas de combate à modernidade e seus excessos, contidas no Syllabus, da Encíclica Quanta Cura, do Papa Pio IX, e assim poder cumprir sua ação missionária, pedagógica e de reconfiguração da Igreja do Brasil.

Sob o estímulo das propostas libertárias da revolução francesa e do iluminismo, o século XIX foi campo aberto para toda sorte de propostas de organização da vida social e política, e independência do espírito. E o anticlericalismo foi um dos seus alvos prediletos.

Há quem diga, porém, que a clerofobia dos nossos primeiros livre-pensadores veio pelo caminho da França, trazido pela figura exótica de João Itiberê da Cunha, aluno paranaense do colégio Saint Michel, de Bruxelas, que quando voltou de lá passou a ser Jean Itiberé, (1893) poeta belga, que deslumbrou Curitiba com sua e elegância e os mistérios dos seus versos simbolistas de inspiração baudelairana. Diz-se dele, também, que foi um dos íncubos do jovem Dario Velozzo, pelo menos de amostra.

Dario veio do bairro Retiro Saudoso, do Rio de Janeiro, com a família, aos 16 anos (1885), e como tipógrafo iniciou-se no Dezenove de Dezembro, o mais antigo jornal do Paraná. Seu pai Cyro Velozzo chegou a prefeito eleito de Curitiba, mas desencantou-se da carreira (1895-1896), enquanto que o filho foi amanuense da Polícia e praticante da Tesouraria da Fazenda do Estado, até 1893. Entretanto ainda jovem revelou sua propensão para as letras, e surge como contista dos “Primeiros Ensaios” (1889) e “Esquifes” (1896), e, dali em diante esses dotes vão esplender no talento de doutrinador de uma nova ideologia religiosa, bem como vão apurar suas qualidades de orador e polemista vigoroso, que o tornaram o líder do movimento anticlericalista, que tanta repercussão assumiu na vida da modesta cidade. Como catedrático de História e Sociologia do antigo Ginásio Paranaense e de disciplinas pedagógicas na Escola Normal, Dario se pôs a liderar a juventude escolar e com a sedução do seu carisma a agremiar, em seu torno, jovens talentos e intelectuais consagrados que se incorporaram numa campanha sistemática e inclemente contra o clero. A militância anticlerical incluía Emiliano Pernetta, João Pernetta,, Silveira Neto, José Niépce da Silva, Antonio Braga, Ismael Martins, Veríssimo Antonio de Souza e outros mais.

João Pernetta publicou em 1898 “Os chacais” repelindo a presença da Igreja na educação pública. Em 1897 editou “O Clero e a Monarquia” reeditando as mesmas invectivas. Roberto Faria, um talento que se finou cedo, lançou por igual, “Os abutres”, com o mesmo conteúdo de libelo contra a Igreja.

Além de sua atividade pessoal de difusão do novo credo, como professor e profeta, Dario se serviu também da imprensa e publicações locais, aparecendo com destaque como colaborador e depois redator literário da revista do Clube Curitibano (1881). Porém, em 1895, quando despontaram nele as primeiras manifestações de oposição á Igreja e passou a penetrar nos segredos esotéricos e do ocultismo, já não pode disfarçar seu espírito púgil de opositor implacável à presença da Igreja no ensino e na vida social. E, daí em diante fundou “O Cenáculo”, (1895-1897) com um quadro mais homogêneo de colaboradores, por meio do qual iniciou a reação liberal maçônica contra a ação da Igreja, mas que traz, também, uma nova visão de arte que levou à criação do Simbolismo, como escola literária paranaense. Depois, veio o órgão Jerusalém (1898-1902), talvez o de maior promoção, rebatendo o tema do ensino religioso, mas se estendendo para a vida conventual e o confessionário, vistos como instrumentos do fanatismo, superstição e ociosidade. A Esfinge apareceu em 1889, como publicação mensal maçônica, sob a direção de Dario Velozzo. Durou até 1913, prometendo divulgar as idéias que vogavam na Europa e conquistavam a América. Fez divulgação de textos doutrinários eruditos da maçonaria, mas de acesso só aos iniciados.Foi considerado então como o principal reduto do anticlericalismo. O Electra surge em 1901 e vai até 1903, como órgão da Liga Anticlerical Paranaense, que já, no editorial, assumia a condição de evangelho da luta anticlerical e o estandarte de uma guerra franca ao confessionário, com golpes implacáveis à entrega aos “jesuítas” da educação dos nossos jovens. O Electra foi um dos agentes promoventes do “meeting” que os anticlericais realizaram em março de 1902 no Passeio Público (de que participou o próprio Hugo Simas), e foi sob a direção de Dario, que “O Electra” tornou-se um dos órgãos anticlericais e de livre-pensamento mais combativos do início do século. O Ramo de Acácia veio depois, e durou de 1908 a 1912. Era periódico mensal da Maçonaria do Paraná, sob a direção de Dario Velozzo e tinha na redação Emiliano Pernetta, Sebastião Paraná e José Niepce da Silva. Tratava-se de um exemplar da linha maçônica e sua proposta era combater de modo radical o imperialismo e a clerezia avassaladora. Defendia a liberdade de pensamento, o casamento civil e a separação da Igreja do Estado. Abominava a vida conventual, pregava a exclusão de todo privilégio público às confrarias religiosas e creditava à educação o papel de elucidar os processos e meios pelos quais os jesuítas costumavam alcançar seus desígnios. Em 1911 surgiu “A Batina”, uma publicação gratuita, invocando o nome da mocidade e com editorial de José Guahyba. Só tirou quatro edições, reproduzindo os mesmos argumentos de que são os clérigos (jesuítas, ultramontanos, ou o que sejam…) os verdadeiros inimigos do progresso, adversários da razão, da verdade e da ciência, razão pelas quais era necessário combatê-los (muitos exemplares foram devolvidos pela população…). Dois outros periódicos ainda são editados mais à frente: “Myrto e Acácia” (1916-1921) e “Luz de Krótona” (1921-1930),ambos sob a direção de Dario, mas agora só se voltam para a causa do néoopitagorismo e incluem algumas publicações literárias de irmãos de credo. À “Luz de Krótona” procura divulgar o método pitagórico, sem confronto direto com a Igreja, contendo apenas. ensinamentos esotéricos, pitagóricos e teosófisicos.

Por muito tempo, portanto, o debate sobre o anticlericalismo e as pregações de Dario e dos membros de sua confraria alimentou a imprensa e a curiosidade da opinião pública. E, como era natural, desde o primeiro assédio à Igreja o clero assumiu sua parte na parlenga, tanto pela palavra do P. Alberto Gonçalves, religioso e político de destaque no Estado, como através do lazarista francês, Desidério Desmond, reitor do seminário local, pensador e historiador religioso.

Sentindo-se reptado por Dario Velozzo, Desidério ocupou as páginas do “A República” e do jornal católico “A Estrela”, de trinta de junho de 1905 a dezenove de agosto seguinte, em réplica a Dario. O tema foi o riso de Voltaire, imagem de que o profeta neopitagórico se serviu para escarnecer da Igreja (publicações que o padre depois pôs em livro (“Voltaire e os Anticlericais do Paraná”, 1914). E essa porfia ainda teve no seu final, a defesa intermediada por Arquimedes (provável pseudônimo do Dr.Euzébio da Rocha, ex-professor de Dario e cofundador do Instituto neopitagórico). Dario nunca contraveio, mas Arquimedes, embora estreasse pelo amigo, acabou abandonando a liça. Nos rituais neopitagóricos Dario Velozzo é tratado pelo codinome do astrólogo Apolonio de Tyana, (personagem do sec. II AC, escolhido por ele, por alegada semelhança com Jesus).

Recordando o nível do debate que então se travou, entre a Igreja e seus livres-contendores, tantas vezes prevaleceu entre estes a linguagem chula com que vergastavam os padres de abutres, chacais, senão janízeros da obscuridade, serpentes lascivas, homens de veste e consciência negra, e tantas outras lápides que atiravam com igual impacto. Usavam até o lema do ça ira da Revolução Francesa e o écraser l’infâme adotado por Voltaire. Em troca, no entanto, os padres se cingiam a acusar a imprensa de ímpia, e exprobrar a ousadia de alguns libertinos ou rapazolas refratários ao estudo e ainda imaturos para qualquer esforço maior de reflexão. Mas, não se deixou ficar só nisso a Igreja. Já a 3 de abril de 1898 (ou 1893 ou 1897? – há divergências…), a Diocese passara a publicar “A Estrella”, o principal órgão católico de confronto com os livres pensadores e seus consectários, afora a palavra dos bispos e padres da Diocese no púlpito da catedral, onde orientavam a comunidade em geral e se contrapunham ao assédio dos grupos anticlericais.

Para o “Documentado”, porém, o Círculo Católico Paranaense, fundado em 1902, é que veio a ser, a bem de ver, o precursor do Círculo de Estudos Bandeirantes. Teve sede, quadro social, diretoria, bem como chegou a promover eventos cívico-religiosos de repercussão social. Mas, o Centro vai surgir como um projeto de maior alcance ainda, visando congregar o laicato intelectual católico, à luz da romanização da Igreja brasileira e dispor de espaço próprio, para aprofundar o debate intelectual da filosofia e da teologia católica.

É quando surge o Centro de Estudos Bandeirante idealizado pelo padre lazarista Luiz Gonzaga Miele, cujo objetivo era, em síntese, centralizar esforços e promover a permuta de idéias e o intercâmbio dos valores da Igreja, no plano da cultura e das questões sociais, com vistas a enfrentar a anarquia vigente entre inteligências e reagir contra a descristianização da família paranaense. Miele havia feito sua formação filosófica e tecnológica em Dax e Paris e era professor de filosofia no internato do Ginásio Paranaense. Foi ele quem compôs o grupo, integrado pelo médico José Loureiro Fernandes e o acadêmico de Direito José Farani Mansur Guerios, em reunião preliminar de 29 de março de 1929, mas que, no ato da fundação (12 de setembro de 1929), já contava com onze fundadores, incluindo o Dr. Antonio Rodrigues de Paula; Benedito Nicolau dos Santos, Dr. Bento Munhoz da Rocha Netto, Dr. Carlos Araujo de Brito Pereira; Dr. José de Sá Nunes; Dr. Linguaru Espírito Santo; Dr. Pedro Ribeiro Macedo da Costa e Dr. Valdemiro Augusto Teixeira de Freitas. Eram todos homens representativos da capital paranaense, profissionais de diferentes atividades culturais, com formação acadêmica superior. Um laicato intelectual católico formada por um juiz de direito, engenheiros civis, advogados e professores universitários. Criada a instituição e acolhidos os primeiros associados, durante os primeiros anos, o grupo se reunia aos domingos no porão da casa dos pais de Loureiro Fernandes, na Rua José Loureiro, n. 20, local que recebeu a denominação de “catacumbas”. Mas não porque faltassem condições de segurança e conforto para os participantes; senão, pelo contrário, tratava-se de um amplo salão que oferecia acolhimento seguro e confortável. Aí ficaram até 1938, quando passaram para a Rua Pedro Ivo, 523, e de lá voltaram para a Rua XV de novembro, mas no número 384, onde permaneceram até a inauguração da sede própria. E quanto à denominação de bandeirantes? Ora, a denominação adotada foi o resultado de uma semelhança procurada com a dos ideais e da missão das bandeiras paulistas, lançando-se, como eles, aos sertões do saber, ”à cata das verdes esmeraldas e das áureas pepitas da verdade; a prear selvagens instintos para trazê-los ao batismo da fé e à regeneração da graça” (obra. cit., p. 84). Na verdade, dele diria, enfim, o professor Névio de Campos (“A Presença do Laicato Católico no Paraná dos Anos de 1920 e 1930”, História Questões & Debates, Curitiba, n. 43, p.176, 2005, UFPR): “O CEB seria uma sociedade cultural não aberta e declaradamente religiosa e confessional”… “nasceu com o objetivo de promover estudos filosóficos, científicos, literários e religiosos, à luz da doutrina católica, o que indica que sua preocupação se dirigia para a formação intelectual dos seus integrantes, visando formar uma elite intelectual que fosse capaz de dar sustentação teórica ao projeto romanizador no Paraná”.

Nesses primeiros tempos era o padre Miele quem conduzia os trabalhos e distribuía as tarefas, com a participação de todos. Os estatutos foram aprovados em 1935 e, em 1938, o CEB foi reconhecido como órgão de utilidade pública. A partir de então, o Conselho Diretor compôs uma comissão própria, que passou a agenciar junto ao governo municipal e estadual, a doação de um terreno próprio, para a construção da sua sede social. Foi através de diversas diligências de sua representação, que o governo do estado, por decreto de abril de 1939, doou finalmente ao CEB o terreno atual da Rua XV de novembro, com fundos para a Marechal Deodoro, onde, em 29 de março de 1943 foi lançada a pedra fundamental de sua sede atual.

A construção da sede foi resultado de um grande esforço, pois não só os recursos eram escassos, como a doação fora concedida com prazo de reversão, para que a obra tivesse inicio em doze meses e concluída em 24, a contar da data da escritura. O projeto foi obra do engenheiro Benjamin Mourão e a construção confiada a João De Mio, construtor licenciado. Os recursos foram colhidos a duras penas, começando com um pequeno fundo que já tinha sido reunido com o sucesso do terreno; o resto se fez com quotas atribuídas aos sócios e com a emissão de apólices, donativos de terceiros, subvenções do governo, bem como financiamento da Caixa Econômica Federal, receita e despesas que somaram Cr$ 335.500,00, por ocasião da inauguração, incluindo a edificação e instalações da sede.

E foi dentro de todo esse cenário, que, como lembra Névio dos Santos, um pugilo de intelectuais do laicato católico curitibano, passou a desenvolver os mais amplos temas culturais e religiosos, relacionados à estética, ou à filosofia política, à ética, à metafísica, a religião, às ciências humanas e naturais, direito e mesmo literatura. De 1929 a 1932 o P. Miele se incumbiu de promover um bom número deles, ligados à filosofia, ao monismo materialista e ao ensino religioso, assim como o jovem Bento Munhoz da Rocha Neto, orador da entidade, pronunciou em 1930 uma admirável conferência sobre “O Significado do Paraná” e outras mais, como sobre o tomismo e a classificação das ciências. Entre 1935-36, o Pe. Jesus Ballarin coordenou o primeiro curso de filosofia para os membros do CEB e, no mesmo período o professor Manoel de Oliveira Franco Sobrinho pronunciou uma conferência sobre a vida e a obra de Jacques Maritain. Ainda, por igual, Linguaru do Espírito Santo celebrou a espiritualidade do Cardeal Mercier. E merece também ser referido que, na época, o professor Benedito Nicolau dos Santos fez palestras sobre a percepção estética e sua visão do belo, moral e estética, bem como o professor Flávio de Lacerda abordou questões de física moderna Em janeiro de 1943, o Frei Sebastião Tauzin, francês dominicano, professor de filosofia tomista e especialista de Bergson, se serviu da tribuna do CEB para duas conferências, uma delas com o título de “Guerra das Idéias”, que acabou dando ensejo a um vivo debate da mocidade acadêmica e professores pela imprensa local, que provocou a intervenção da polícia. Além das conferências de membros do CEB, suas dependências foram seguidamente cedidas e animadas por sessões de cursos e conferências das mais diversas entidades de ensino e cultura. A todas essas atividades se incluem, também, a fundação da primeira Faculdade de Filosofia de Curitiba, em 1937, posteriormente administrada pelos irmãos maristas e que, a partir de 1946, passou a integrar a Universidade do Paraná, para contribuir no processo de federalização e, por fim, os maristas criaram a Faculdade Católica, de Filosofia, Ciências e Letras de Curitiba, que hoje integra a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Quanto ao anticlericalismo, foi doutrina que, como se sabe, se difundiu na Europa durante o século XIX, fruto do livre pensamento que a Revolução Francesa e os enciclopedistas proclamaram em defesa do homem e do cidadão. Não tinha corpo teórico, nem estratégia de ação, nasceu sob a invocação da razão e em nome da resistência a toda forma de dogmatismo que subjugasse o homem e o privasse da liberdade de consciência. Os anticlericais viam na Igreja um sistema político de dominação e manipulação dos espíritos, através do monopólio do ensino e o fomento do fanatismo e das superstições. A clerofobia então inflamou as paixões e as ofensas passaram a descer para o jargão popular e aos impropérios pessoais. Como professor, Dario tinha idéias próprias da educação e, para servi-las, transferiu a sede do Instituto Neopitagórico para Rio Negro onde construiu uma escola, “Paraná Cívico”, que excluía a educação religiosa e prestigiava a prática agrícola e o ensino profissional. Porem, os tempos eram ruins e a área conflituosa, provocada pelas disputas da Revolução do Contestado. A ameaça contra a segurança da comunidade e sua população forçou o encerramento das aulas e a transferência da escola para Curitiba.

Dario Velozzo não era certamente materialista, seu Instituto Neopitagórico constituía uma frateria espiritual, que reunia concepções pitagóricas e maçônicas e ensaiava uma aliança espiritual entre o Ocidente e o Oriente. Repetia rituais pitagóricos: todo discípulo de Pitágoras se vestia de linho branco e se submetia a um processo constante de purificação moral. Os seguidores rendiam-se ao mestre, que detinha toda autoridade sobre a comunidade e suas decisões eram inapeláveis. Dário foi profeta de sua fé todo o tempo: na cátedra, na tribuna, na imprensa e nos inúmeros livros que escreveu. Foi infatigável. Com a idade, porem, os anos amorteceram seu ânimo anticlerical e se entregou ao exercício dos segredos do ocultismo e às práticas esotéricas. Através dos periódicos “Myrto e Acácia” e “Luz de Krótona”, além do “Jesus Pitagórico”, um diário doutrinário (e sua obra derradeira), passou a preparar seu evangelho. Morreu dia 28 de setembro de 1937 e, a seu pedido, foi enterrado no cemitério municipal, em caixão de pinho, envolto em hábito de linho e depositado em cova rasa.

Com a morte do profeta e de tantos outros dos seus seguidores; também do lado oposto faleceram os fundadores do CEB e seus sucessores, calando um debate ideológico-religioso que tanto empolgou nossos homens de pensamento e o interesse do próprio povo. Ele avivou um chama local de um debate que à época afervorava as consciências religiosas da civilização ocidental, na busca de valores permanentes de sua formação espiritual.

Dario Velozzo foi, na verdade, um vencido? Para a professora Anita Novinsky, da Universidade de São Paulo, embora os limites locais que alcançou sua mensagem espiritual, o profeta nos deixou um legado muito rico, como expressão forte de contestação e manifestação de modernidade e inteligência, que não podemos simplesmente descartar. Carlos Alberto Balhana da UFPR viu em Dario, porém, um simples visionário, um profeta bíblico ou um mago oriental. Chegou a reunir uma congregação de fiéis, ergueu um templo, compôs um evangelho de fé e foi dotado de um poderoso carisma pessoal, mas, mesmo assim, contava com muito pouco para se antepor à Igreja tradicional. Já se disse que ele não chegou a ser vencido, – era muito pequeno e foi posto à margem, por não representar risco algum.

Hoje são muitos os caminhos. As igrejas e as crenças se multiplicaram e têm os mais diversos matizes. Cada um escolhe sua fé ou adota seu próprio ateísmo, conforme as propostas e seduções que oferecem. Na verdade, após as primeiras décadas da República, o conflito entre a Igreja e o Estado passa a assumir forma conciliadora, e apesar da resistência oferecida pela emenda constitucional de 1926, essa aproximação vai se consolidar, porém, quatro anos depois, durante o governo Vargas e a Constituição de 1934, sob forma de um trabalho de caráter nacionalista e social de parceria, em favor das camadas inferiores da sociedade.

Porém, de uma data em diante, o CEB passou a se ressentir de um longo período de inatividade e esquecimento. O relatório de 1960 registra um extenso letargo, quando se reporta aos anos de 1958 a 1960. Ainda depois disso, durante os anos que se seguem, de 1964 a 1973, não houve sequer o registro de atas (e a existência de livros) ou a cobrança de mensalidades. O prédio se manteve vazio, com toda a sua imponência e valioso patrimônio cultural, unicamente sob a vigília do Prof. Sebastião Ferrarini, seu diretor e a companhia de sua auxiliar Lúcia Fernandes, do vigilante Arnaldo da Silva e Angelita Ferreira, auxiliar de limpeza. Como poderíamos dizer hoje: a bandeira dos nossos Bandeirantes da Cultura se acha a meio pau. Mas, será que, por si só, o valioso e completo trabalho documental e histórico do prestimoso professor Ferrarini já não seria capaz de provocar o despertar dessa longa prostração, para torná-lo a viver? Ora, se continuamos a ter o templo, o que nos falta é apenas o ofício. E, pensemos nisso, pois Curitiba tem carência de centros realmente ativos de vida cultural. Pode ter certeza…

Rui Cavallin Pinto, cadeira 13

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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