O COMUNISMO É UMA RELIGIÃO?

Essa pergunta não é nova, e muito já se tem refletido sobre ela.. O comunismo é  uma   religião  – secular, civil?  Parece um paradoxo: como pode uma doutrina sem Deus se chamar de  religião?   Simone  Weil confirma: comunismo é  uma religião, mas no sentido  impuro da palavra. O  pensador francês  Raymond Aron, talvez seja quem mais tenha refletido sobre o tema, para concluir, ao gosto dos marxistas, de que ele é, na verdade,  o “ópio dos intelectuais”.  Já  o nosso pensador  Heraldo Barbuy, de sólida formação católica, decidiu abordar a controvérsia  por si mesmo no livro “Marxismo e Religião”, livre de qualquer influência estranha ou leitura prévia, para confirmar afinal que, à primeira vista sim,  o comunismo se parece com o cristianismo mas no seu conjunto constitui apenas uma versão herética dos seus dogmas.

Para Aron a aparente controvérsia entre comunismo e religião é, em certo sentido, apenas uma querela verbal. Depende apenas do significado que você possa dar à palavra religião.  A definição de religião tem assumido no tempo um sentido tão amplo que abrange toda sorte de cultos, rituais, crenças ou sortilégios que excluem a idéia de transcendência e de sagrado. A história confirma que, através dos séculos, houve tantas sociedades de caráter religioso que ignoraram a existência de um ser divino, e preservaram suas tradições e suas heranças sociais e morais, sem prestar reverência a nenhuma entidade externa e superior.

Diz Aron que para os  marxistas da II ou da III Internacional, a religião não passa de assunto privado. Uma opção individual arcaica.  O marxismo, pelo contrário, constitui uma idéia moderna, científica, mas sem Deus. Quem ocupa seu lugar é o proletariado, que é reconhecido  como a única classe revolucionária, incumbida de promover a grande catástrofe do resgate da humanidade, para inaugurar um mundo novo, sem desigualdade nem opressão.

Quem constitui o proletariado é tema de difícil conceito e concordância. Para Lenine o marxismo é uma filosofia urbana, voltada para o operário e as fábricas. Os camponeses não têm espírito revolucionário, são por demais conservadores e moderados. São até inimigos em potencial da revolução, porque o que mais querem  é adquirir um pedaço de terra e se converterem em senhores rurais.   Tampouco o proletariado é representado pelos trabalhadores do comércio e da indústria. Esses são qualificados e assalariados do governo ou dos patrões.  São alienados e não têm consciência proletária e revolucionária. Para Barbuy o proletário  do marxismo não é nada e não tem nada; nem mesmo chega  a corresponder a uma classe. Ele é o lupenproletariat, a categoria mais baixa da sociedade, situada nos  seus subterrâneos. Assim quando o capitalismo não puder mais contê-lo e ele puder se levantar,  não vai deixar de abater tudo quanto estiver sobre ele para   libertar o homem de sua alienações e  reintegrá-lo à sua verdadeira condição .humana. E assim se cumprirá a legenda judeu-cristã, da reconquista do paraíso pelo sofrimento e o sacrifício dos oprimidos e explorados.

Ensina Marx Weber que a revoluções sociais e econômicas são em geral uma tradução profana dos movimentos religiosos. A sedução do marxismo não vem só  da demonstração de um argumento científico, mas de seu conteúdo emocional e religioso. Do que tem de sagrado e cristão, Assim, ele faz fanáticos, não com a passividade dos primeiros cristãos que se entregavam em oração à goela dos leões do Coliseu.  Mas como Laura, filha de Marx, e seu marido Paul Lafargue, revolucionário da Comuna de Paris, que se suicidaram ao completarem 70 anos, porque se convenceram de que nessa idade já não podiam mais servir à causa revolucionária. Lenine aprovou o gesto e assistiu os funerais.

Já há algum tempo, porém, o marxismo não ocupa maior espaço na cultura ocidental, enfrentando opositores que desmentem suas previsões, ou então os revisores, que sofreiam seu papel político social e subtraem-lhe a tentação da violência, sem que perca, entretanto, o traço principal do seu caráter  político-religioso.

Há pouco tempo ainda, o jurista e filósofo francês Bernard Edelmnan sustentou em “A Legalização da Classe Operária” ( tradução da Boitempo”, 2016), que a institucionalização dos direitos trabalhistas, constitui, na verdade, uma estratégia da classe capitalista, a serviço da domesticação do ímpeto político dos trabalhadores na  luta de classe. Reconheceu que a classe proletária viveu até o final do século 19, em condições similares à da escravidão e que desde então vem desfrutando de direitos e condições de vida bem melhores. Mas, o preço dessas vitórias tem sido cobrado com a morte do espírito revolucionário.  O fogo sagrado de sua destinação messiânica.

Marx valorizou o conflito e a revolução como o caminho inelutável para um estágio superior da humanidade e a superação final de todos os conflitos. Para Lenine as revoluções são a locomotiva da história e a festa dos oprimidos e operários.

A conquista dos direitos trabalhistas não seria, portanto, uma vitória da classe trabalhadora, mas uma forma pela qual, a pretexto de conceder direitos, o capitalismo preserva seus próprios interesses, contendo, estrategicamente, os trabalhadores dentro dos limites de suas reclamações e benefícios oriundos do  trabalho; afastado,portando,  de reivindicações de natureza política e sociais contra aqueles que detém  o poder em seu proveito..

É esse, afinal, o inexaurível conflito histórico entre o capital e o trabalho, para cuja solução,  além da fórmula cientificista oferecida, a doutrina marxista recorre também à mística do holocausto  do Calvário  para fazer do proletariado  o Messias de sua própria  ressurreição.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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