O Contestado – uma guerra insepulta

Nilson Cesar Fraga é mestre em Geografia, doutor em Meio Ambiente e Professor de Pós-Graduação em Geografia da UFP, além de outros tantos títulos, convertidos em livros, teses e dissertações, que fazem dele uma das maiores autoridades sobre o sangrento episódio do Contestado, visto como uma das mais ferozes conflagrações civis do continente americano, misto de exploração capitalista (no seu modelo selvagem) e de genocídio. Durante o tempo da conflagração (1912-1916) teriam sido eliminados 30.000, brasileiros (1/3 da população catarinense), incinerados com nó de pinho em fornos crematórios de taipa, nas cercanias de Irani, Perdizinha, Butiá Verde e Lebon Regis, do centro-oeste catarinense, além da devastação da flora e de extensas florestas de madeira nobre, ricos ervais e cerca de 15 milhões de pinheiros serrados e exportados pela madeireira Lumber, para construírem casas na América do Norte e para decorar o interior do Empire State Building de Nova York. Porém, apesar da importância desse conflito, seu custo de vidas humanas e sua complexa motivação (que incluiu um forte conteúdo místico e político), e de onde saiu até a imagem definitiva do território do Paraná, a história do Contestado continua negligenciada entre nós, em todos os níveis de ensino, como tema sem relevância, como se correspondesse a espaço de sertão ainda não ocupado, nem dotado de qualquer função. Ao contrário de Santa Catarina, o tema lá é histórico e faz parte do currículo de todos os seus graus escolares. Sua memória é preservada em museus locais e, ainda mais, para cultivá-la os catarinenses fundaram, em 1974 a Universidade e o Museu do Contestado, na cidade de Caçador. Todo ano o professor Fraga oportuniza uma excursão de seus alunos de mestrado e doutorado à região do Contestado, percorrendo dezenas de cidades e sítios histórico-antropológicos do lado catarinense e paranaense, como tema central da disciplina de Geografia, Rede, Território e Poder. Sob sua coordenação, recentemente fez publicar o resultado de sua 23ª excursão, de 3 dias e 30 pessoas, realizada à região em maio de 2008 (Três Barras, Calmon, Irineópolis, Matos Costa, Joaçaba, Perdizinha, Pinheiro Preto, Irani) reunindo 27 trabalhos, em que os autores são seus próprios alunos. Os alunos-autores são de diferentes procedências, o que favorece uma visão pessoal diferenciada do episódio histórico, mas que não destoa da percepção comum de que o território tem uma dimensão própria, simbólica; uma relação cultural e afetiva que se estabelece entre o homem e o espaço que ocupa. Tanto para o caboclo, que se viu despojado da terra, exterminado e esquecido, como para a própria soberania nacional violada por uma poderosa empresa estrangeira (Southern Brazil Lumber and Colonization Cº), que fez de parte do território catarinense uma espécie de protetorado, com: bandeira, moeda e pessoal próprios. Nem nós, nem o restante do país ainda atentou para o episódio. Sobretudo nós, que, enfim, fomos herdeiros de um território de área de conquista, e foi logrando contrariar sucessivas decisões do Supremo Tribunal Federal que chegamos a custo a um “honroso acordo”, que, sem sectarismo, corrige omissões e distorções locais que vêm da formação histórica do país, mas ainda subsistem em geral, e são responsáveis pelas desigualdades territoriais vigentes, e ainda pela disputa do poder central pelos mais bem aquinhoados.

Rui Cavallin Pinto, cadeira 13

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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