O humanismo de Noel Nascimento

Noel Nascimento ocupava a cadeira n. 27, da Academia Paranaense de Letras há mais de 34 anos, e até então era o único romancista entre seus pares. Veio do Ministério Público, onde fez longa carreira, interrompida apenas pela repressão de 64. Teve, porém, seus direitos restabelecidos e pode  alcançar sua aposentadoria, para se entregar exclusivamente  à atividades  literária, a maior de suas devoções.

Construiu sua obra literária a espaços regulares, desde sua estréia poética, com as “Nuvens”, cujo exemplar de 1953, conservo com dedicatória de amigo e colega.

Apesar de sua aparente bonomia, gesto e fala mansa,  Noel foi a todo tempo um  contendor vigoroso e autêntico, com sensibilidade predominante para as  desigualdade sociais e á exclusão injusta da maioria menos favorecida.  Sua experiência na justiça ainda serviu para acentuar nele essa impressão social perversa.

Fez da poesia, porém, o primeiro caminho de sua insubmissão e, nesse itinerário, produziu “Coreto de Papel” e “Cosmonave”, que Túlio Vargas, a juízo do poeta Manoel Simões, filiou ao impressionismo. Embora mantendo aberta sua vertente poética, passou a refazer esse percurso em incursões pelo romance e em amplos ensaios histórico-sociais.

Sua Casa Verde foi romance-tese, que refez o Contestado como uma luta social camponesa, de fundo anárquico-religioso, – e ganhou premio nacional. E não parou por ai sua procura, pois produziu também A Justiça e o Fim da Repressão, A Revolução do Brasil e A Nova Civilização. A bandeira do seu humanismo-realista, porém,  está contida na Nova Estética, através da qual instala no Brasil, com inspiração no sentimento amoroso do seu povo, a reconstrução de uma nova arte, correspondente ao progresso do mundo e oposta a toda forma de exclusão e violência.

Esse mesmo sentimento amoroso de modelo cristão ele estende para o Direto Penal, na sua A Justiça e o Fim da Repressão. Para Noel toda legislação penal e política criminal estão impregnadas de uma renitente mentalidade burocrático-repressiva, destinada a apenas ameaçar, castigar e vingar, enquanto vê na sua proposta do sistema protecional  a única via humanitária  para a remissão do delinquente e a reconstrução de uma sociedade mais justa e solidária. Na sua pregação abomina o enjaulamento do homem. Para ele a justiça deveria se converter  numa espécie de patronato, em que o juiz seria o “médico-penal”, com a missão hipocrática de “curar a alma”e mudar o impulso criminoso, sob orientação de psicólogos.

Sua posição diverge do correcionalismo de Dorado Monteiro, que às vezes transige com a pena corporal, se isso for recomendado pela pedagogia correcional. Está mais próxima de Roberto Lyra, que só cede ao impacto de demolir os presídios, diante do interesse público da segurança.

Seu fio condutor é a crença na bondade natural do homem e sua regeneração através de sua própria consciência. Por fim, seu  Arcabuzes, detentor do Prêmio Paraná é romance histórico, contextualizado no Brasil meridional e nos albores da República. Reproduz o mais grave desafio ao novo regime e suas contradições. Traz mais uma vez sua visão humanista, com a presença do povo e suas “boas-paixões” na  diretriz da História. Deixa de parte as relações de produção e trabalho, e minimiza o papel da miséria no fomento das revoluções.

A obra é mesmo densa e há episódios difíceis de acompanhar, para quem não esteja afeito a essa quadra da nossa História. Os Arcabuzes de Noel são um símbolo desses tempos de Caim. Mas deve ser lido como livro de opinião, pois não é fácil entretecer o imaginário com a versão oficlal da História, para que ocupem o mesmo espaço, sem que apareça o applique.

Afinal, Noel Nascimento foi poeta e pensador de coragem e coerência.

Concedeu à consciência humana o poder de remir o homem dos seus erros e, mais ainda, de servir de instrumento criador de um mundo novo, em que predomine o humanismo e a igualdade de todos.

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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