O Instituto Histórico do Brasil fez 175 anos

O Instituto Histórico do Brasil comemorou no ano passado 175 anos de fundação e, em homenagem à data, publicou “Brasiliana IHGB”, uma edição comemorativa de 720 páginas, organizada por Pedro Corrêa do Lago, bibliófilo e ex-presidente da Biblioteca nacional.

A obra se reporta a um vasto e rico patrimônio histórico, constituído de documentos, livros, mapas, telas, coleções e objetos doados ou recolhidos desde as primeiras décadas do Império.

Entidade privada, que vive da renda do aluguel de alguns andares do prédio que ocupa no bairro da Glória, o Instituto Histórico também edita, sem interrupção, desde 1839, a “Revista do IHGB”, a mais longeva publicação no gênero das Américas.

Entre os ricos e raros livros que compõem suas amplas estantes, distinguimos, às soltas, a “Biblioteca Americana”.de Von Martius;  os 207 volumes dos “Documentos Brasileiros”, de J. Olímpio, ou as “Viagens ao Brasil”, de Spix e Martius, além de tantas outras raras riquezas bibliográficas.,

Porém, há também preciosidades ou curiosidades, como a primeira edição dos “Lusiadas”, onde se lê à testa da obra: “Luis de Camões, seu dono”. Há bilhetes eróticos como o de D. Pedro I°  à marquesa de Santos, ou ainda o Diário da condessa de Barral, que revela sua participação  nas decisões políticas do Imperador Pedro II e tem servido para justificar as intrigas de seu envolvimento amoroso com o monarca. Existe, ainda, uma primeira edição de “A History of Brazil”, em inglês, de James Henderson e tanta coisa mais.

Recentemente, o Instituto recebeu a doação do arquivo de presidente  Médici, por mãos do seu filho, do tempo em que o general  estava à frente do regime militar (1969-1972). São três grossos volumes, preparados por seu ministro Alfredo Buzaid, através do quais se tem uma visão pessoal da trajetória da história do país, cujo acervo, na opinião da pesquisadora Janaína Cordeiro, permite entender melhor o  convívio de um regime severo de repressão política, com o “milagre econômico”, de desenvolvimento recorde, baixa inflação e a realização de grandes obras de infraestrutura.

 

Médici era um homem reservado, de poucas palavras, mas muitos desses documentos ajudam a construir a imagem do homem que  guardou amargura do ostracismo a que foi relegado e, mais que isso,  do lugar que a história  lhe reservou..

A despeito de todo esse rico patrimônio, o Instituto se ressente, porém, da carência de recursos materiais e humano que lhe permita administrar  esse manancial de memórias e registros históricos,  ao mesmo tempo em que se esvaziam as salas de arquivo e bibliotecas.

Há hoje cada vez menos consulentes e pesquisadores…

O Instituto Histórico e Geográfico do Brasil surgiu da sugestão do marechal Raymundo José de Mattos e do cônego Januário Barbosa, numa sessão da Sociedade Auxiliar da Indústria Nacional, do Rio de Janeiro, em 18 de agosto de 1838. Acolhida a idéia, a sociedade se constituiu em 21 de outubro seguinte, sob a presidência do visconde de São Leopoldo, reunindo 27 pioneiros, todos eles altas figuras da corte e da sociedade carioca; muitos heróis da Independência e da Regência.

Durante muitos anos o Instituto Histórico se converteu em um verdadeiro centro de convergência cultural e com o papel exclusivo de guardião da memória oficial, sob o patronato do Imperador D. Pedro II, que freqüentava assiduamente suas sessões no Paço Imperial e provia parte do seu orçamento, com recursos de sua  bolsa.

Ocorre, porém que, em 1934 foi criado o ensino superior de História, na USP, em São Paulo, e, em 1938, no Paraná. Assim, em 1942, os primeiros cinco bacharéis de História, foram diplomados pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Paraná. Depois disso, esse número vai se repetir e se multiplicar, ano por ano, e seus formandos passam a disputar o espaço  de estudo e  produção da história, favorecidos por sua formação sistemática e interesse da realização profissional.  Por seu turno, as instituições de ensino e  centros oficiais de pesquisa e  formação superior,  passaram a contar com maior soma de recursos públicos, que animavam suas atividades e seduziam os novos historiadores, afastando-os dos centros históricos tradicionais, que passaram a um desempenho secundário, mantido embora por força da tradição e riqueza de seu patrimônio cultural.

Assim, marcada essa distância, que se acentua e se concentra no mesmo espaço, porque não dividir então todo o campo em áreas de predileção, em que a Instituição nacional, assume o geral, sem que dispense o particular de que provém, enquanto as estaduais e locais se especializariam no regional e local, que está sempre mais  perto dela e se acha entregue ainda ao amadorismo.. Afinal o fato histórico é local na origem, e só depois se torna geral.

É uma sugestão contida nos limites da publicação, mas se seguirmos pelos dois lados da História, tenho certeza de logo ali elas se fundem.

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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