O Jornalismo e a literatura e O jornalismo como gênero literário

Os jornalistas e a Academia Paranaense de Letras

São imensuráveis os nomes dos escritores que se serviram do jornalismo e jornalistas que enveredaram pela literatura. Cervantes, Balzac, Hemingway, John dos Pasos, Ford Madox Ford são alguns. No Brasil, Manoel Antônio de Almeida, com Memórias de um Sargento de Milícias, começa uma longa linhagem de romancistas que trabalharam como folhetinistas, sendo seguido por gente da estirpe de Machado de Assis e da geração que veio a fundar a Academia Brasileira de Letras.

Mas é preciso separar jornalistas de quem é somente colaborador de jornal. Na Academia Paranaense de Letras temos os dois tipos.

Na APL

Não vamos fazer uma análise cadeira a cadeira, porque além de longo seria maçante. Vou apenas usar as duas primeiras cadeiras como exemplo.

Já na Cadeira nº 1 temos como fundador Rocha Pombo: fundador de jornais (O Povo, Ecos dos Campos), redator em outros, em Curitiba e no Rio de Janeiro. Depois dele, Valfrido Pilotto foi o primeiro ocupante, redator e posteriormente colunista durante décadas da Gazeta do Povo.

Em 2010, Dante Mendonça assume a cadeira. Dante é jornalista desde sempre. Foi chargista e colunista da Tribuna do Paraná, é cronista da Gazeta do Povo e escritor talentoso para contar as histórias e o folclore – entre aspas – de Curitiba e do Paraná.

Na Cadeira nº 2, o fenômeno é semelhante. O patrono é Cândido Lopes, o primeiro jornalista paranaense, que trouxe de Niterói, para subir a Serra do Mar em lombo de burro, a máquina tipográfica com que imprimiu, durante anos, o Dezenove de Dezembro, nosso primeiro jornal.

Seu primeiro ocupante foi Sebastião Paraná, colaborador assíduo da imprensa. Depois dele veio Azevedo Macedo, colaborador regular dos jornais com artigos literários, jurídicos ou técnicos – foi professor de Português e catedrático de Economia Política. Mais tarde veio Osvaldo Pilloto, irmão mais velho de Valfrido, também dedicado aos artigos na imprensa. Outro ocupante foi Luiz Romaguera Neto, que publicou centenas de artigos em jornais e revistas paranaenses.

Seu substituto, este que assina o presente trabalho, começou sua vida como repórter, foi colaborador de jornais e revistas, comentarista de TV e rádio e hoje ganha a vida como consultor de comunicação, tarefa que inclui escrever matérias, artigos e reportagens, entre outros textos.

Temos aí um exemplo. No total, na APL, em se tratando de jornalistas profissionais, somos nove exemplares, por assim dizer. Por ordem das cadeiras: Dante, eu, Laurentino Gomes, Luiz Geraldo Mazza, Paulo Vítola, Nilson Monteiro, Adherbal Fortes, Roberto Muggiati e Carneiro Neto. Sem falar de Eduardo Rocha Virmond, René Dotti e Léo de Almeida Neves, que iniciaram a vida trabalhando em jornais.

Todos chegaram à Academia, com a exceção de Luiz Geraldo Mazza, pelo caminho da literatura. Alguns são historiadores, outros memorialistas, outros cronistas, poetas, ficcionistas. Mazza sempre foi fiel à análise política, na qual é mestre. Temos jornalistas escritores para todos os gostos.

Os mais importantes em termos de reconhecimento além-fronteiras são Rocha Pombo, Emilio de Menezes (principalmente pela sua obra satírica), Laurentino Gomes e Roberto Muggiati, autor versátil, capaz de circular pelo mundo da música, pela ficção, pela grande reportagem em livro e pelas traduções do inglês e do francês.

Rocha Pombo e Emílio de Menezes foram os únicos paranaenses a chegar à ABL, embora nenhum tenha pomado posse, por razões que não vem ao caso.

Em 80 anos, passaram pela APL, incluindo patronos, 209 acadêmicos. Praticamente todos (talvez com a exceção de Vieira dos Santos, o mais antigo dos patronos, falecido em meados do século XIX, em Morretes) foram colaboradores, assíduos ou eventuais, de órgãos da imprensa.

Jornalistas e ficcionistas

Deixemos os integrantes da Academia Paranaense de Letras e passemos aos jornalistas radicados no estado e que foram consagrados pela literatura.

Começo por Newton Sampaio, morto aos 24 anos. Seu livro Irmandade foi premiado, logo depois, pela Academia Brasileira de Letras. Teria tido destaque nacional, não fosse a tuberculose fatal.

Manoel Carlos Karam nasceu em Santa Catarina, mas sua literatura sempre foi paranaense. Alguns de seus livros são obras de fina tessitura, como Cebola, Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca, e Jornal da Guerra Contra os Taedos. Foi o escritor brasileiro mais próximo em estilo de Ítalo Calvino, ambos autores de prosa de tom surrealista e humor cortante.

Paulo Leminski viveu algum tempo do jornalismo, já no fim da vida, como redator do Jornal da Band, em São Paulo. Não era jornalista. Foi marcante pela poesia, pela prosa de vanguarda e pelos ensaios.

Jamil Snege era sociólogo de formação, publicitário de profissão e colaborador de jornais. Sua obra representa o império da ironia, com o autor no comando absoluto da linguagem, da gramática, da narrativa, dos personagens. O Jardim a Tempestade, Como eu se Fiz por si Mesmo, Viver é Prejudicial à Saúde são antológicos. Infelizmente seus livros, por problemas de inventário, estão esgotados.

Valêncio Xavier merece destaque essencialmente por O Mez da Gripe,  achado narrativo com que incorporou recortes de notícias, bulas de remédios e outras imagens publicadas em jornais e revistas para desenvolver a trama, sobre a gripe espanhola de 1918. Foi saudado como um gênio da semiótica, mas o recurso de que lançou mão me parece mais um macete criativo do que um estilo. Suas obras posteriores não chegaram ao mesmo resultado da estreia.

Temos outros jornalistas na lida literária. Luiz Manfredini, veterano das reportagens, acaba de lançar Retrato no Entardecer de Agosto, ficção sobre a utopia do Dr. Faivre, no sertão paranaense de meados do século XIX.

Márcio Renato Santos publicou este ano seu quinto livro de contos,  Finalmente Hoje. É um escritor que inventa personagens estupefatos perante a vida, sem entender a perplexidade do dia a dia. A literatura ‘marciana’ é divertida e up-to-date. Um talento que já se sobressai.

Cito Nilson Monteiro, típico escritor saído das redações: caminha pela reportagem literária, pela poesia, pela história, pela ficção. Fábio Campana, pelo perfeito domínio do texto. E ainda, Carlos Alberto Pessoa, poeta urbano, dono de um estilo invulgar como cronista.

O jornalismo como gênero literário

A expressão surge com a obra de Tristão de Athayde, publicada em 1960, hoje só disponível em sebos. No entanto, o gênero nasce, no país, com Euclydes da Cunha e Os Sertões. Desta obra já disseram que se houvesse sido escrita em inglês Euclydes seria um autor reconhecido mundialmente. Além de ser um épico, Os Sertões podem ser considerados também como tratado geológico e antropológico e  retrato da ferocidade do brasileiro daquele tempo, ignorante e fanático, em ambos os lados da luta em Canudos. Sobre o autor, publiquei artigo na Revista nº 66 da Academia Paranaense de Letras, a propósito dos 150 anos de seu nascimento.

Os norte-americanos

Mas foram os norte-americanos que deram destaque mundial ao jornalismo literário. Gay Talese, ex-editor do New York Times, talvez seja o nome mais valorizado. O Reino e o Poder, sobre a trajetória do jornal a que se dedicou, e Honra teu Pai, sobre a máfia, são obras de primeira grandeza.

Truman Capote também se insere na lista, com A Sangue Frio, livro que gerou polêmicas de toda ordem, mas sobreviveu inclusive ao autor, já falecido. Norman Mailer, outro ex-jornalista, biógrafo de Marilyn Monroe, têm em Os Degraus do Pentágono um relato sombrio dos dias de confusão em Washington em 1968, “o ano que não terminou” – expressão do jornalista Zuenir Ventura, que dá título ao ótimo livro dele sobre o período. Zuenir hoje pertence à Academia Brasileira de Letras, por obras como o citado 1968.

Gabriel García Marquez fez inúmeras reportagens, transformadas em livros. Vide Miguel Littin Clandestino no Chile e Notícias de um Sequestro, para ficar em duas obras. Gabo aprendeu o ofício em anos de atividade jornalística, entre Bogotá, Barranquilla, Cartagena, Caracas, Barcelona, Madri, Nova Iorque e Cidade do México. Suas reportagens políticas escritas para jornais estão disponíveis em diversas edições brasileiras.

E como lembrou uma participante do XI Encontro de Academias de Letras  do Paraná, quando este trabalho foi apresentado, a vencedora do Prêmio Nobel de 2015 foi uma jornalista ucraniana, Svetlana Alexievich, autora de um livro de imenso valor sobre a tragédia de Chernobyl.

Os brasileiros                                                                                          

O país tem revelado autores de fôlego na recuperação da memória nacional. Isso inclui tanto os que tratam de recuperar episódios históricos como os dedicados a biografar figuras de peso na formação do país. São os casos dos jornalistas Domingos Meirelles, com o monumental A Noite das Grandes Fogueiras, sobre a Coluna Prestes, seguido mais tarde por 1930 – Os Órfãos da Revolução. Igualmente o cearense Lira Neto, com a saga de Getúlio Vargas, e Elio Gaspari, autor da irrepreensível série de cinco volumes sobre os governos militares.

Ruy Castro já nos deu muitas lições de rigorosa pesquisa biográfica, com a história e as histórias da bossa nova e do samba canção, mas O Anjo Pornográfico, a biografia de Nelson Rodrigues, é a sua obra-prima.

Fernando Morais é outro grande nome, ao lado de Jorge Caldeira, autor da biografia do Visconde de Mauá.

Entre todos, o mais bem sucedido em volume de exemplares vendidos é Laurentino Gomes, com a trilogia 1808, 1822 e 1889. Laurentino já ultrapassou, incluindo vendas no Brasil e em Portugal, a casa do milhão de livros comercializados.

Daqui para diante

A literatura cada vez mais precisa de autores de grande vocabulário. Se olharmos as listas de livros mais vendidos, teremos uma síncope. Blogueiros, sem formação técnica, incapazes de escrever dois parágrafos que façam sentido, são best-sellers.

Nesse sentido, o jornalismo tem muito a contribuir para a memória, a poesia e a ficção. O domínio da narrativa ainda é atributo considerável. Os temas estão no ar ou pairam em nossa mente. É preciso colocá-los no papel.

A literatura é uma atividade que exige riscos. E não há nada que seja mais perigoso, hoje, do que a realidade brasileira. Um prato cheio para quem queira se aventurar. Como disse Goethe, “se você acha que pode fazer ou pensa que pode fazer alguma coisa, comece. A ousadia contém magia, poder e genialidade”.

 

(Texto apresentado no painel sobre literatura no Paraná, durante o XI Encontro das Academias de Letras, no Salão Nobre da Faculdade de Direito da UFPR, em 24 de outubro de 2016, por Ernani Buchmann)