O MILAGRE DE SANTO ANTONIO

O Culto a Santo Antonio é devoção do universo católico. No Brasil, porém, é, disparado, o santo mais popular. Quando nasceu em Lisboa ele era Fernando Martins, mas passou a adotar o nome de Antonio, no seu ingresso no convento de Santo Antonio dos Olivais, em Coimbra, ao vestir o burel e a cingir a corda simbólica de frade menor de São Francisco. No entanto, já nesse tempo ostentava a fama de formação teológica superior e ardente religiosidade, passando a assombrar a Igreja por sua santidade, sua cultura e poder de sedução de sua palavra fulgurante, a serviço do apostolado católico e da conversão dos hereges.

O padre Vieira, seu biógrafo, lembra que seus prodígios de pregador e taumaturgo, deram vida a tamanha fé popular que o povo passou a recorrer às suas graças para todas as aflições, por menores e inocentes que fossem; seja a moça à espera de casamento; os pais preocupados com a doença dos filhos, ou mesmo a perda de qualquer miudeza.

Para tudo o povo recorria a Santo Antonio, com extrema devoção e confiança de ser atendido. Não há Igreja que não tenha um altar consagrado a sua imagem.,

Com relação ao Brasil, Santo Antonio foi alistado no exército como soldado raso e promovido a tenente-coronel, com sua imagem levada em triunfo à frente das batalhas que expulsaram os holandeses de Pernambuco e Bahia, além dos franceses do Rio de Janeiro.

Em 1890, suprindo uma omissão do governo, Floriano Peixoto mandou pagar seu soldo de tenente-coronel, correspondente à patente que lhe foi conferida por decreto de 1814.

Diz-se também que é o santo que mais milagres fez e faz; e eles se contam aos milhares.

De todo esse fabulário, há, porém, um episódio cuja graça e lição de cristandade merece lembrança. E se passa em Jerusalém.

Havia uma Igreja na cidade santa com um altar do santo milagroso.

E constava a crença que no dia de Santo Antonio, todo doente que conseguisse entrar por primeiro na Igreja, recebia a graça de ficar livre de toda doença e padecimento.

Então, foi com toda essa esperança que um paralítico se postava todo ano à porta de entrada da Igreja, na ânsia de ser o primeiro a entrar no templo. Mas, toda vez via seu doloroso esforço se tornar inútil, porque não tinha pernas para competir com seus concorrentes.

A uma altura, porém, imaginou se deitar junto da porta, tão à frente, que, bastava que a porta se abrisse, para ele rolar para dentro da nave. Outra vez, porém, o infeliz se viu superado pelos outros que, mais lépidos que ele, saltavam sobre seu corpo e logo alcançavam o interior do templo.

E foi assim, por vezes seguidas, até chegar ao ponto em que, condenado a arrastar seu aleijão pelo resto da vida, acabou por se voltar contra o próprio santo. E então, a sós no templo, passou a execrá-lo, atribuindo-lhe toda culpa por seu infortúnio.

E essa revolta assumiu tal furor que, armado de uma pedra, arremessou-a com todo vigor contra a efígie do santo frade. E foi então que aconteceu o que menos se esperava: para seu espanto, a imagem ganhou vida e apanhou a pedra no ar, e, com a mesma expressão de indignação, ameaçou devolvê-la, com mais força ainda, contra o blasfemo, que, tomado de susto, pôs-se de pé e passou a correr para fora da Igreja e do alcance do santo.

Lá fora, porém, percebeu espantado que correra com suas próprias pernas.  Acontecera um milagre! Estava curado da paralisia!… Enfim, refeito do susto, e agora comovido, voltou compungindo para diante da imagem do santo. Veio pedir perdão e agradecer o milagre.

E desde esse tempo se diz que, se você voltar à Igreja, vai ver a imagem do santo, no mesmo altar, mas agora empunhando uma estranha pedra. Sua fisionomia, porém, e seu olhar, vão lhe transmitir o mesmo halo de santidade e misericórdia cristã, que sempre envolveu o santo.

É que, na verdade, tudo voltou a ser como se nada tivesse acontecido…

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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