O Mito das Academias

Em novembro de 2.009, a Academia Paulista de Letras celebrou seu primeiro centenário de fundação, em sessão solene no Espaço Sociocultural – Teatro CIEE, da capital paulista, a que acorreram figuras da mais alta representação da vida cultural e política de São Paulo e do Brasil. E, para preservar a memória da comemoração, o presidente José Renato Nalini fez reunir os pronunciamentos da ocasião e fotos da toda a galeria dos seus membros, em edição policromática. Houve sarau musical de João Carlos Martins e versos do poeta Paulo Bonfim. Mas o orgulho paulista por sua Academia centenária, seus valores e sua ascendência no cenário cultural do Brasil, frenteia hoje em dia, com os vaticínios pessimistas que rondam o comércio de livros e as estatísticas de índices cada vez mais baixos sobre o interesse geral da leitura. Para a pesquisa do Instituto Pró-Livro, o brasileiro lê em média 1,3 livros por ano. Em 2.007 éramos 77 milhões dos que não lêm e 21 milhões de analfabetos. 22% das pessoas consultadas disseram que lêm apenas por obrigação e 13% realmente não têm gosto nenhum pela leitura. Os mesmos dados confirmam que nossos estudantes, mesmo dos cursos superiores, lêm 2 livros por ano, enquanto na França este número vai a 8, na Inglaterra a 9 e nos Estados Unidos a 10. A denúncia, e muito mais, fez parte da manifestação de Luiz Gonzaga Bertelli, que, entre outros títulos ostenta o de presidente da Academia Paulista de História. Mas não ficou só nisso a comemoração e a avaliação centenária. Nalini colheu ainda cem depoimentos de diferentes áreas da cultura, e editou “O Mito das Academias”, livro que fere um desafio bem atual: “Qual o sentido de uma Academia de Letras no século 21?”. O tema é do nosso tempo e confronta com o contragosto atual do livro e a mundialização da informação e da cultura. Embora as academias remontem aos jardins de Academus, e represenem prestígio social e cultural, hoje, porém, elas têm sido objeto de constante crítica depreciativa, em que é negada sua própria representatividade e são acusadas de constituir um clube fechado, corporativo, na mão de poucos e, frequentemente são estéreis. Há autores que não fazem questão de pertencer à Academia. Acham que podem se impor sozinhos, sem as láureas acadêmicas. E lembram que Stendhal. Flaubert, Baudelaire, e, mais recentemente, Proust e Gide, nunca pertenceram a qualquer Academia. A despeito disso, entretanto, todos os depoimentos prestados exaltam o papel que a sociedade atual ainda reserva às Academias, como verdadeiras guardiãs da cultura e da língua pátria. Vale a pena conhecê-los, que são testemunhos de alta prosápia e têm receita própria. Aliás, o tema é amplo e o espaço é curto. Não permite que o levemos adiante. Tem condimento, porém, para animar qualquer discussão. Mas vale a pena começar por aqui…

Rui Cavallin Pinto, cadeira 13

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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