O PARANÁ ESQUECEU DAVID CARNEIRO?

Há dias procurei numa das casas de sebo da cidade, uma obra de edição esgotada de David Carneiro. Era uma das nossas mais tradicionais livrarias e tinha fama de conter o mais rico acervo bibliográfico relativo a obras de todas as idades.

Porém, foi com custo que localizamos um único exemplar do autor, entre dezenas de milhares de outros diferentes títulos. Mas talvez eu mostrasse tanto interesse pela obra, que, no meio da procura, o vendedor me perguntou quem era, afinal, o tal David Carneiro de quem nunca ouvira falar.  – Ora, disse-lhe eu com convicção de paranaense: se trata do maior historiador do nosso Estado.  Autor de quase 200 livros da história d o Paraná. Porém, me surpreendi com o desconhecimento do livreiro.

Para Francisco Negrão os Carneiro constituem “uma família histórica” paranaense. Descendentes do açoriano Manoel Soares da Silva, que veio para Santa Catarina, mas acabou se instalando em Antonina, por volta de 1839, fugindo da Guerra dos Farrapos.

Para a família provém do capitão de milícias português, que, em 1656 veio parra o Brasil durante a invasão holandesa.

David Antonio da Silva Carneiro nasceu em Curitiba, no dia do aniversário da cidade, 29 de março de 1904, filho de David Afonso da Silve Carneiro, Coronel da Guarda Nacional e industrial ervateiro. Levou o mesmo nome do pai igual ao do avo e do bisavô.  Hábito do tempo: um brasão de família (“gente de nossa raça não desmente a estirpe”, carta do pai).  Como o de tantos norte-americanos que dispensam o uso sobrenome da mãe. John Smith é simplesmente John Smith e basta.

Iniciando sua formação básica em Curitiba, em 1918 ingressou na Escola Militar de Barbacena, mas o desgosto provocado pela morte do seu amigo Newton Prado, na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, fez desistir da carreira militar e ingressar na Faculdade de Engenharia da Universidade do Paraná onde se formou em 1928.  Perdeu o pai em seguida e assumiu a direção da “Ervateira Americana. ”, até 1943, quando faleceu a mãe e ele deixou definitivamente os negócios para se dedicar exclusivamente às atividades culturais.

A essa altura ele já havia se convertido ao positivismo de Augusto Comte, cuja doutrina apreendeu a respirar na atmosfera da Escola Militar do Rio de Janeiro e ganhou corpo com o posterior convívio acadêmico com o professor João Perneta, cuja casa passou a freqüentar e dessa convivência resultou o Centro de Propaganda do Positivismo, a cujo ideário devotou sua vida e sua incansável pregação filosófica e social.

David Carneiro era um voraz leitor e um ávido escritor, o que lhe permitiu percorrer um longo percurso intelectual. Fez obra vária e rica, que correspondeu a uma ampla produção temática. Mas foi, sobretudo, nosso maior historiador regional, pela extensão do legado bibliográfico; pela imagem do passado que preservou e procurou reconstruir; pelo profundo sentimento regionalista e dedicação catequético que imprimiu à sua obra histórica.  Tudo repassado por um forte e consciente sentimento de amor e devoção ao seu Estado, cultivado pelo conhecimento do seu passado e seus heróis.

Mas, como se dizia então, era um “historiador tradicional”, causa provável da resistência que encontrou ao seu ingresso no meio acadêmico da época, dominado por uma versão quantitativa, demográfica e econômica da história, nos moldes da escola francesa dos “Annales”.  Aos olhos do Departamento de História da UFPR ele fazia o modelo do autodidata e do não-acadêmico. O literato plutarquiano (como ele mesmo se atribuía), voltado para valores morais e a construção de modelos de heróis regionais.

Em relação aos estudos regionais, proclamava-se continuador de Romário Martins, seu mestre; Francisco Negrão e Ermelino de Leão. Tinha admiração por Rocha Pombo, que comparava a Varnhagen e Capistrano de Abreu.   Francisco Negrão era a imagem do autêntico pesquisador.

Porém, apesar  de ser considerado  o maior estudioso da História do Paraná, representado por  ampla produção temática, representada por mais de 70 obras publicadas (ele chega a mencionar quase 200…); sua condição de museólogo,  proprietário do museu “Coronel David Carneiro”, o maior museu particular do Estado e um dos maiores do Brasil, contando com um acervo  de 5.000 peças, além de quadros, retratos, esculturas, obras de arte, armaria, porcelanas, etc.,  que passou a reunir desde os 8 anos;  orador, conferencista e professor acadêmico, tanto quanto ostentou  a distinção de ter sido  professor visitante nos Estados Unidos,na University Nebraska-Lincoln,na Howard University de Washington ou a da Califórnia, ademais de contar com uma biblioteca de  mais de  30.000 volumes, –   porém, embora todos esses dotes e devoções ao saber geral e regional, David Carneiro  nunca foi convidado para ser professor de História na UFPR: não tinha diploma da disciplina., era engenheiro . Além do mais, era visto pelo mundo acadêmico da época como um historiador de percurso pessoal e que não se filhara às correntes mais modernas do conhecimento histórico.

Só no curso dos seus últimos anos de vida é que passou a receber manifestações oficiais que legitimavam sua condição de vulto emérito da cultura e da história paranaense. Tornou-se então “Professor Emérito” da Universidade Federal do Paraná (1982); membro da Academia Brasileira de História (1983); “O Paraná na Revolução Federalista” foi reeditado pela Secretaria do Estado da Cultura e Esporte (1983) e, no mesmo ano, foi ele acolhido pelo Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Em 1987 foi reconhecido como “Vulto Emérito’ da cidade de Curitiba.

A esse tempo, porém, lamentava em cerimônias oficiais que debalde produzira quase duas centenas de livros da história do nossa terra e nosso povo, quanto continuava estranho ao público, mesmo entre os que se dedicam aos estudos paranaenses, como atestam as poucas referências bibliográficas que merece no espaço acadêmico, lembrado em simples menções, esparsas e pontuais.  E, em outras tantas vezes, repetiu esse ressentimento…

Esse, portanto, o débito que ainda permanece aberto e merece reparo, porque toca à nossa própria identidade e à homenagem às nossas raízes e aos construtores de nosso espaço político e cultural, que permitem legitimar nosso destaque e orgulho no atual concerto nacional.

Acadêmicos Rui Cavallin Pinto