O PARANAENSE É TAMBÉM UM “HOMEM CORDIAL”?

“Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda  celebra  este ano   80 anos de sua publicação pela Olympio Editora, inaugurando a Coleção Documentos Brasileiros.  Um ensaio que, a partir da Revolução de 1930 e ao lado de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre e Formação Econômica do Brasil, de Caio Prado Junior, passaram a liderar um forte surto renovador da nossa história e da imagem do homem brasileiro, à luz de suas raízes e herança social.

No plano social, o arquétipo é o “homem cordial”, expressão atribuída ao brasileiro, que Buarque de Holanda tirou do escritor Ribeiro do Couto e da correspondência deste com o poeta e intelectual Alfonso Reyes, então embaixador do México no Brasil.  O estereótipo ganhou espaço nacional e mesmo internacional,  com interpretações diversas, que transcenderam do campo da ciência social para assumirem  gosto popular.

Para Sérgio o “cordial” vem do radical latino “cor” (cordis), cujo significado mais remoto é o de coração, para representar o temperamento brasileiro. Porém, ao contrário do que aparenta, o “ homem cordial” não significa só lhaneza de trato, bondade, civilidade ou mesmo subserviência, conforme supôs o historiador Cassiano Ricardo em polêmica travada na imprensa. Para Sérgio, cordial significa um sentimento ou comportamento de natureza emotiva, que provém do coração, do convívio privado e familiar, que pode traduzi r também emoção hostil, disfarçada ou socialmente dissimulada, visando ganhar intimidade e superar o formalismo ou as distâncias sociais. Um comportamento produzido, mímico ou pantomímico.

Para Buarque de Holanda o homem cordial pode ser ao mesmo tempo bom e mau, representar amizade ou inimizade, pois ambos os sentimentos provém do coração e têm fundo emocional.

Sua origem é ibérica e resulta da tentativa de adaptação ou mestiçagem de um representante da cultura milenar européia às condições adversas e estranhas de um país tropical, de feição rural e formação patriarcal e escravocrata.

Essa paisagem social caracteriza a Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre, na imagem da simpatia à brasileira, mais transbordante no mulato. “Ninguém como ele”, diz Freyre, “ é tão amável, nem tem um riso tão bom; um maneira mais cordial de oferecer ao estranho a clássica xicrinha de café; a casa; os préstimos. Nem  modo mais carinhoso de abraçar…”

Esse mesmo “homem cordial” de convívio na Casa Grande e senzala, desses primeiros trezentos anos de formação da sociedade brasileira, reaparece nas décadas iniciais do século XIX, com a presença e transmigração da família real portuguesa para o Brasil, assinalado o início do processo de urbanização do país, a partir do qual, ao ver dos nossos melhores intérpretes, se acentuam os antagonismos entre dominadores e dominados.

Doravante o convívio da Casa Grande então se distancia e se reduz a episódicos espaços de confraternização social, como nas procissões e nas festas de carnaval.

Como se vê, Gilberto e Sérgio versam o mesmo personagem e um cenário social de consistência semelhante, mas que se distanciam pela análise. Assim, para Holanda a urbanização não se inicia em 1808, com diz Freyre, com a transferência da Corte  para o Rio de Janeiro, mas, adotando a interpretação do sociólogo Brasílio Sallum Jr, apenas em 1888, com  a abolição da escravidão, que tampouco se reduz à adoção de uma nova cidadania e os preconceitos que ainda prevaleceram, mas, sobretudo, com a emergência de um nova ordem social, produto da expansão mercantil ou urbano industrial, incompatível com o patriarcalismo pendente e a aura de seus personagens.

E, enfim, só resta também perguntar se temos ou não aquela fisionomia socialement austucieuse do homo cordialis de Buarque de Holanda. Não canso de ouvir, de diferentes compatrícios, que o homem deste recesso do país não passa de um cidadão tímido e sisudão, avesso a toda forma de exposição e disputa.

O jovem Pinheiro Machado, ainda estudante, já disse dele, na revista “A Ordem”, do Rio de Janeiro, em abril de 1930, que o Paraná e sua gente não tinham qualquer traço físico e humano que os distinguissem do resto da nacionalidade. Houve reação, certamente, de dois primazes de nossa terra: Bento Munhoz e Andrade Muricy. E foi contundente, porque o moço se refez e se converteu no maior encomiasta da nossa História. Catedrático de História e até governador do Paraná.

Outro foi o pernambucano Fernando Ferreira, que o Paraná acolheu e saiu dizendo que o Estado é um exílio e sua gente uma tribo estranha, fria e arredia, que vive em casas iguais às dele e se alimenta de pinhões. Um jeux d’esprit de jornalista que faz sua própria notícia.

Também nosso compatriota Dalton Trevisan quando vem à capital anuncia em nosso mau francês: je vais à Curitiba pour m’emerder.

Certamente, o modelo do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda foi concebido dentro de um tempo e um universo social e político diferente do nosso, isolado da Europa há três séculos.  Um mundo rural, latifundiário e escravocrata, de dominação patriarcal e personalista. A cordialidade era praticada como arte de sobrevivência numa relação de poder de tradição oficial.

O Paraná veio depois. Também teve sua Casa Grande nos Campos Gerais, do modelo gilbertiano, como a Fazenda Jaguariaiva (do coronel Luciano Carneiro), a Caxambu, a Carrapatos e a Fortaleza, semelhantes à Fazenda Noruega e a do engenho do Monjope, em Pernambuco e ainda igual às gravuras de Cícero Dias. Mas a própria Cecília Westphalen que as descreveu achou pouco.

O Paraná tem, porém, um quid diferente: o imigrante e o trabalho livre, do assalariado e do colono no seu lote; ambos no limite da modernidade e de um mundo de iniciação capitalista: ingredientes indispensáveis para quem quiser construir por aí o modelo de nossa cordialidade.

Quem se propõem?…

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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