O PÓ DE PIRLIMPIMPIM

A exploração intensiva das lavouras de café nas terras virgens e ubérrimas do Norte do Paraná fez com que sua cultura se estendesse por todo o setentrião do Estado, mesmo nas áreas de clima tido como impróprio para a cultura da rubiácia.

Apesar dessas limitações, porém, em 1960 o Paraná chegou à condição de maior produtor nacional de café e a quase um terço da produção mundial. Toda essa riqueza, porém, corria risco constante: o flagelo da geada, como as de 1953 ou 55, que devastaram milhões e milhões de cafeeiros.  E, até então, não se atinava, como preveni-la e evitar seus efeitos desastroso para a economia da região e do país. Recorreu-se à experiência com as frutas cítricas da Califórnia e da Flórida e as vinícolas alemãs. Adotava-se o plantio nas encostas, para favorecer o escoamento do frio; sugeria-se o uso dos fornos a óleo e ventiladores, a prática da nebulização, do chuvisco ou borrifamento. E assim muito se pensou e praticou no assunto, mas em geral essas providências eram tidas por dispendiosas, tamanha a extensão das lavouras.

Vai então que, de repente, surgiu aquele homem de negócios, muito ladino e muito ambicioso, que anunciou à cidade ter a fórmula definitiva da salvação dos nossos cafezais, contra a implacável devastação da geada.

E dessa vez prometia ser definitiva.

A notícia espraiou geral e foi recebida com grande expectativa. Representava a redenção da lavoura, livrar-se do castigo permanente do frio, fosse qual fosse sua intensidade. Era um dom do céu. Uma benção de Deus.

E então ele contou como tudo sucedeu: o esperto mercador era homem viajado e numa de suas andanças pelo Rio de Janeiro topou com dois alemães que se proclamavam cientistas e alardeavam ter descoberto a fórmula para proteger nossos cafezais do gelo. Ora, era a mosca no mel. Tinham bela figura: dois guapos saxônicos de meia idade, altos, louros e saudáveis. Um era mais espichado, robusto, mas seco de carnes e olhava por uns óculos de vidro grosso. O outro era menor, mais troncudo, de cabeça grande e pouco cabelo.

Tinham, porém, o aplomb e aquele ar de superioridade e onisciência de quem fala com Deus ou tem o segredo da origem do universo.

Ora, nosso comerciante ficou pasmado: enredou os homens de todo jeito e arrastou com eles para Apucarana, no norte do Paraná. Ofereceu casa, comida e a promessa de um bom dinheiro para o segredo do antigelo.

Então eu os conheci nesse tempo e até convivi com eles. Dali em diante os tais cientistas passavam todo o tempo encerrados num pequeno barracão, nos fundos da casa, a pretexto de fabricarem o tal antídoto contra a geada.

De tempo em tempo saiam daquele encerramento para comer, dormir ou recolher algum componente de suas manipulações. Tudo feito no maior segredo; o que servia para aguçar ainda mais nossa curiosidade. Ocasiões havia em que nós os surpreendíamos com algum tempo livre e aproveitávamos para toda sorte de perguntas sobre o contraveneno do frio.

Nem assim, porém, os “doutores alemães” se davam por achados. Dissertavam sobre o progresso das ciências e a tecnologia moderna. Falavam de suas supostas pesquisas em outras áreas da técnica ou da ciência. Nada, porém, sobre o remédio protetor do café. O invento estava em teste: era o que diziam. E assim passávamos os dias na expectativa do final.

O dono da casa era, entretanto, o mais curioso de todos. Reivindicava a patente (pela qual os alemães nem mostravam interesse…), revelando que seu propósito era criar uma empresa de seguro, que a troco de um modesto prêmio iria garantir a produção do café livre da geada.

Passados os dias, as cientistas pediram uma muda de pé de café e sumiram com ela dentro do barracão. Era, enfim, o dia do teste revelador! …

Horas depois, voltaram com ela recoberta de um pó amarelo-cinza que, à nossa frente colocaram a planta no congelador da geladeira.

Era a prova decisiva: se a arvorezinha, vestida assim, resistisse ao frio do congelador, a geada estava definitivamente vencida. Era aguardar…

A oportunidade então deu ensejo a uma celebração, à noite, no clube local, com a presença do prefeito, do deputado e próceres locais. À festa se juntou o povo e o deputado anunciou a boa nova: a geada fora vencida. Tínhamos agora o know how que libertaria o café da inclemência do frio. E, dona do segredo protetor, Apucarana iria se transformar na capital mundial do café. E foi tal a euforia geral que até anunciaram uma caravana para plantar café em Palmas, a região mais fria do Estado. E daí estender o plantio por todo o território, agora sem fronteiras nem paralelos.

E, ao lado disso, dia após dia vigiavam a mudinha no congelador. Era um entra e sai constante. Mas, lá estava ela, no meio do gelo, embuçada no pó mágico. No primeiro dia viva e tenra; dias após passou a enfezar e se finar. E, de repente, ficou preta e morta. Um descalabro! … desconsolados, corremos examinar o pó impermeável: era serragem e cola. Uma impostura: cobrir a planta com pó de madeira. E, como seria com outros muitos milhões de cafeeiros? De onde tirar tanta serragem e a que custo?

O que houve depois disso ninguém ficou sabendo; só que os tedescos, andaram pedindo audiência ao Presidente Juscelino Kubitschek, alegando terem sofrido maus-tratos. Tal será! …

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

Publicado em Artigos