O preconceito linguístico

Recentemente o Ministério da Educação aprovou a distribuição do livro da professora Heloisa Ramos, “Por uma Vida Melhor”, em que a autora defende que as variações  lingüísticas  do povo brasileiro, como “nos vai”, “nóis qué”, “calé as nova”, seja pela falta de concordância verbal ou nominal, ou outro “erro” de gramática,  -embora reprovados  pela  linguagem oficial vigente- constituem variedades legítimas do português brasileiro contemporâneo e são manifestações autênticas da vida social, próprias da cidadania. O episódio ganhou repercussão e chamou atenção para o movimento de tantos outros sociolinguistas que, sob  o título de “preconceito linguístico” (divisa criada por Nildo Viana), agora encabeça o livro “Preconceito Linguístico – o que é, como se faz”, de  Marcos Bagno, escritor e professor da UnB. A obra já alcançou a 50ª edição, rendeu ampla repercussão entre  lingüista e educadores, além de arrecadar uma  bela soma em dinheiro a seu autor e livreiro. A Ideia matriz é o “preconceito”, que, para o autor, resultada da soma de oito mitos linguísticos. O primeiro deles é a suposição da unidade lingüística do português: uma fala vista como homogênea e sem dialetos. Para só ficar com os principais: uma outra das falsidades correntes  é a de que o brasileiro não sabe falar português e, ainda mais, se trata de uma língua de difícil domínio, que só os falantes nativos de Portugal sabem usá-la corretamente.  Outro mito, é o de que as pessoas sem instrução falam feio e errado, porque para adquirir a fala vernácula é preciso seguir as normas da gramática formal. E assim outros lingüistas e educadores vão levando adiante um movimento que, no plano nacional, reivindica para o Brasil o status de  língua em si, com sua gramática de referência, correspondente ao português brasileiro contemporâneo. No plano pedagógico as escolas devem priorizar a prática do letramento, para que o aluno se insira dentro da cultura de letras, e seja capaz, principalmente, de ler e escrever textos dos mais diferentes gêneros. A gramática deve ser deixada para depois. Erro de ortografia não existe, porque toda a ortografia é artificial; ela muda e varia atendendo apenas a uma decisão política, a um simples decreto. A língua sim é natural. É como uma partitura de música, em que cada artista e seu instrumento  podem dar uma interpretação própria e pessoal. A senhora gramática, por sua vez, é que recebe castigo maior. Apontada como a fonte ideológica de todo preconceito, a ela se atribuí o engessamento da língua e, de consequência, a imobilidade cultural e a discriminação social.  Com suas regras imutáveis, nomenclatura numerosa e confusa, a gramática normativa chega a constituir uma ciência esotérica que só alguns poucos iluminados ou sumos sacerdotes conseguem dominar. E tem outro resultado, de igual gravidade: a gramática não se destina apenas a servir de explicação e organização da linguagem humana, oral ou escrita. Confere a seu usuário um encarte superior. Um assomo de “nobreza” e de “virtude”, que o inclui na elite dominante do país. O desemboque de toda esta argumentação é, por seu cabo, política e de raiz marxista, ou esquerdista, como se diz hoje para ampliar a imagem da tela. Estes ensinam que a sociedade tem uma composição dialética, que governa as relações sociais e que deriva do poder econômico e dos modos de produção das riquezas Por sua vez, dentro dela, quem mantém o seu comando detém também um ritual próprio de acesso e dominação social, à disposição, entretanto, de apenas uma parcela menor da população,  sejam aqueles que podem usufruir de uma educação urbana de qualidade e aproveitar os bens culturais oferecidos por uma sociedade desenvolvida. Sendo assim, fica então, à margem uma grande maioria, sem  acesso à educação formal e a seus bens culturais. E, por ai se explica o falar feio, pobre e estropiado das classes  menos desfavorecidas. Vejo em tudo, porém, cores mais fortes do que as do tom natural. Somos cerca de 200 milhões, com 580 mil indígenas vivendo em áreas rurais no Amazonas. Parte dessas comunidades é constituída de apenas 5 a 40 indivíduos. Calcula-se que praticam 180 línguas, é certo, mas originárias de apenas 2 troncos principais, de um falar quase desconhecido e vivendo nas áreas mais remotas do país. Os negros são 15 milhões, mas  abrasileirados e não têm  língua própria. A população de procedência européia ou asiática sempre revelou bom nível de aculturação e respondeu positivamente ao processo político de brasilização. Sua língua de origem foi se confinando aos limites da vida doméstica e às relações dos oriundos. Daí por que me enfileiro à sombra das autoridades do falecido professor Napoleão Mendes de Almeida, Pasquale Cipro Neto, Arnaldo Niskier, Luiz Antonio Sacconi e tantos mais, como Darcy Ribeiro, para quem, apesar da fusão das matrizes, os brasileiros são hoje um dos povos mais homogêneos, lingüística e culturalmente e também um dos mais integrados socialmente da terra. Tampouco, a meu ver, se pode falar em português-brasileiro, como foi sempre do agrado de tantos dos nossos patriotas das letras.  A época dos dialetos já passou e tendem a desaparecer em benefício da unificação idiomática, assegura o professor. Silveira Bueno. E diz mais o catedrático da USP: à medida que mais se distancie o Brasil de Portugal; mais se acentue a dialetação e se evidenciem os elementos intrínsecos da fala do brasileiro, com o acréscimo do contributo externo das correntes migratórias é que  poderemos começar a falar numa língua do Brasil. E, por fim prevê: “Quando se dará este fenômeno lingüístico? Deus o sabe: daqui a uns oito, dez séculos ainda”. Ora, a olho armado, o preconceito linguístico, não é senão mais um dos nossos surtos de nacionalismo, em que agora, à frente lingüistas e educadores de linha esquerdista, procuram nos despojar de um dos legados considerado dos mais predominantes da herança colonial: a língua do colonizador. E o fazem a pretexto de dar legitimidade, expressão democrática e predominância nacional à linguagem não-padrão de pequenos contingentes sociais, de fala “chula”, “errada” e “carente”, e, através dela, denunciar a origem do preconceito lingüístico que é, afinal, preconceito social, decorrente da imposição dos interesses político-sociais das camadas superiores da sociedade. A assunção  dessa consciência política por parte dos professores se assemelha também à iniciativa das elites conservadoras na campanha abolicionista, na meia idade do Império. Não foram os negros que se arregimentaram para romper os grilhões da escravatura. Havia poucos deles na campanha: Patrocínio, Antonio Bento e Luiz Gama. Sua libertação foi obra do branco e representantes das elites latifundiárias. Seu líder  Joaquim Nabuco, e seus maiores ativistas João Alfredo, Eusébio de Queiroz, Tavares Bastps, Silva Jardim, Castro Alves, Rui Barbosa, ainda outros, incluindo os membros do Partido Liberal. Também na revolução comunista, a consciência revolucionária e de sua alienação, não surgiu na classe proletária, como produto das relações sociais e modos de produção, como  previsto. Os portadores dessa suposta consciência de classe foram dois excelentes burgueses, Marx e Engels. O primeiro filho de um jurista,  o segundo de um industrial. Foram os dois, afinal, que representaram a vanguarda da “intelligentzia”  e “consciência proletária”. Concluindo, a língua é, por sem dúvida, um dos instrumentos mais poderosos de integração social e contraposição. De um lado porque o português do Brasil tem 95% do de Portugal, mesmo tirante os vocábulos de origem tupi-guarani. É o que demonstra Silveira Bueno, quando diz mais: “Não existe um só  dos chamados “brasileirismos” que não se possa encontrar nos bons autores portugueses”. Tentar adiantar a criação de um língua para consagrar a singularidade sócio-cultural de um povo, não me  parece que seja uma atitude patriótica que prometa vingar. A criação de uma língua e sua segmentação é obra de muitos séculos, senão milênios. Posto isto, a nosso ver, não é este, de verdade, o momento multiplicador. Semeá-la e multiplicá-la entre todos nós, isto sim é dar um passo adiante, in itinere, que vai nos levar à sua consagração não só como a arca preciosa  da nossa cultura, como, mais ainda, como instrumento poderoso e democrático, capaz de multiplicar  nossa igualdade e garantir o  acesso de todos nós aos bens da cultura e aos benefícios do progresso da humanidade.

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.