O PRIMEIRO SHAKESPEARE TRADUZIDO: HAMLET EM PORTUGUÊS, 1607

A globalização de Shakespeare começou há muito mais tempo do que se imagina. O autor ainda estava vivo, com 43 anos, em 1607, quando marinheiros ingleses encenaram a peça Hamlet na costa da África, em Serra Leoa, com tradução simultânea em português. Sim, o primeiro Shakespeare fora da Inglaterra – e Hamlet estreara apenas quatro anos antes em Londres – foi traduzido na nossa língua. O acontecimento histórico foi a 5 de setembro de 1607, a bordo do navio Red Dragon, da Companhia das Índias Orientais. Na época, Serra Leoa era dominada pelos portugueses, que a descobriram em 1460. O Red Dragon estava fundeado na costa do país devido a um mês de calmaria. O comandante achou que seria bom dar alguma ocupação aos marinheiros e botou-os a interpretarem Hamlet, The Prince of Denmark. No diário de bordo ele assinalou, para aquele dia: “Tivemos a Tragédia de Hamlet e, à tarde, fomos a terra para ver se podíamos atirar num elefante.”

O navio foi construído em 1595 por George Clifford, o terceiro conde de Cumberland. Antes de ser o Dragão Vermelho, teve os nomes de Scourge of Malice ou Mare Scourge (Flagelo da Maldade ou Égua Maldosa). Com 38 canhões, foi usado em incursões no Mar das Caraíbas e no Golfo do México – incursões obviamente de cunho bucaneiro, como era de praxe na época. Em 1600 – com o aval da Rainha Elizabeth I – foi criada a Companhia das Índias Orientais, com o objetivo de explorar o comércio no Oceano Índico. Já em 1601, a Companhia das Índias comprou o navio e o rebatizou Red Dragon, utilizando-o em mais de dez missões até 1619.

A viagem shakespeariana foi a terceira, que durou de 1607 a 1610. O Red Dragon capitaneava a frota que incluía ainda o Hector e o Consent. Sua missão era viajar até Java, para manter relações comerciais já existentes e fazer novos negócios com a Índia e Aden, na Arábia. O comandante da missão e do Red Dragon era o britânico William Keeling (1578-1620), que contava 29 anos à época.

Um fragmento do diário de Keeling sobreviveu, no qual ele detalha as encenações de peças de Shakespeare ao longo da viagem: não só o Hamlet foi apresentado em Serra Leoa, como também Ricardo II, em 30 de setembro de 1607; e, em 31 de março de 1608, Hamlet teve uma nova apresentação em Socotra. Durante um longo período após sua descoberta, os fragmentos do diário de bordo de William Keeling foram considerados falsos. Convém lembrar que por muito tempo tudo relacionado a Shakespeare foi coberto por uma aura de desconfiança, incluindo a autoria das peças e a própria existência do Bardo. Mais recentemente, o que restou dos diários de Keeling foi aceito como genuíno. A tal ponto que, nas comemorações do quarto centenário da morte do Cisne de Avon (outro apelido do Bardo), a British Library de Londres exibiu os originais do capitão do Red Dragon numa grande exposição de documentos inéditos relacionados à figura e à obra de Shakespeare.

É a primeira documentação de apresentações da obra do Bardo por um grupo amador e, além do mais, fora da Inglaterra. O público do espetáculo montado a bordo incluía quatro chefes tribais (com dentes serrados, anéis no nariz e tatuagens de animais exóticos) e vários mercadores convidados na esperança de que a Companhia das Índias pudesse fechar negócios lucrativos. Como a região era dominada pela coroa de Portugal, um tradutor simultâneo estava presente para transpor os diálogos da peça na língua falada localmente.

O pesquisador Gary Taylor – no ensaio “Hamlet in Africa 1607”, publicado na coletânea Travel Knowledge, de 2001, informa que o Red Dragon estava há mais de um mês parado devido a uma calmaria, a caminho de dobrar o Cabo, e que a Companhia das Índias considerava aquele tipo de passatempo saudável para os marujos. E recomendável também para doentes e homens de negócios: relações amigáveis com os nativos significaram que 100.000 limões foram levados a bordo (o limão era uma excelente defesa contra o escorbuto, que grassava nas embarcações da época), assim como uma quantidade de “dentes de elefantes”.

De maneira pitoresca, o capitão Keeling expressa no diário o seu deslumbramento diante do que estava acontecendo. E o faz de uma maneira nada gongórica, ao contrário, sintética como o jornalismo moderno de poucas palavras: “Hamlet! Shakespeare! Africa!” Na véspera da apresentação, ele anota (vale transcrever no inglês arcaico): “Sept 4 Towards night, the kinges interpreter came, and brought me a letter from the Portingall, wher in (like the faction) he offered me all kindly services. The bearer is a man of marvailous redie witt and speakes in eloquent Portuguese. He layt abord me.”

“Sept 5 I sent the interpreter, according to his desire, abord the Hector, whear he brooke fast, and after came abord mee, where we gave the tragedie of Hamlett.”

(Quatro de setembro: Ao anoitecer o interprete do Rei chegou e apresentou-me uma carta de Portugal em que (dentro dos conformes) me oferecia toda espécie de generosos serviços. O portador da missiva é um homem de maravilhoso espírito e prontidão que fala um português eloquente. • Cinco de setembro: mandei o interprete, conforme o seu desejo, ao Hector, onde ele tomou o café da manhã, e depois voltou a bordo do meu navio, onde apresentamos a tragédia de Hamlet.”)

Em 31 de março de 1608, o capitão Keeling anota em Socotra, uma ilha na costa do Iêmen: “Convidei o capitão Hawkins para um jantar de peixe e tivemos uma representação de Hamlet a bordo, que eu permiti a fim de afastar meus homens do ócio, de jogos ilegais e do sono.”

Na data dos quatrocentos anos da apresentação de Hamlet a bordo do Red Dragon, o crítico Steve King fez observações interessantes no blog Today’s Literature:

“Embora um momento estranho na história teatral e colonial, não foi único. Os exploradores espanhóis levaram o teatro para o México e jesuítas franceses encenaram peças para os indígenas dos Grandes Lagos. Mas, pensando bem: Hamlet? É uma peça comprida, cheia de jogos de palavras e especulação filosófica, até mesmo inadequada: por que lembrar sepulturas a marinheiros que encaravam um índice de mortalidade de 85%? Por que fazer desfilar víboras sorridentes (Claudius), fanfarrões (Polonius) e deslumbrados pelo poder (Fortinbras)? Por que, ao início de uma viagem imprevisível e interminável, mencionar o “país desconhecido” do monólogo famoso: (“But that the dread of something after death,/The undiscover’d country from whose bourn/No traveller returns…”/“…o horror de algo após a morte/o país desconhecido de cujas fronteiras/ viajante algum jamais retorna.”) E, ainda, por que sussurrar as famosas dúvidas? “And thus the native hue of resolution/Is sicklied o’er with the pale cast of thought,/And enterprises of great pitch and moment/With this regard their currents turn awry/And lose the name of action.” (“Assim o grito mais natural da resolução/Se afoga na pálida sombra do pensar/E empreitadas de grandes vulto e oportunidade/Desviam-se do caminho planejado/Nada alcançando.”)

“O capitão Keeling era menos embaixador cultural do que um entusiasta do teatro, empolgado com o recente sucesso do Bardo. Não podia adivinhar o sentido dos ventos ou esperar que seus cozinheiros e imediatos ficassem ocupados em ensaios constantes, preparados para ‘ou tragédia, comédia, história, pastoral, pastoral-cômica, pastoral-histórica, tragédia histórica, pastoral-tragicômica-histórica, cenas individuais ou poemas ilimitados.’ Quaisquer que fossem as motivações do capitão ou os esforços de um grumete para interpretar uma Ofélia heroica, tais momentos talvez não tenham transmitido toda a grandeza do teatro de Shakespeare aos quatro chefes tribais e aos mercadores.”

Vale lembrar que na época de Shakespeare não havia atrizes mulheres nos palcos britânicos. Os papeis femininos eram interpretados por rapazes adolescentes, de preferência aqueles que ainda não tivessem engrossado a voz. É incrível lembrar que o publico vibrasse com uma heroína tão feminina como Julieta – ou Ofélia, ou Desdêmona, sem mencionar Cleópatra – apesar de interpretada por um garoto. Mérito maior ainda para a atração e força dos textos shakespearianos. No caso de Hamlet, eram só duas mulheres no elenco: Ofélia, sua namorada; e Gertrude, sua mãe. Imaginem como os jovens marujos do Red Dragon nestes papeis devem ter se esforçado para convencer tão rude plateia. Não posso omitir aqui uma pequena nota de pé de página: a primeira mulher inglesa a aparecer “legalmente” num palco da Inglaterra foi Margaret Hughes, que, em 8 de dezembro de 1660, interpretou Desdêmona (de novo o Bardo!) em O Mouro de Veneza, uma  versão modificada de Othelo. A produção, no Teatro De Vere, destacava no cartaz a introdução “da primeira mulher atuando no palco.” Existe pouca documentação sobre a repercussão da novidade, mas aparentemente foi um sucesso. Margaret Hughes foi convidada para integrar o elenco do Theatre Royal, em Drury Lane, e desempenhou muitos papeis numa carreira que lhe traria riquezas através das atenções românticas do Príncipe Rupert, a quem ela deu uma filha. Quem resolveu definitivamente a questão foi o rei Charles I, grande apreciador do teatro, que assinou em 1662 um decreto real estabelecendo que todos os papeis femininos deveriam ser interpretados exclusivamente por mulheres. (Havia, no fundo dessa decisão, a preocupação crescente de que a prática de papeis femininos interpretados por rapazes adolescentes poderia encorajar o “vício antinatural”, isto é, o homossexualismo.)

Hamlet foi apresentado pela primeira vez no Globe Theatre em 1603, pela companhia dos Lord Chamberlain’s Men (da qual o próprio Shakespeare fazia parte), com Richard Burbage no papel principal. Tudo indica que o Bardo escreveu a peça com este ator em mente: Burbage tinha uma capacidade inigualável para memorizar textos, aliada a uma gama de expressão emocional quase infinita. Hamlet foi a quarta peça mais popular de Shakespeare, superada apenas por Henry VI Part 1Richard III e  Pericles. Em 1621, cinco anos após a morte de Shakespeare, a peça fez uma turnê pela Alemanha e foi apresentada aos monarcas James I, em 1619; e Charles I, em 1637.

A primeira apresentação de Hamlet fora da Europa, excetuando aquela na África, só aconteceria em 1759, pela American Company de Filadélfia, nos Estados Unidos, ainda colônia da Inglaterra. Na temporada teatral de 1864-65, o famoso ator americano Edwin Booth – irmão mais velho de John Wilkes Booth, o assassino do Presidente Abraham Lincoln – interpretou Hamlet durante cem noites no Winter Garden Theatre de Nova York. Mais um parêntese, para destacar a tremenda influência de Shakespeare na cultura mundial. Depois de matar o Presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, com um tiro na nuca, no camarote de um teatro, John Wilkes Booth saltou ao palco, ergueu o punhal para a plateia e gritou “Sic semper tyrannis” (“Sempre assim com os tiranos”), a fala de Brutus após o assassinato de Júlio César. Ator, Booth havia representado Júlio César em Nova York, no papel de Marco Antônio.

Voltando ao protagonista da aventura africana de Hamlet. Em 1609, navegando do Oceano Índico para a Inglaterra, William Keeling descobriu as Ilhas Cocos, que hoje também levam seu nome: Cocos (Keeling) Islands. Keeling participaria de uma nova viagem com uma frota da Companhia das Índias de 1615 a 1617. A bordo da nau capitânea Red Dragon, comandava três outros navios: Lyon, Peppercorn e Expedition. Desta vez, Keeling tinha outras preocupações. Com a mulher grávida, tentou contrabandeá-la a bordo do Red Dragon, mas não conseguiu. Ameaçado de demissão, deixou a mulher em terra e seguiu viagem. Instalou uma fábrica em Sumatra e fez um excelente trabalho do ponto de vista comercial. Alegando problemas de saúde, voltou para a mulher em 1617. Como recompensa por sua dedicação, o Rei James I o nomeou um dos camareiros da corte e, em 1618, foi indicado capitão do Castelo de Cowes, na Ilha de Wight, onde morreu aos 42 anos, em 1620. Bem mais trágico foi o destino do Red Dragon: em outubro de 1619, foi atacado por uma frota holandesa em Secoo e foi tomado ou afundado. Seu capitão, Robert Bonner, morreu na batalha.

Esta história pitoresca da apresentação de Hamlet a bordo de um navio na costa da África – interpretado por um grupo amador de marinheiros e tendo por plateia chefes tribais e mercadores locais – certamente daria um bom filme. Se é que já não está sendo rodado a esta altura. . .

Acadêmico Roberto Muggiati