O TRIUNFO DA MEDIOCRIDADE

Para o advogado americano Leo Loevinger quase todas as pessoas admitem que não são tão bonitas. Outras reconhecem que não são tão sadias como aparentam. Com freqüência as pessoas se desculpam de falhas de memória. Entretanto, nenhuma confessa que não é, ou já não é mais bem-dotada de inteligência ou que se ressentem de alguma dificuldade de raciocínio.

Mas, no mesmo sentido, vejo também, que a maioria das estantes das livrarias estão hoje ocupadas com livros de auto-ajuda ou que prometem dotar nossa inteligência de   mais luzes e poder para ganhar mais alcance e lucidez. E assim é que cada vez mais, de um lado ou outro, aumenta o contingente dos interessados em promover ou incrementar suas qualidades de inteligência, e surgem cursos e professores que prometem nos dotar de maior força de raciocínio e qualidade de entendimento. É claro que parte disso tudo é culpa de um mundo moderno e com as tantas complexidades que a vida acrescenta a cada dia. Penso até, que embora hoje em dia a vida média seja mais longa, as pessoas envelhecem mais cedo, diante da dificuldade de se adaptarem às inovações de um mundo em constante renovação, com isso temos que nos submeter a um constante up date, capaz de nos conservar sempre atuais.

Mas, diante do que vejo e me impressiona ainda mais, é não só a denúncia de José Ingenieros, de que a parte maior do nosso mundo de hoje vive confinada aos horizontes estreitos da mediocridade, e que essa mesma mediocridade caracteriza também no comportamento e valores daqueles responsáveis pelos destinos de nossa organização social e das expectativas do nosso próprio destino. Vagas Llosa, o escritor peruano, já identificou esse quadro em livro recente. Para ele o mundo em que vivemos este marcado, entre outras banalidades comuns, pelo desdém dos valores da arte e a procura do prazer e do entretenimento vazio.

O homem quer viver hoje suas quimeras na rotina do dia-a-dia. Sempre igual um e outro. Sem cobrança, portanto, e sem o assédio das inquietações do espírito e os desafios do nosso tempo.  O medíocre quer se conservar igual a si mesmo e confortado pela certeza de repetir os hábitos de sempre. Para Luiz Felipe Pondé, o mais impertinente dos nossos filósofos, eles hoje  vivem em bandos e ocupam todos  os espaços.

Mário Sérgio Costella,  por sua vez – igual filosofo e educador, tem contribuído com um amplo trabalho educativo e filosófico de exortação da vida e edificação do homem diante das incertezas do nosso tempo. Ele é médico, psiquiatra, escritor, sociólogo e tudo o mais. É do Paraná, de Londrina (mas talvez ninguém saiba disso por aqui). Tentou a vida monástica, na Ordem Carmelita Descalço, foi Secretário de Educação do município de São Paulo, na administração de Erundina, mas hoje ocupa o cargo de Diretor do Departamento de Teologia e Filosofia da PUC de São Paulo. Atualmente difunde seus ideais de exaltação da vida em livros e conferências pelo Brasil.

Uma das coisas curiosas e reveladoras do nosso tempo são também os diários e as memórias. Geralmente são águas da fonte, quando não guardem ressentimentos da vida ou se trata de vingança póstuma.  É por eles, entretanto, que se abre caminho para umas tantas revelações que as formalidades da vida diária e dos papeis oficiais costumam abafar. Por semelhança, são iguais aos tais segredos de alcova. Muitos deles só permitem leitura póstuma para evitar represálias.  Outros como os de Fernando Henrique contam como tudo aconteceu, logo depois de findo seu mandato. Fernando já está no terceiro volume das suas Memórias da Presidência, e o jornalista Roberto Pompeu  fez o inventário delas e nos adiantou  umas tantas revelações pessoais, como o papel de ama seca que Fernando  Henrique teve que fazer na administração  de Itamar Franco, constantemente  inseguro do que fazer (1992-1995), ou ainda, em outra ocasião, quando Itamar desfilou com sua companheira, a modelo Lilian Ramos, no palanque oficial do governo, em festividade cívica, sem que ela usasse calcinha debaixo da saia.

Do escândalo se fez flagrante, que repercutiu no país.

Na opinião de Fernando Henrique, o governo do então presidente russo Boris Ieltsin só mostrava lucidez 45 minutos por dia, que era o tempo que restava do seu dia-a-dia de embriaguês.

Fernando Henrique confessa ainda que, a princípio, viu no em Hugo Rafael Chaves um homem aparentemente sensato e ligado ao sentimento do povo venezuelano em torno de uma visão bolivariana, fora de moda, mas que continha uma promessa de renovação do país. Meses depois, porém, concluiu que Chavez não era senão mais um coronelão, capaz de iludir apenas os desavisados ou sem rumo.

Outro desencanto veio com o presidente Fernando De La Rúa, da Argentina (1999-2001), uma presença agradável, de fala direta e amena. Foi a primeira impressão. Pouco depois ele já se mostrava ausente e perdia o controle da situação. Virou uma “barata tonta” e, um ano depois, renunciou o governo e deixou o país em ruína econômica e social.

Assim, são tantos deles, como a ainda jovem e promissora Ângela Merkel, o dissimulado Antonio Carlos Magalhães e tantos mais, que é agradável de ver em contraponto alheio, sem retoques fotográficos ou falsa postura social.

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

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