Os Cafés Literários de Curitiba

Contardo Calligaris é escritor e jornalista de São Paulo. Em seu depoimento à Academia Paulista de Letras contou que, o que lhe fez falta em Paris, durante sua formação, foi não ter podido contar com um bistrô no Quartier Latin, com espaço em que pudesse conviver amavelmente ou mesmo às turras com seus amigos das letras, ou que servisse então para aliviar a solidão do trabalho de escrever. Mais tarde, em Nova York, descobriu, porém que a Biblioteca Pública da cidade, reservava uma espécie de cubículos destinados a escritores que quisessem escrever no meio dos seus livros. Em Curitiba de antigamente não havia desses lugares, nem se cultivava o hábito de escritor trabalhar em publico. Mas há referências a bares e cafés onde se reuniam os intelectuais da cidade. Eddy Franciosi menciona um deles, o “Cosmonauta Universal”, no “reduto dos Hauer”, hoje Rua José Bonifácio, freqüentado por Emiliano Perneta, Nestor Victor, Nestor de Castro, Francisco Negrão e outros gens de lettres. Mas alguns não eram apenas pontos de encontro, serviam de sala literária, onde se diziam versos e se liam inéditos.A lembrança surgiu durante a recente posse de Eduardo Rocha Virmond na Academia Paranaense de Letras e trouxe a memória do tradicional Café Belas Artes, da Rua XV de Novembro, reduto de nossos artistas e intelectuais durante as décadas de trinta e cinqüenta. Virmond disse que chegou à Academia arredio, mas logo se sentiu à cômodo, porque ali estavam velhos parceiros do café. Antes de sua geração, porém, o Belas Artes já era ponto de convergência de muitos nomes ilustres da vida cultural de Curitiba. João Turin era um deles e marcava presença habitual. Quando foi à Europa, mediante subvenção do governo para aprimorar suas aptidões artísticas, Turin costumava freqüentar as rodas noturnas dos cafés de Paris (Le Dôme, La Rotonde, em Montparnasse), onde alimentava seu gosto pelo convívio humano e fez amizades que foram de proveito para suportar as dificuldades da Europa em guerra. E esse costume ele trouxe de lá. Aquí, quem vinha ou chegava ao Belas Artes perguntava antes se o Patriarca já viera ou viria. Era ele… E, assim, à sua presença, as rodas se formavam e se animavam, com Jayme Balllão, Ciro Silva, José Gelbeck Júnior, Romário Martins, José Peon. Cid Destefani situou o Belas Artes na terceira quadra da Rua XV, entre o Louvre de Miguel Caluf e a loja Paulista de Roupas Brancas. O cronista Saul Lupion de Quadros, o Lupiãozinho, seu frequentador assíduo, descreveu o mundano cenáculo como um amplo salão, com meia centena de mesinhas de tripé e tampo de mármore, onde, sentados em cadeiras de palhinha, os clientes sorviam a exótica rubiácia e respiravam seus exuberantes aromas, enquanto se entregavam descontraídos a seus animados e ruidosos colóquios. Agora pergunto: onde estão hoje os nossos cafés literários e seus animados freqüentadores, de tão agradáveis lembranças? Onde em Curitiba os nossos literatos, em que nichos ou extratos se escondem? A resposta certamente não nos deixa continuar…

Rui Cavallin Pinto, cadeira 13

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.