Os cem anos do Centro Paranaense de Letras

O Centro de Letras do Paraná celebrou recentemente cem anos de existência. Fundado em 19 de dezembro de 1912, por Euclides Bandeira e Emiliano Perneta. O Centro promoveu na data centenária uma verdadeira festa cultural, reunindo expressivo  grupo social e cultural da cidade e promovendo toda sorte de atividades que incluíram, além do programa cultural, atividades diversas, como jantar solene, entretenimentos e até o desfile de carros antigos, exibidos em passeata à moda antiga. A presidência foi conduzida pelo nosso amigo Desembargador Renato Pedroso, seu presidente desde 1999 e a solenidade contou com  prestígio  da presença do  acadêmico gaúcho  Carlos Nejar, da Academia Brasileira de Letras. Para conservar a memória da data secular, o presidente fez editar um lindo álbum de cerca de 500 páginas, com fotografias de personagens, eventos, recepção de novos sócios, concessão de comendas e imagens da cidade e sua trajetória cultural,  através de sucessivas gestões nas mãos das figuras  mais representativas da nossa terra.  Carlos Nejar recebeu homenagem especial e título de mérito. Mas, o que, na verdade, nos surpreendeu, desde o início foi a espontaneidade com que, em dezembro d 1912,  o povo acorreu ao convite de  Euclides Bandeira, e prestigiou a fundação do Centro, criando uma sociedade de letras sem número de sócios, sem distinção de sexo, nem o uso de fardão. A ata, bem elaborada por Clemente Ritz, traz  65 assinaturas, entre as quais distinguimos a  presença dos nomes mais expressivos da vida intelectual do Estado.  Pelos censos nacionais éramos a menor das capitais da Federação, com uma população que não chegava a 80 mil pessoas. Embora já tivéssemos coroado Emiliano Perneta como o Príncipe dos Poetas, não tínhamos  criado ainda um núcleo  cultural próprio capaz de ganhar projeção cultural na vida do país. E, o que tudo isso nos faz pensar também é que, já havia, na verdade, , um sentimento amplo e forte nesse sentido. Abrir um espaço cultural maior para o Paraná. Revelar seus talentos, sua cultura  e seu espírito. Ademais, Isso tudo não prejudica, a nosso ver, o resultado do trabalho do nosso sábio acadêmico Metry Bacila, que, em pesquisa relativamente recente (“A produção literária brasileira e o índice cultural do Paraná”, Rev. da Academia Paranaense de Letras, n. 32.) , revelou que, ao contrário dos outros Estados da Federação, o Paraná mais atual, figurava em último lugar entre suas unidades irmãs, se conferirmos a proporção entre a população existente e o número que elas têm de escritores. Ora, o Paraná só exibia um único escritor para cada 111.082 habitantes de sua população. Muito diferente de Sergipe que contava 1 para cada 15.200. Ou, o Rio de Janeiro, em que essa proporção era de 19.571; no Ceará 27.305, Alagoas 27.305. No Rio Grande do Sul, o indicativo era de 1 escritor para 27.415 e São Paulo 32.878.

O que então representavam esses indicativos? Somos menos propensos às letras  que nossos irmãos de nacionalidade?  Somos menos criativos do que eles, ou, como dizem de nós, somos  mesmo um povo de  taciturnos; gente lacônica também para a arte da escrita? Havia um réu gago que  o juiz achou que era gago também para escrever. Wilson Bóia, este bom e incansável companheiro, deixou um livro com lembranças que viveu em Fortaleza, no Ceará (Associações Literárias de Fortaleza, 1988). Pois nesse livro, só no período de 1910-1930, Registrou a existência na cidade  de 17 diferentes associações culturais, academias e tertúlias (duradouras ou transitórias): Recreio Literário Soriano de Albuquerque, Grêmio Literário Cearense, Academia dos Novos, Academia Cearense de Letras, Academia Rebarbativa, Arcádia dos Quinze, Tertúlia Clóvis Bevilaqua, Padaria Literária, Hora Literária, Grêmio Literário Paula Nei, Grêmio Líbero Cívico, Associação dos Homens de Letras do Ceará, Renascença, Hora Intelectual, Academia de Ciências e Letras, Tribuna Cearense de Antropofagia e Academia Polimática. Ao final,  Metry  submete seus dados a uma analise mais consistente, que parte das transformações e desfigurações que o tempo e o intercurso político-social provocou no perfil paranaense, tornando possível fazer uma população muitas vezes menor, porém, mais  homogênea, alcançar, na segunda metade do século XIX e entrada do século XX, o índice superior que alcançou, de  1 escritor para cada 6,676 pessoas, – o que representava, na época, uma performance  5,5 vezes maior do  que a média nacional.

Hoje, é certo que as circunstâncias são outras, mas partindo  do princípio singelo da antiga sabedora chinesa, de que cada escola que abre espanta um ignorante, também, num cenário maior, cada templo de cultura que se levanta ergue  com  ele o nível cultural e de bem estar da comunidade inteira.

Que o Centro de Letras do Paraná continue a celebrar seus séculos, porque é semente que fecunda a terra e ilumina a humanidade.

Rui Cavallin Pinto

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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