OSWALD MIXDORF E A COLÔNIA ALEMÃ DE ROLÂNDIA

Ao contrário da versão comum, o desenvolvimento extraordinário alcançado pelo Norte Paraná, não foi resultado exclusivo da Companhia de Terras, porque à sua contribuição somam-se a de outras 40 diferentes empresas imobiliárias, e até mais, que participaram da promoção do desenvolvimento da região. Realmente, o espetáculo de ocupação e colonização do setentrião paranaense assumiu as proporções de uma verdadeira odisséia, cuja memória reclama a urgência e a atenção de sua preservação, posto que são poucos ainda os registros históricos ou   memórias vivas do histórico empreendimento e seus personagens.

Assim, merece destaque a iniciativa recente do filho Klaus de promover a publicação do diário de seu pai Oswald Nixdorf, pioneiro e líder da imigração alemã de Rolândia e um dos fundadores da cidade e de Londrina, inclusive. Oswald era engenheiro agrônomo, com especialidade em agricultura tropical, pela Universidade de Witzenhausen, na Alemanha. Natural de Bremen, ainda jovem, passou dez anos em Sumatra, na Indonésia, como administrador das plantações de tabaco e pecuarista. Passou também por outra breve  experiência de trabalho nos Estados Unidos e depois, em 1932, veio ao Brasil,  como encarregado da “Sociedade Alemã de Estudos Econômicos do Além-Mar”,  incumbido de encontrar uma área que servisse ao assentamento de colonos alemães e judeus, mediante  um projeto de colonização que acomodasse seus patrícios, descontentes com as recentes  eleições da Alemanha  que consagravam a vitória do Nacional Socialismo de Hitler e a institucionalização do antisemitismo. Além da entidade alemã, Oswald ainda passou a ser o primeiro diretor técnico da Companhia de Terras Norte do Paraná. Suas memórias compõem um diário com permanente registro de sua presença e seu trabalho no Brasil ; sobretudo  sua lida com a colônia alemã dos patrícios da Gleba Roland,  com uma regularidade rara e digna de ver. O texto é fluente e fácil de seguir pelos caminhos de suas providências pioneiras e as vicissitudes de conduzir uma comunidade de famílias alemãs, para  tentar implantar uma cidade no seio de uma imensa mata tropical, ainda mal saída da obra do criador.

Viver então em acampamentos rústicos, de ranchos de palmito, abrindo caminho à força dos próprios músculos e a golpes de foice e machado, através de baixadas e vales infestados de malária e febre amarela, convivendo com cobras, carrapatos e  bichos de toda espécie. O diário faz reviver passo a passo esses tempos difíceis de criação de um mundo novo, até alcançar a condição de  titular da cidadania honorária da cidade e receber a medalha de méritos especiais do Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Além disso se acrescente as homenagens prestadas por Frederich Prúster, no seu livro “Roland e Rolândia” e Orion Villanueva em “Rolandia Terra de Pioneiros”

Os imigrantes de nacionalidade alemã foram o primeiro que se instalaram no país. Remontam a 1829. Embora numericamente inferiores aos poloneses e ucranianos, revelaram fácil assimilação e forte dinamismo. Sua vocação urbana logo favoreceu sua assimilação e influência social. Para Ernesto Niemeyer e o próprio Reinhard Maack, na verdade nunca houve no Paraná uma verdadeira colônia alemã: elas rapidamente se diluíram em cidades. Assim Rolândia que, com o surto dos preços do café se converteria na quarta maior cidade da microregião de Londrina. Conhecida como a “Alemã do Norte do Paraná”, devido sua principal composição étnica, vindos a partir da década de 30 e após a 2ª Guerra Mundial, embora predominantemente alemã, sua população tem também fortes traços de italianos, portugueses e japoneses.

Porém, os imigrantes alemães se ressentiram da Guerra e Oswald acabou denunciado por espião. Foi preso e amargou um longo período de vida carcerária e sucessivos interrogatórios. Perdeu sua Granja, queimaram sua casa rústica e sua esposa e quatro filhos menores, tiveram que fazer a pé o caminho de Londrina, para se protegerem com amigos. Fizeram de sua granja uma dependência da Secretaria de Agricultura, para a produção de sementes. Oswald conviveu com criminosos comuns e até sofreu ameaça de morte e de sua família. Foi um período de muita violência provocada por explosões nacionalistas e xenófobas. Não houve responsabilidade nem foram reparados prejuízos. Era então i proibido falar alemão em público e adquirir propriedade. Rolândia mudou de nome: para ser Caviuna. Rolândia era homenagem ao herói medieval alemão Roland, cujo monumento orna o portal da cidade.

O diário é, na verdade, ainda hoje, uma modalidade rara de literatura. São poucos os que o praticam e no Brasil o exemplo é o Diário Secreto de Humberto de Campos. Porém, no geral, são relatos íntimos, como os de Ariel, Virgínia Wolff, Thomaz Mann. O de Oswald é o relato de um empreendimento visando plantar uma comunidade no seio de uma floresta fechada, numa extensão de 500 km de comprimento e 200 de largo, uma comunidade de cidadãos civis. Não uma comunidade religiosa, visando preservar sua religião; ou de políticos para criar uma nova forma de vida social e comunitária. São famílias que se aventuram no Novo Mundo, num continente ainda inóspito e desconhecido para fugir do nazismo e do antisemitismo.

Não podemos conter, porém, a observação natural, difícil de aceitar de pronto, de que um simples encarregado da Sociedade de Estudos Econômicos do Além-Mar e técnico da companhia inglesa (CTNP);  um estrangeiro recém vindo, sem domínio do português, pudesse influir na política econômica de ambos os países para, em sonho de noite de insônia, descobrir a solução para a continuidade da ferrovia da colonizadora, a propósito de que a Companhia não dispunha de recursos financeiros como o governo alemão não permitia a saída de divisas do país, para o  pagamento dos lotes de seus cidadãos.  Foi então que, em noite feliz, Osvald teve a revelação, que transmitiu ao general Asquith, diretor da Companhia, para que intermediasse junto ao governo alemão, para que o pagamento dos terrenos fosse depositado em Banco alemão e seu valor convertido em trilhos e equipamentos da ferrovia. Assim a estrada foi concluída com sucesso e chegou até Londrina, em festa popular.

O diário foi elaborado e traduzido com particular esmero, em linguagem própria e rica, quanto convém. Mas, o que lhe dá maior valor é o de representar um dos tantos episódios pioneiros iguais a esse, multiplicado em todo Estado, pelo esforço de construir um modelo de desenvolvimento e grandezaa que constitui hoje o merecido orgulho de todos nós.

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