Paraná: Um Surto Improvável da Ciência

É possível definir uma ciência regional? E o Paraná tem uma história de ciência regional própria, que mereça ser posta em destaque diante das outras? Fabiano Ardigó (itajaiense, licenciado em História pela Tuiuti e doutorando da Universidade de Oxford) diz que tem (ou teve?..), como organizador da obra “Histórias de Uma Ciência Regional”, da editora Contexto, na qual reúne capítulos sobre as instituições científicas paranaense e seus agentes mais representativos, durante os anos de 1940-1960. É trabalho de oito historiadores da ciência, doutores e pesquisadores (quase todos do Paraná), que tentam reconstituir um período considerado dos mais promissores e de maior presença da ciência paranaense, tanto no plano nacional como internacional. Como se vê, portanto, a obra guarda um tempo próprio, dentro das presilhas de duas décadas, pois, se fosse hoje talvez não contasse com o mesmo destaque, posto que, atualmente, São Paulo concentra mais de 45% de todos os orçamentos estaduais de pesquisa do Brasil e é responsável por 50% das publicações científicas nacionais. Só de títulos de mestre e doutor São Paulo já concedeu dois milhões deles, diz a imprensa atual. Penso que, seguindo a trilha do livro, o foco inicial desse improvável surto científico foi realmente o Museu Paranaense, com a inauguração de uma pesquisa científica organizada em nosso estado, permitindo que assumíssemos uma projeção nacional, dentro dessas duas décadas, a despeito das limitações do seu orçamento e de outras dificuldades mais, como as restrições impostas pela guerra ao trabalho dos seus pesquisadores estrangeiros.


Museu Paranaense, 1940

Daí a propriedade do subtítulo: Capítulos de uma Ciência Regional Improvável. O Museu Paranaense foi fundado em 1876, como Muzeo de Coritiba, mas no início não registrou trabalhos de pesquisa ou escrutínio científico: servia só para expor amostras da riqueza do estado em feiras e para servir a interesses políticos. Foi em 1936 que o médico José Loureiro Fernandes assumiu sua direção e consolidou seu corpo diretor, para fazer a instituição cumprir o papel de produzir pesquisa científica de qualidade. Mas, diz nosso coordenador, o Museu só vai assumir sua fase propriamente científica, quando passou a editar, por duas décadas, os Arquivos do Museu Paranaense, cuja publicação vai surpreender as comunidades científicas nacionais, por compartilhar com suas congêneres, de temas do mais alto interesse científico. No mesmo período, ainda, o Museu promoveu sessenta expedições científicas, estudando, coletando e pesquisando a fauna e a flora do estado in situ. Propõe ainda nosso autor que, caso se efetivasse o compromisso do governo do estado de dotar o museu de prédio próprio (como prometido onde hoje está o Teatro Guaíra), nosso museu se colocaria ao lado dos maiores de história natural da América do Sul. Esse período, porém, durou pouco, pois, passado o governo de Manoel Ribas, seu grande incentivador, os que o sucederam adotaram outras prioridades, dispensando o instituto do assessoramento que até então prestava aos programas do governo. Tampouco a federalização da Universidade importou em maiores recursos e condições de trabalho, semelhantes àqueles que o Museu oferecia; além de provocar a migração de pesquisadores para a área acadêmica, a troco da estabilidade e a segurança oferecidas pelo serviço público. Um papel histórico semelhante enfrentou o IBPT (Instituto de Biologia e Pesquisa Tecnológica, hoje Tecpar), fundado por Manoel Ribas em 1940 (sua menina dos olhos), espelhado no modelo do Instituto Biológico de São Paulo, para que, sob a direção de Marcos Enrietti, servisse de centro de pesquisa aplicada para o saneamento e fomento da agropecuária do estado. Sua contribuição alcançou inúmeras conquistas, quanto ao combate à broca do café (com o espalhamento da vespa de Uganda), a peste suína e outras mais, participando assim do mesmo surto de desenvolvimento e qualidade científica que caracterizou o período. A partir de 1960, porém, a instituição vai se ressentir das mudanças do quadro político-econômico do estado, com a escassez de recursos e a redução do seu quadro de pesquisadores. Em razão disso, portanto, registra a doutora Maria Elizabeth Lunardi, da Unicamp, que o Instituto é levado ao afastamento dos seus objetivos originais, agravado pela crescente especialização e a sofisticação dos seus procedimentos. Entretanto, concorda a autora que, a TECPAR hoje voltou a assumir a vanguarda da pesquisa científica do estado e retoma seu modelo organizacional multidisciplinar, o mesmo que animou sua fundação, desde a origem. Certamente os fatos não se sucedem sozinhos, sem agentes. Assim, entre quantos contribuíram para tornar possível esse boom regional, o livro perfila três deles, em capítulos próprios: o padre Jesus Moure, Waldemar Lange e Reinhard Maack, três optimates da ciência paranaense e co-participes do que parecia ter um resultado improvável.

Misto de explorador e cientista, o geólogo alemão Maack veio para o Paraná na década de 1930, e viveu aqui mais de 43 anos. Foi incansável explorador e, no caminho da ciência, viajou pelas terras mais distantes e até deixou fama de uma vida surreal. Por seus serviços e seus méritos recebeu a cidadania brasileira e o título de doutor honoris causa, mas muito antes esteve preso injustamente, por dois anos no Rio de Janeiro, suspeito de ser súdito do Eixo e estar a serviço do Nazismo. De tudo o que pode realizar, porém, deixou entre outras contribuições, o reconhecimento de que o pico Marumbi não tinha a altura indicada (1.801m), nem era o ponto mais alto do estado (1.517m). Com sua equipe esse título passou para o pico Paraná, com 1.992m, até então um monte sem nome e que não fora ainda ascendido. Registro importante de suas pesquisas foi adotar, também, nos Arquivos do Museu Paranaense, a teoria da deriva continental de Alfredo Wegener, resultado de sua análise comparativa da geologia do Paraná e da costa africana, no sentido de comprovar que eram unidas e formavam um só continente (Terra de Gonduana). Valiosa contribuição foi também a publicação de sua obra-prima, a Geografia Física do Paraná, o primeiro trabalho de classificação das regiões naturais do estado, ainda hoje considerada obra de particular referência na configuração física do nosso território. Desse elenco também ganhou presença o homem de ciência e sacerdote Jesus Santiago Moure (mais aquele que este); biografado pelo paranaense André de Souza Carvalho.

Moure foi pesquisador de intensa vida científica, votada por décadas aos estudos entomológicos; cujo tempo passou recolhendo, identificando e pesquisando abelhas. Foi autoridade internacional da nossa apifauna, e dentro dela se dedicou ao grupo das neotropicais, pois há cerca de vinte mil espécies conhecidas, afora as desconhecidas e as que nunca o serão, em virtude do impiedoso desmatamento e a depredação do meio ambiente. Por fim, completa a galeria desses renovadores de nossa ciência, a figura do paleontólogo Frederico Waldemar Lange, de longa trajetória intelectual e científica, consagrada por prestígio nacional e internacional. Lange a princípio era geólogo e foi chefe do Setor de Geologia e depois diretor do Museu Paranaense, durante cuja passagem produziu inúmeros trabalhos, cuja qualidade o projetaram no cenário científico nacional e internacional. As suas pesquisas acabaram por conduzi-lo, porém, para a arqueologia, sobretudo para a microfauna do período devoniano, da bacia sedimentar do Paraná, de que se fez especialista no Brasil e no exterior. Em 1955 passou a paleontólogo da Petrobras onde vai assumir e alternar cargos de destaque, como cientista e profissional da empresa. Seus escritos e seus trabalhos paleontológicos e estratigráficos ainda hoje se mostram válidos e são reproduzidos nos maiores centros universitários da América e da Europa. Por fim, esses auri tempora da ciência paranaense não resultaram apenas do idealismo e do esforço renovador de uns poucos gênios científicos, mas incluem o contributo igualmente valioso de muitos outros, como, p.ex., da figura icônica de Loureiro Fernandes, um dos pioneiros da arqueologia paranaense e seu grande incentivador, mais Marcos Enrietti, Metri Bacila, João José Bigarela, e tantos outros. E ainda se acrescente que esses capítulos improváveis se reportam a um período em que Curitiba tinha pouco mais de 120.000 habitantes e era uma cidade provinciana, distante de 400 quilômetros de São Paulo e de outros centros científicos, por caminhos até impérvios.. Digamos, portanto, que foram todos pioneiros, porque esse é o título que merecem os que procuram abrir caminho novo ou ampliar os horizontes da ciência da vida, em proveito do homem e de sua sabedoria.

Rui Cavallin Pinto, cadeira 34

Luís Guilherme Bergamini Mendes, administrador do site da APL, é Engenheiro de Computação formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Mantém o site da APL desde 2001.

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