PARANÁ: UMA NOVA VISÃO HISTÓRICA?

Alexandre Drabik foi, por muito tempo, membro e colaborador do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. Nesse período editou os livros “Turbilhão Verde Amado” (1993), “Paraná: meu Paiquerê”, e, por último “Nova Visão da Nossa História” (2006).  Todos eles, produzidos após sua aposentadoria como funcionário da Caixa Econômica Federal e estimulado pelo convívio e o clima de estudo e debate que passou a entreter com os historiadores da casa. Guiado pelo que passou a ver e saber, chegou a se convencer e lamentar que a paranaense não tem orgulho de sua própria história, quando, na verdade, o berço de nossa própria nacionalidade está justamente aqui, entre o que é hoje o Paraná.

Além disso, os curitibanos (paranaenses só depois da emancipação…) constituem desde os primeiros tempos uma individualidade de feição própria, de cultura e valores definidos e irradiados do planalto curitibano além disso, a eles se deve a extensão e a conquista do extremo meridional do Brasil, pois chegou a alcançar as fraldas da foz do rio da Prata, rompendo a linha de Tordesilhas.

Para Drabik, descoberto o Brasil D. Manoel (que vivia na Corte e estava pouco inteirado das conquistas portuguesas) manteve, entretanto, o segredo dos espanhóis por 3 anos, embora logo (em 1501 e 1503) tenha despachado seus melhores navegadores (inclusive Vespúcio), para promoverem o reconhecimento das terras e suas riquezas. Seguindo o autor, só depois de se instalarem em São Vicente e Cananéia, onde deixaram degredados (como intérpretes da língua e a colherem informações sobre as riquezas da terra), prosseguindo a exploração do litoral até a costa do Prata. Na altura de São Vicente e Santa Catarina, teriam notícia da existência de ouro e prata, por indicação dos índios, apontando para o interior do continente. Então, a muitas luas havia uma montanha de Prata (Potosi) e um rei branco que se cobria de ouro. Mas havia uma vereda que levava até lá: era o caminho de Peabiru.

Pois foi a procura desse caminho que animou as incursões dos portugueses para além de Tordesilhas e promoveu a expansão dos seus domínios, antes das iniciativas colonizadoras. Para Drabik o caminho de Peabiru foi, pois, a “pedra de toque” que animou as aventuras desses primeiros conquistadores e do próprio governo português. E muitos historiadores e arqueólogos que se empenharam em redesenhar o trajeto que Alfredo Ellis chamou o “clássico caminho de Guayra”.

E o caminho de Peabiru por seu caráter local e antecipatório da nossa história, mereceu ser objeto de um amplo trabalho de pesquisa e exposição, promovido por Drabik em parceria com seu colega do Instituto, o também historiador Luiz Roçague-a Netto, que, depois de aprovado pelo Instituto Histórico, foi encaminhado à Secretaria de Cultura, solicitando a abertura de processo de Tombamento, para sua preservação como patrimônio histórico do Estado. O trabalho fez levantamento das fontes, de relatos diversos e uma rica bibliografia de pesquisa arqueológico e testemunhos visuais. O arqueólogo Igor Chmiz, da UFP, percorreu e confirmou sua datação milenar, em trechos ainda preservados. Clemente Gaioski fez igual percurso e recolheu material arqueológico.

O caminho de Peabiru era um tronco que percorria todo o Estado do Paraná no rumo Oeste, a partir do litoral (para Drabik, Paranaguá, para outros Cananeia, etc.), e atravessava o continente.  Para ele convergiam inúmeros ramais, provindos de diferentes origens. Representava uma vala de 2 metros de largura e 40 a 50 cm de profundidade, revestida de uma espécie de grama permanente, que renascia, mesmo quando queimada (tiririca?…)

Aí está a precedência assumida pelo Paraná na História do Brasil, versão Drabik. O Peabiru está à frente das primeiras notícias que se tem da terra, e oferece a possibilidade de um caminho aberto para o conquistador alcançar as riquezas do El Dorado. Mas, enfim, ele nunca completou esse percurso, nem alcançou a riqueza prometida.

Existem, porém, outras fontes que sustentam nossa prioridade, como foi a casa de fundição de Paraguai que pagou o primeiro quinto de ouro a Portugal. A ocupação de toda a região Sul também não se fez sem resistência sem réplica de incursões castelhanas. Ainda no primeiro século os Adelantados do Paraguai tentaram ocupar todo o interior fundando Guaíra e Vila Rica e implantando o sistema de encomiendas. Entretanto foi tão tenaz a resistência dos índios guaranis, que o governo, não podendo dominá-los, acabou cedendo o território à catequese dos jesuítas. As Reduções foram então semeadas em todo o noroeste e centro do Paraná; mas, tempos depois, resultaram destruídas, pela razzia das bandeiras paulistas, embora seus remanescentes ressurgissem na República Guarani, ou “Sete Povos das Missões”, à margem do Uruguai, para servir (igual à Colônia do Sacramento), às disputas das duas coroas pelas fronteiras do Sul. Os “curitibanos” e “parnanguaras” participaram de todos esses confrontos, com sacrifício humano e material, mas figuram no livro como primeiros desbravadores e, mais que isso, como precursores da definição do nosso território, cuja disputa se encerrou com o “Acordo de Paz”, do Tratado de Santo Ildefonso, entre Portugal e Espanha, em 1777.

A tese ganha merecimento pela sua originalidade e o esforço de reservar ao Paraná o papel pioneiro da nossa história. Seríamos protagonistas das primeiras imagens da terra e suas promessas de riqueza. Há, na verdade, o registro de nossa presença precursora no Sul, mas são atos isolados e dispersos. Não há sentido colonizador. Só mais tarde ganham expressão histórica e se incorporam à memória do país.  O caminho de Peabiru, por exemplo, nunca foi trilhado. Ora, a História é ciência compósita, conjuntiva e deve levar à composição de um quadro humano. Como diz Ortega y Gasset, história é mais que o factum é o faciendum, capaz de fazer dele elos de conexão e finalidade.

Enfim, o trabalho é mérito do autor, mas traz a chancela do Instituto Histórico, uma instituição comprometida com o estudo, a pesquisa, a preservação e a difusão de nossa História. Era ele, portanto, que, diante da relevância e singularidade da tese, que deveria promover sua divulgação e debate, especialmente entre os que são mais sensíveis aos temas da nossa História regional.

Não seria este o verdadeiro papel de uma instituição histórico-cultural?

Acadêmico Rui Cavallin Pinto

 

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